Por Mario Abbade
30/11/2007
Almanaque Virtual: O senhor é um artista multimídia: cinema, quadrinhos, livro, teatro, entre outras formas de arte. Tem preferência por alguma em especial?
Alejandro Jodorowsky: Se tiver que escolher uma, prefiro a definição de poeta, pois sempre procurei realizar meu trabalho através da poesia.
AV: De seus filmes, qual que o senhor gosta mais, acha o mais bem acabado?
Alejandro Jodorowsky: "Santa Sangre" é o filme que mais gosto. Todos os filmes têm um lugar especial em meu coração, mas o resultado final que mais me agrada é "Santa Sangre". Gosto muito de "A Montanha Sagrada", porém é um filme sobre a mente. Já "Santa Sangre" dialoga com o coração.
AV: Você acha que seus filmes dos anos 70 dariam certo hoje em dia?
Alejandro Jodorowsky: Esses filmes discursavam para uma época especifica. São relevantes, mas qual o sentido de repeti-los hoje em dia?
AV: Seu novo projeto para cinema é "King Shot". Sobre o que é? Já tem elenco?
Alejandro Jodorowsky: Não vou entregar o roteiro (risos), mas se você quer uma definição, é um western spaghetti metafísico com gangsteres. Nick Nolte e Marilyn Manson já assinaram.
AV: E Psicomagia?
Alejandro Jodorowsky: É um outro projeto. Mais pessoal e com um orçamento baixo. Esse deve chegar primeiro do que os outros projetos, pois não preciso de recursos externos para a produção. Eu mesmo vou custear.
AV: O que é a psicomagia?
Alejandro Jodorowsky: É uma terapia coletiva que procura curar uma doença através de uma experiência. Um ato que possa curar. Um exemplo: Você quer matar sua mãe? Como lidar com isso. A psiquiatria explica o problema e te medica com remédios e através da conversa. Na psicomagia você realiza um ato para curar o problema. Um caso que posso citar, entre dezenas, é sobre uma mulher que perdeu seu filho com três meses de gravidez. Ela queria tentar um outro filho, mas o trauma não a permitia. Eu coloquei uma pequena bacia redonda na barriga dela, que permaneceu por 3 dias. Isso foi para representar os 3 meses de gravidez. Após o terceiro dia, ela retirou e enterrou e o problema foi junto.
AV: Porque a sua versão do "Duna" não deu certo?
Alejandro Jodorowsky: Eu trabalhei dois anos nessa produção. Eu reuni profissionais como Moebius, H.R. Giger, Orson Welles, Pink Floyd, Mick Jagger, Salvador Dali, Alain Delon, Geraldine Chaplin, entre outros, para o projeto. Mas os distribuidores queriam um blockbuster e não um filme reflexivo. Por isso boicotaram o projeto. Ironicamente, muito dos profissionais que estavam envolvidos na produção, depois trabalharam em outros filmes de ficção cientifica, como "Star Wars" e "Alien". Eles aproveitaram conceitos que foram desenvolvidos para o meu projeto sobre "Duna". Eu tinha até um produtor francês, mas para recuperar o investimento, precisávamos dos distribuidores.
AV: E acabou que o "Duna" feito pelo cineasta David Lynch também não deu certo.
Alejandro Jodorowsky: A culpa não foi de David e sim dos De Laurentiis, que eram os produtores. Eles assassinaram o filme de Lynch. Um produtor tem a capacidade de destruir um projeto de um cineasta.
AV: A frustração desse projeto causou alguma decepção com a sétima arte?
Alejandro Jodorowsky: Não, mas acabei me dedicando aos quadrinhos. No final foi ótimo para mim. Tenho um imenso prazer de trabalhar com quadrinhos.
AV: Talvez a solução não seja fazer filmes para o sistema, que visem o lucro, para que depois se possa fazer filmes menores, artísticos e mais autorais, não concorda?
Alejandro Jodorowsky: Isso é uma maneira de lidar com o problema. Mas não acredito nessa solução. Um exemplo é o cineasta Sam Raimi. O segundo "Evil Dead" é brilhante. E agora ele está preso no sistema fazendo filmes como "Homem-Aranha". Não vejo vantagem nessa relação. Se eu fizesse um Super-Homem, ele não seria picado por uma aranha e sim por um "chato" que tivesse pego em alguma relação sexual (risos).
AV: Mas Clint Eastwood não é um contra-exemplo? Clint fez muita bomba para Hollywood, para conseguir dinheiro para realizar obras-primas que ganharam o reconhecimento artístico dos críticos e do público.
Alejandro Jodorowsky: Não vejo diferença entre Eastwood e John Wayne. A única diferença é a abordagem. Eastwood faz filmes contra a América e John Wayne fazia a favor. No final é o mesmo nacionalismo estúpido. São filmes sobre a América. E a América não é o centro do mundo.
AV: Mas existem cineastas estrangeiros que fizeram essa tática de ser usado por Hollywood, para depois conseguir tocar seus projetos pessoais.
Alejandro Jodorowsky: Não conheço um que tenha conseguido fazer isso e teve um bom resultado. Um exemplo são os cineastas orientais que estão em Hollywood. Não conseguiram fazer um filme a altura de seus projetos realizados em seus países de origem. Um outro exemplo é Paul Verhoeven. Ele fez muito dinheiro com "Robocop" e "Instinto Selvagem". Agora ele retornou a Holanda, seu país de origem, e fez o "Black Book" ("A Espiã" no Brasil). E o resultado é um filme ruim e idiota. Um longa que continua explorando a já cansada fórmula anti-nazista da 2ª Guerra Mundial. Para mim, Hollywood te mata como criador.
AV: Então Hollywood não presta?
Alejandro Jodorowsky: A realidade deles é a TV com seus enlatados. Produtos como "Desperate Housewives", "Heroes", "Lost", para citar alguns. São puro entretenimento. E a criação é tratada como negócio. É uma indústria com o objetivo de divertir. Você assiste e depois de algumas horas, já esqueceu. Essa é a realidade deles. Não são criadores e sim homens de negócio.
AV: Então você deve detestar os filmes do Quentin Tarantino?
Alejandro Jodorowsky: Não tenho nada contra. Ele é o pupilo dele, o Robert Rodriguez, fazem filmes sobre o cinema. Em minha opinião, um cineasta deveria fazer filmes sobre a vida, suas experimentações e reflexões.
AV: Você vai fazer uma seqüência para "El Topo"?
Alejandro Jodorowsky: Já escrevi o roteiro. Mas não estou com pressa. Pretendo viver até os 120 anos (risos) e com calma vou fazer o filme. Quem sabe daqui uns 20 anos. A seqüência de El Topo vai custar 20 milhões de dólares. Se "King Shot" tiver um bom resultado, com certeza conseguirei os recursos para fazer a continuação de "El Topo".
AV: Cineasta David Lynch disse que agora que descobriu a tecnologia digital, não irá mais trabalhar com película. Com o digital, ele tem mais liberdade e seus filmes custam bem menos. Não seria uma solução para seus projetos?
Alejandro Jodorowsky: Sim. Um exemplo foi a caixa lançada recentemente nos Estados Unidos com meus filmes "Fando e Liz", "El Topo" e "A Montanha Sagrada". Eu pude remasterizar algumas cenas como tinha idealizado. Estive em Nova York durante o processo e pude mexer nas cores e em algumas cenas. Pude fazer coisas que na época não tive os recursos. Os filmes estão agora na maneira que sempre sonhei.
AV: Se pudesse escolher um ator ou atriz para trabalhar, qual seria?
Alejandro Jodorowsky: Nunca pensei nisso. Vou trabalhar com Marilyn Manson, pois acho ele um monstro interessante. E também vou trabalhar com Nick Nolte. Ambos disseram sim e já assinaram para estarem em "King Shot". Estive em Los Angeles, há pouco tempo atrás e algumas estrelas me procuraram com a intenção de trabalharem comigo. Posso citar Charlize Theron, que me disse que faria qualquer filme comigo. Meu filho vai estar em "King Shot". Ele é meu ator preferido.
AV: Nos quadrinhos, algum projeto novo?
Alejandro Jodorowsky: E como tenho. São dezenas de projetos com artistas talentosos e reconhecidos. Um exemplo é Incal, que teve o primeiro, depois fizemos o "Antes do Incal" e agora vai ter o "Depois do Incal".
AV: Com certeza nesses projetos não existe algum com um super-herói norte-americano. Pergunto isso, pois você desenvolveu o "Incal" com Moebius, e ele já desenhou os super-heróis da Marvel.
Alejandro Jodorowsky: Moebius é um prostituto (risos). Basta lembrar o que ele fez no caso do "5º Elemento", do diretor Luc Besson, que foi plageado do "Incal" e mesmo assim, Moebius aceitou trabalhar com Besson. Botaram muito dinheiro e ele não se importou de trabalhar com ele. E meus super-heróis são bem diferentes dos criados nos Estados Unidos. Seus heróis fazem parte de sua cultura imperialista.
AV: Você acha que o destino dos Estados Unidos será o mesmo do Império Romano?
Alejandro Jodorowsky: Acredito que sim. Acho que eles ainda vão implodir. Mas eu não gosto de falar sobre política. Mas posso dizer que os Estados Unidos é uma nação que está constantemente em guerra. Lutaram contra os nazistas e japoneses, depois vieram os coreanos e vietnamitas. Depois teve a Guerra Fria com os russos. Depois foi a vez da China ser o perigo. No começo da guerra contra o Iraque, os franceses eram o inimigo, pois não concordaram com a guerra. Atualmente é a guerra contra o islã. São todas guerras econômicas. E no futuro, quem o império norte-americano vai lutar? Vai ser contra os alienígenas. Eles nos vem preparando para isso. O cineasta Steven Spielberg é o clone da política internacional americana. No começo de sua carreira, ele era a favor dos alienígenas, posso citar "Contatos Imediatos do 3º Grau" e o "ET". Atualmente, ele é contra. A grande maioria das produções hoje em dia é contra os alienígenas. São retratados como invasores cruéis. Uma idiotice. Por que um outro povo viria para cá, com o objetivo de nos destruir. Isso é uma loucura. Com a descoberta de planetas semelhantes ao nosso, fica a certeza de possa ter vida nesses lugares. Com certeza, os Estados Unidos irá pedir uma união de todos as nações na Terra para ficarem contra os povos de outros planetas. Isso é uma característica básica de uma nação imperialista. Não tem como não pensar em "Star Wars" e no Império. Por que construir bases na Lua? Por que ir até Marte? A explicação reside nessa necessidade imperialista norte-americana.




