Por Aline Aimée
12/02/2008
Em maio do último ano, a resenhista Victoria Saramago, publicou seu primeiro romance, Renée Esfacelada, cuja leitura é uma inusitada experiência, já que enredo e forma compõem um todo original e ousado que nos convida a uma leitura em nada convencional.
Em primeiro lugar, temos o angustiante enredo, no qual Renée, cega e amarga, opta pelo ostracismo após uma brilhante carreira como cantora mirim nos anos 80. Faz de sua casa no Rio Comprido um microcosmo, onde se enclausura na companhia do filho indesejado, da empregada de quem depende e do filho desta, de quem se torna amante. A rotina de frustração e tédio é quebrada por Oswaldo, o admirador secreto cujas confissões feitas através de fitas de áudio e enviadas pelo correio conseguem acariciar o ego insatisfeito de Renée.
Numa narrativa não-linear, ora em primeira pessoa, ora em terceira, a autora relativiza o foco narrativo, apresentando uma protagonista reflexiva e interlocutora de si mesma. Renée fala de si e para si, mas por vezes distancia-se tanto do narrado que parece dar vez a uma outra voz que narra de fora, como se descrevesse um filme, cuja protagonista não poderia ser outra. Imersa no próprio egocentrismo, Renée busca compreender as relações de ódio mútuo com o filho, de dependência com a empregada (e anteriormente com a mãe) e de incesto com o afilhado, bem como rememora os fatos e relações passados que a moldaram tal qual ela se mostra no presente, numa tentativa de recomposição do mosaico desmantelado que se tornara.
Após a cegueira e a gravidez indesejada, Renée se reconhece só e, como num espelho partido, concebe a si mesma fragmentada. A própria narrativa busca mimetizar essa fragmentação, esse esfacelamento da personagem, cuja vida é revelada em episódios partidos, desordenadamente ao sabor das lembranças.
A linguagem, experimentada com ousadia, é também reflexo difuso da personalidade atormentada de Renée: altiva, complexa, redundante. Numa vida cujo glamour esvaiu-se em escândalos e decepções, resta a Renné retirar-se de cena, tornar-se única expectadora dos próprios devaneios e degustar do último resquício de requinte que lhe sobra: o lingüístico.
Entre taças de vinho e rompantes melodramáticos, Renée quer emergir do tédio. Enquanto Victória Saramago emerge, marcando sua estréia na cena literária. Começou bem.
Renée Esfacelada
Victoria Saramago
252 página, 25 reais
Multifoco
