Incompreendida

Lar rompido por brigas histéricas, violência tanto física quanto emocional e completa ausência de afeto

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02 de julho de 2016

É claro como água que o terceiro filme de Asia Argento, diretora que estilisticamente se sustenta sem o arrimo do sobrenome famoso, conserva teor autobiográfico, guardadas as devidas proporções. Em “Incompreendida”, uma menina de 9 anos é prejudicada pelos horrores de um lar rompido por brigas histéricas, violência tanto física quanto emocional e completa ausência de afeto. No roteiro também assinado pela cineasta, a garota protagonista ganha o nome de Aria, um daqueles que podem ser lidos na identidade de Asia Aria Maria Vittoria Rossa Argento, e também a filiação artística comum à realizadora, filha do cineasta Dario Argento e da atriz Daria Nicolodi.

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Sob a ótica de uma menina que compartilha com o público sua história de pouca idade e muita vida vivida, o pesadelo de Aria (Giulia Salerno) é infinitamente mais amedrontador que as noites mal dormidas de garotinhas normais, por puro medo do bicho papão. Nesse caso, os olhos de Aria estão bem abertos e os gritos ferem os ouvidos, as agressões são muito doloridas e os pais mais ameaçadores que qualquer monstro do imaginário infantil. Charlotte Gainsbourg, em desempenho impecável, é a mãe de Aria, musicista desvairada e negligente. No papel do pai, temos um galã (Gabriel Garko) de produções de gosto duvidoso. Após intermináveis desentendimentos que rendiam ódio e hematomas, Aria e suas irmãs serão testemunhas da separação dos dois.

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O maior companheiro de Aria, ainda mais fiel que sua melhor amiga do colégio, é o gato de estimação que ela chama de Dac. Quando o pouco que restava do lar enfim desmorona, Aria vagueia pelas ruas e tem no ronronar de Dac sua maior representação de afeto. A ovelha negra e o gato preto, feitos um para o outro. No turbilhão de abusos à infância de Aria, sensações agradáveis e novas descobertas também são experimentadas, como a paixonite pelo menino mais bonito do colégio e o consumo regado a vômito do primeiro cigarro. Há em Aria uma ousadia que a diferencia das demais (um adjetivo tão pertinente à própria Asia Argento), a menina não tem medo de andar pela rua e se misturar com os notívagos, não tem medo da morte quando chega ao limite. Seu sorriso sobreposto à tragédia de seus ferimentos é o mais belo sinal de satisfação e reconhecimento da própria coragem. A doçura que se eleva à violência desmedida; essa é, aliás, uma ótima frase para definir “Incompreendida”, o filme como um todo.

Festival do Rio 2014 – Mostra Panorama

Incompreendida (Incompresa)

Itália – França, 2014; 110 minutos

Direção: Asia Argento

Com: Giulia Salerno, Charlotte Gainsbourg e Gabriel Garko

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4