Por Fernanda Teixeira
02/04/2008
O Festival É Tudo Verdade selecionou este ano para sua mostra competitiva, 11 documentários brasileiros de curta-metragem. Todos concorrem a um prêmio de R$6.000,00 (seis mil reais) conferido pelo Júri Oficial do Festival ao melhor curta, acrescido de uma recompensa em serviços técnicos oferecida pelos Estúdios Mega. Além disso, estes 11 filmes ainda concorrem a uma láurea de aquisição oferecida pelo Canal Brasil no valor de 10 mil reais. Premiações como estas, principalmente a em serviços, são de grande valor no âmbito dos curta-metragistas. Ser o vencedor numa competição dessas não só possibilita uma maior visibilidade ao filme, como muitas vezes viabiliza a realização do próximo trabalho do diretor.
Dentre os curtas concorrentes deste ano está Mar de Dentro (2008), de Paschoal Samora. Um belíssimo trabalho do diretor sobre velhos pescadores e sua relação com o mar. Ao longo do filme, eles contam um pouco de suas vidas; de como começaram no mar; e falam sobre seus amores e suas aventuras. O curta vai muito além de explorar personagens interessantes com suas falas exóticas. Muito pelo contrário, os depoimentos são apenas pano de fundo para o filme de Paschoal. Ele explora, sobretudo, os ambientes em que estão esses homens e, claro, o mar. Aliado a uma excelente fotografia, Mar de Dentro constrói imagens poéticas acerca do universo que quer retratar. Sempre se utilizando de enquadramentos muito bem compostos e da beleza natural do lugar.
As entrevistas dos pescadores fogem totalmente do lugar-comum. Nada de depoimentos diretos para a câmera. Em raros momentos, a pessoa inclusive aparece falando, e quando isso acontece é sempre um plano mais distanciado e observacional. O "personagem" mesmo que esteja diante da câmera não olha em sua direção. Na maior parte dos casos, a voz é usada em off sobre tomadas do próprio personagem em sua rotina ou apenas em cima de belas imagens do mar. Os trechos dos depoimentos são sempre curtos, porém muito coesos, encaminhando, sem dispersar, a narrativa.
Paschoal Samora é seguro na direção e consegue fazer seu filme na medida certa, sem excessos. O ritmo de Mar de Dentro faz lembrar o próprio ritmo das ondas no mar. Seja por seus longos momentos de silêncio, que permeiam os depoimentos, seja pela nostalgia na fala dos velhos pescadores, ou pelos suaves movimentos de câmera espalhados por toda a obra. O resultado é um belo curta, realizado com precisão, e que conjuga de forma exemplar sua forma e seu conteúdo.
FESTIVAL É TUDO VERDADE
COMPETIÇÃO BRASILEIRA - CURTAS
MAR DE DENTRO (Idem)
Brasil, 2008. 14 minutos.
Direção: Paschoal Samora


