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EM BREVE NOS CINEMAS

Indo à forra!


Colasanti empreende uma crítica avassaladora e corajosa ao nada que emana do tudo contido no denso labirinto acadêmico-intelectual

Por Luiza Nascimento

Fotos Álvaro Riveros

25/09/2007

Quem assistiu ao inteligentíssimo (e hilário!) monólogo de Alessandra ColasantiAnticlássico - uma desconferência e o enigma vazio -, sabe o quão difícil será escrever alguma coisa sobre ele, muito embora a tal desconferência, em seus "descaminhos", como bem salienta a palestrante, diga muito tecendo um arremedo magistral acerca de coisa nenhuma.

Partindo do nada (e ficando por ali mesmo), e sendo regida pela mais fina e ferina ironia, Colasanti alfineta a sociedade naquilo que ela tem de mais ilustre: seu corpo de baile intelectual. E não é à toa que uma bailarina, oriunda do "Ballet Imperial de Moscou", está em cena. Não é fácil passar pelos meandros desse mosaico de conteúdo nobilíssimo e sair incólume. É preciso requebrar. E é o que ela faz - com maestria.

Imersa no lamaçal da "História", a atriz, autora e diretora do espetáculo, aventa uma pseudo-conferência delirante (para alguns poucos privilegiados, diga-se de passagem), com todas as firulas, protocolos, súmulas, aforismos, jargões e exercícios fóbicos que a imaginação lhe dá direito de exagerar, ou, simplesmente, de extrair da vida real - pelo menos da vida de quem partilha desse tipo de real. De coffe break a "break storm", passando por vídeos ilustrativos, demonstrações toscas, Picasso, Stanislavski, Benjamin, Foucault, Nietzsche, Derrida, Nijinski, Diaguilev, Degas, Duchamp, nada nem ninguém escapa da lábia profícua, pestilenta e aparentemente estéril da bailarina de vermelho. Todos aqueles (ou muitos daqueles) que de fato participaram desse grande tumulto de alardes antitéticos que é a pós-modernidade entram na dança. Dança que, aliás, não prescinde de um quê libidinoso.

Dessa forma, e auxiliada pelo seu fiel escudeiro Hamlet (João Velho), Colasanti propõe a reflexão: para onde estamos indo se, ao final, o que existe é uma negação contínua de tudo que aí está? Para isso, ela não faz mais do que, como já foi dito, citar nomes (muitos...) e, exibindo uma atuação irretocavelmente blasé, organizar palavras uma após a outra de forma quase irritante, mas genial. Pronto. Está composto o pas-de-deux.

Ao afundar nesse nada de pedantismo intelectualóide, na verdade, a moça critica uma camada da sociedade (a nata!) que cria e recria, enquanto diz pretender aniquilar, marcas, proposições, símbolos, "bolsas", egos, e uma tralha acadêmica burocrática e decadente cuja função, olhando lá do espaço sideral, parece ser tão só engendrar ainda mais excluídos. E Colasanti, deslumbrante como a bailarina de vermelho, detona essa bomba com um jogo de cintura invejável. A idéia é não só brilhante, mas profundamente bem executada, do cenário ao texto.

Imiscuindo-se por um discurso supostamente vazio, a atriz se transfigura em uma porta-voz sem precedentes de algo que há tempos queríamos ouvir, sintonizando, finalmente, a arte teatral com as "grandes questões" de nossa época - se é que você me entende.

Serviço:

Anticlássico - uma desconferência e o enigma vazio

Espaço Sesc - Sala Multiuso

Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana. 

Telefone: 2547-0156

Sexta às 20:00hs; sábados e domingos às 17:00h e 19:00hs.

Ingressos: R$ 6,00.

Até 30 de setembro de 2007.