Karen Chora no Ônibus

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21 de novembro de 2014

Quem diria que chorar no ônibus fizesse tão bem a Karen.

Partindo de uma premissa interessante na sociedade moderna, que é a curiosidade de saber as razões de uma pessoa chorar em público, ainda mais em um transporte coletivo, a câmera, como observadora imparcial, que não toma partidos (aliás, a melhor coisa para não cair na pieguice), acompanha Karen chora no ônibus (Karen llora en un bus, 2011) do roteirista e diretor colombiano Gabriel Rojas Vera, para contar a história da personagem-título (Angela Carrizosa) que se deixou aleijar pela vida e pelo marido se separa e, mesmo sem ter pra onde ir ou o que fazer, decide quebrar a cara pra aprender a se descobrir.

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Com uma narrativa seca e direta ao assunto, sim, a película carrega certo grau de melancolia agridoce, o que não deve ser confundido com lamúria, pois em nenhum momento o cineasta sente pena de sua protagonista. Isso acarreta de certa forma uma dificuldade de se criar um vínculo inicialmente com Karen, pois nada é muito explicado sobre porque ela deixou tolher de tal forma sua individualidade (senão, pela mesma razão que todas as mulheres ainda subjugadas no mundo). Mas é com a entrada da outra figura feminina central da história, Patrícia (defendida com vigor pela intérprete Angelica Sanchez), que os contrastes realçam a ambas.

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Enquanto Karen é inflexiva, apagada, mas resiliente (simplesmente por decidir não mentir mais para si mesma), Patrícia parece super decidida e imbatível, só até a verdade que esconde na fantasia de vida que criou quebrar suas hipocrisias. É por estes jogos de inversão que o filme permite aflorar cenas sinceramente sensíveis, como a primeira vez que se solta a dançar na noite, ou quando decide fazer amor com o primeiro homem na vida que não fosse seu marido, e a interação com a marionete no restaurante.

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Um pouco difícil de se engajar logo de cara, mas para os que ficam, serão recompensados, e, assim como Karen, deixarão aquela figura chorosa num ônibus para trás. Boa inserção de um diretor masculino no universo feminino.

Karen Chora no Ônibus

Diretor: Gabriel Rojas Vera
Com: 

 

Ángela Carrizosa Aparicio, María Angélica Sánchez, Juan Manuel

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4