Jia Zhangke, um Homem de Fenyang

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03 de setembro de 2015

Em “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang”, Walter Salles toma a dianteira em uma função inversa à coletividade tão peculiar no cinema do chinês Jia Zhangke, ótica que capta o desconforto da nação chinesa na individualidade sentimental de cada um de seus personagens, perdidos na arquitetura em irrefreável reformulação. O cineasta de “Central do Brasil” (1998) segue firme na contramão para se preocupar com o indivíduo, somente ele, quase isolado se a ligação com o mundo exterior não fosse muito forte. Jia Zhangke, ninguém menos, é essa pessoa que aparece única, o homem da multidão chinesa, “apenas” a maior população mundial. A oportunidade cedida a Jia, de mostrar-se no cinema por meio das lentes de Salles, legitima as ressonâncias do olhar artístico do asiático em territórios longínquos ― um diretor faz suas malas para ir do Brasil à China com a missão de descobrir o homem que se esconde por trás de filmes como “Plataforma” (2000), “O Mundo” (2004) e “Em Busca da Vida” (2006).

Traçar o perfil de Jia Zhangke sob a perspectiva de Walter Salles exige o entendimento de que ali, na tela do cinema, desenha-se uma complexa relação do ser no presente com suas lembranças. Da simplicidade da proposta, levar Jia e acompanhantes ao set de filmagem de seus filmes, surge a verdadeira preciosidade da obra, tanto para o público quanto para o homem de Fenyang: filmá-lo em sua caminhada pelas ruas de seu país, facilmente mutável como argila, é o mesmo que observá-lo andar pelos meandros de sua própria memória. Tudo mudou, ele mesmo reitera (aqui e em sua própria filmografia), e os encontros com pessoas que pertenceram ao seu passado asseveram a importância que o filme tem ao resgatar, de baixo das pedras do tempo, antigas sensações. O próprio “lailai”, o moleque que transitava pela vizinhança, também passou por mudanças evidentes ― ele é agora detentor de uma nobre fama, figurando entre os mais importantes realizadores chineses dos últimos anos.

Mérito inestimável de “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” é a não preocupação em vasculhar a privacidade da personalidade retratada, em tom bisbilhoteiro e fútil. A grande história de amor do realizador é com a câmera, com direito à declaração apaixonada logo no início da projeção. Ela que torna todas as suas impressões possíveis e prontas para o compartilhamento, e nesse contexto, pouco importa sua vida pessoal. O objetivo ali é descobrir as motivações criativas que se escondem na imensa genialidade do diretor, o que não exclui suas fragilidades. Inclusive, é o mal-estar dos personagens, compartilhado com a população conterrânea, que funciona como matéria-prima nos filmes de Jia. Na lupa de Walter Salles, nem a angústia, força motriz poderosa, consegue escapar. Vale ressaltar outro ponto alto do documentário ― ele desestrutura a ideia de que, a partir do momento em que a câmera é ligada e apontada para o seu objeto, existe atuação mesmo que seja para imprimir aspectos incontestáveis da realidade. Desnudo de qualquer vaidade, daquela que nos faz ressaltar nossas próprias qualidades, Jia Zhangke aceita o desafio de apresentar-se sem disfarces, permitindo-se até a exposição de certas verdades que doem. A sensação que fica para o público é a de que se conhece bem alguém, mesmo se nunca houve um mísero cara a cara. O humilde homenageado torna-se íntimo, a quilômetros de distância.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5