Insubordinados

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20 de março de 2015

Dirigido por Edu Felistoque, o filme “Insubordinados”, vindo da 38ª Mostra de Cinema de São Paulo, dialoga com a fragilidade da vida. A protagonista Janete (Silvia Lourenço), é a prova viva de tal contestação ― ela passa o filme no interior frio de um hospital, acompanhando o declínio silencioso do pai, um ex-coronel da PM já em estado vegetativo. Ali, ela espera a morte dele chegar enquanto revive mentalmente um recorte vívido da própria infância. Suas lembranças são transmitidas ao público por meio de imagens produzidas em uma câmera Super-8. Nelas, o pai ainda jovem e ativo profissionalmente brinca carinhosamente com a filha. Janete relembra os momentos, memórias coloridas que colidem com sua realidade toda em preto e branco. Fica a sensação de que a vida é curta demais, resumida a noções de ontem e hoje  ― uma menina protegida pelo pai e uma mulher que espera o inevitável. Fases separadas por anos, disfarçados em minutos.

insubordinadosInserida na rotina hospitalar, Janete encontra na imaginação uma saída para escapar de sua realidade, mais solitária do que nunca. Em terreno infértil para a inspiração, a moça desafia a lógica e começa a escrever uma trama policial. No enredo, ela se transforma na delegada Diana e as pessoas com as quais ela se relaciona também ganham papéis fictícios no romance. Desse modo, a criação de Janete ganha a tela para providenciar a fusão da ficção com a realidade. “Insubordinados” como produto final é na verdade uma colcha de retalhos. As imagens utilizadas para ilustrar o romance escrito pela protagonista são trechos de um material já utilizado. Trata-se da série “Bipolar” exibida pelas emissoras Canal Brasil e Warner. As cenas do hospital, filmadas atualmente e roteirizadas por Silvia, se unem às imagens reaproveitadas da série de TV. Um processo de recauchutagem que pode ser tachado de pouco criativo.

insubordinados5Vale ressaltar a qualidade do roteiro da atriz, aprimorado pelo tato de Felistoque. Tão bom que seria ainda mais agradável uma maior participação de Janete, na vida real, do que de Diana, no mundo da imaginação. Um texto preciso em sensibilidade que não precisa de muitas linhas de diálogo para se comunicar com o espectador. Que ser humano não compreende, só na observação, a solidão ou a perda de um ente querido? Um filme econômico que concede belos momentos, como o sonho da personagem durante um cochilo no leito vazio do pai ou seu passeio libertador em uma cadeira de rodas.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4
  • http://www.tupi.am/nafita Ana Rodrigues

    Que bom que você curtiu. Eu não embarquei na forma como foi desenvolvida a boa ideia, mas gostei da sua argumentação.