Kurt Cobain: Montage of Heck

Nem Courtney Love tira o brilho deste Documentário

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20 de junho de 2015

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Com um subtítulo do naipe de “Montage of Heck”, ou seja, montagem dos infernos, o maior desafio de um documentário homônimo sobre o precocemente saudoso músico Kurt Cobain da banda Nirvana seria conseguir reunir a força irrefreável e o inconformismo da vida do personagem real, traduzindo-o para a sétima arte em forma e conteúdo. Mesmo que às vezes as nebulosas circunstâncias de seu suicídio possam sem querer desvirtuar ou competir com a relevância de sua arte, muito mais paradigmático se torna traçar paralelos da gênese de um gênero musical com um retrato social de época e ao mesmo tempo com a patologia comportamental de toda uma geração. E é aí que este filme triunfa.

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Dirigido por Brett Morgen, ao invés de contar a história de suas músicas, elas viram trilha sonora das próprias influências do artista, em diversos arranjos inovadores, conforme relatos e acontecimentos vão sendo destilados das formas mais originais possíveis. Desde trazer à vida diários do próprio biografado aos da 1a namorada. Ou nos rascunhos dos cadernos com letras e arranjos de suas obras. Desenhos profanos. Ou mesmo animações angustiantes com passagens tenebrosas de sua vida. Tudo num clima quase de horror claustrofóbico sublimado pela arte.

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Engraçado que, muito pelo contrário, o documentário começa com imagens idílicas de um ‘american dream/way of life’ (ao som de uma adocicada ‘All Apologies’), tão discrepantes da revolta e inadequação que o músico sentia, justamente para o contraste só crescer a compreensão sobre um momento histórico focado em desmistificar e destruir com os antigos arquétipos. Foi na prosperidade de Aberdeen/USA que os pais imaturos de Kurt decidiram se casar e ter filhos, sem saber o que era aquilo. Os pais se separaram, o filho medicado como hiperativo, jogado para lares de todos os familiares que não o queriam (como na canção ‘Sliver’)….E a transposição para a decadência social de Seatle que se sucedeu apenas refletia a hipocrisia com a qual Kurt já estava familiarizado que o fez se sentir mais alienado, desconectado e sem amigos, virgem e drogado… Tudo para se entender numa sociedade a dizer que se você não se encaixasse você nao existia (numa versão lúdica à la pesadelo de ‘Smells like teen spirit’). Eis o nascimento do movimento musical do Grunge. Uma ira pós-punk rock.

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Crônica-temporal psicodélica e agressiva, traduz uma urgência de matar ou morrer, mas não deixar ninguém se interpor entre você e sua auto-compreensão. Como Kurt dizia: está tudo na música. O que importava mais era o que se passava na cabeça de quem se identificou com a música do que na de quem a escreveu. E mesmo diante da indiferença ideológica meio cética da atualidade da Internet, ainda há muito de Nirvana para entender a juventude atemporal que precisa destruir a geração anterior para passar a tocha adiante, desde a Grécia Antiga. Um tiro na testa perturbador, confidente, violentamente poético e mordaz. Desta vez nem Courtney Love consegue tirar o brilho desta jóia, apesar de tentar atrapalhar.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5
  • http://criticasdeumacinefila.blogspot.com/ Alê Shcolnik

    Parabéns pela crítica! Certeira!!!