Jauja

Um dos realizadores argentinos mais ousados reinventa o faroeste com existencialismo metafísico

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28 de junho de 2015

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“Jauja” de um dos mais ousados e controversos realizadores argentinos, Lisandro Alonso, pode desde já ganhar o título de filme-cabeça que todos sairão falando na temporada. Adaptação de um estilo literário popular na argentina, o ‘gauchismo’, sobre a vida de cavaleiros do campo arcaicos numa tradição moribunda. Era a epítome do homem cabra-macho, tomando seu chimarrão, lidando com o gado. E ter problemas com sua filha-moça, então, jamais. Quanto mais se o seu protagonista for o calejado Viggo Mortensen, ele próprio a representação atual do arquétipo tradicional do Homem com letra maiúscula, além de ter co-produzido e ajudado a compor a trilha sonora. Aquele que salvou a Terra Média no blockbuster “O Senhor dos Anéis” e perscrutou as trevas da alma como ator-fetiche nos filmes de David Cronenberg, além de ter feito há pouco tempo um outro eficiente faroeste “Longe dos Homens”. Atinado ao projeto até por outra enorme coincidência poliglota: é filho de pai dinamarquês e mãe norte-americana, tendo passado sua infância em Manhattan e viveu vários anos na Venezuela, Argentina e Dinamarca.

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Com isso o roteiro existencial de “Jauja” ganha novos ares no gatilho da testosterona de militares em recesso, numa época já esquecida dos grandes campos argentinos ainda explorados e neocolonizados por europeus, ante a resistência dos insurgentes armados que sequestram a bela filha do líder fardado interpretado por Viggo.  Teria a jovem sido levada contra a sua vontade? Ou teria fugido como uma Julieta para um Romeu armado, traidor do exército de Viggo, em defesa de uma cultura que esteja sendo massacrada por invasores estrangeiros sem direito ali? Teria o pai ido no encalço por protecionismo de sua linhagem? Ou por não conseguir aceitar os novos tempos, a mistura de raças ou a simples desobediência de sua prole sob um comando direto de um superior hierárquico? Diz a regra que a História é contada pelos vencedores, com raras exceções, como a de Alexandre O Grande quando entendeu que apenas se misturando aos conquistados conseguiria realmente governar as terras assimiladas. Então será que o protagonista ao enxergar um resgate romanceado de sua filha, não estaria apenas em negação quanto ao futuro da terra que estaria colonizando, ou seja, a inevitável miscigenação do futuro?

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Cercado por vastos horizontes áridos em vários tons rochosos aludindo à Patagônia argentina, contrastado pelo colorido ímpar do figurino formal de época, a fotografia vai sujando o tipo de caubói incansável dos clássicos filmes de faroeste, trazendo um novo western metafísico de planos abertos, que começa a misturar a narrativa antes direta e simples da caçada em um questionamento da promessa de terra vazia ao seu redor, com tudo o que as gerações vão cobrir deste deserto no futuro defendido pelo passado. O próprio nome do filme, ‘Jauja’, alude a uma região no Peru que os indígenas chamavam de paraíso, e que aqui simboliza este Éden indomável que estão tentando controlar.

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Mesmo às vezes bancando um pouco o intransponível, principalmente ao deixar a geografia mover a história, ao invés de um roteiro mais textual em si, sua arte vibra inegável. Vide as desde já antológicas cenas, que fazem a obra realmente crescer: da alegoria da bruxa da caverna de Platão, como se fosse uma versão idosa do feminismo representado por sua própria filha (e lembrou muito a este crítico a cena da caverna da mulher-aranha que controlava o tempo do filme “Krull”), e a belíssima cena final anacrônica num presente perdido…

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4