Jornada ao Oeste

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18 de junho de 2015

O média-metragem de Tsai Ming-liang, “Jornada ao Oeste”, é ideal para o espectador que admira o desafio proposto por narrativas nada convencionais. Toda forma de arte está condicionada ao olhar do outro, à interpretação alheia, e o filme em questão do cineasta malaio eleva essa afirmativa à máxima potência. No início da obra, o rosto de Denis Lavant (ator-fetiche do diretor francês Leos Carax) é filmado por longuíssimo tempo; aliás, Tsai Ming-liang é maestro de tomadas prolongadas. Uma face que muito se expressa na economia de seus movimentos, em um processo de face a face tão íntimo a ponto de constranger, ou mesmo irritar, o público mais convencional. O que o personagem, tão exposto e desconhecido, estaria sentindo? Logo no início fica claro que “Jornada ao Oeste”, de corpo e alma, está submetido ao olhar do espectador, como confirma uma frase no desfecho. É bom estar preparado para uma jornada de interpretações.

Quando a câmera enfim sai do close em Denis Lavant, o foco torna-se um monge (Lee Kang-sheng, ator-fetiche de Tsai Ming-Liang), com vestimenta típica em um tom dissonante de vermelho, que caminha a passos extremamente lentos. O mundo ao redor prossegue em sua velocidade normal, veloz como a rotina. O cenário é a cidade de Marselha, na França. Região dona de uma população miscigenada que observa com estranheza (outra forma de subjugação ao olhar, desta vez no interior do quadro) o monge que caminha vagarosamente. O mérito mais convencional do filme é a bela fotografia; no entanto, o que mais importa são os sentidos velados, que exige do espectador o raciocínio mais ativo em um jogo de desvendamentos. A fusão da lentidão com o movimento do mundo existe ali para estabelecer um questionamento da verdadeira significação do tempo. É de fato o tempo que Tsai Ming-Liang gosta de manipular. Desde a longa primeira tomada aos passos do monge, uma trilha sacrifical que ganha um séquito ― o misterioso personagem de Denis Lavant. Pondo em xeque a ligação racional entre tempo e espaço, Tsai Ming-Liang confecciona um filme que é uma experiência sensorial sem precedentes.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4