Por André Tag
06/03/2008
Meus amigos, esta crítica, apesar de cinematográfica, não se refere a um filme. A obra a que me refiro é, no caso, João (2008), de André Iki Siqueira e Beto Macedo, um esboço audiovisual que dá uma idéia do que será o documentário ainda a ser finalizado.
É muito bem-vinda a idéia de tratar da biografia do mais saudoso homem de imprensa esportiva, João Saldanha, "o comentarista que o Brasil consagrou". Trata-se de uma das personalidades mais exuberantes da mídia, seja ela desportiva ou não. Este que foi, além disto, importante militante comunista, técnico do Botafogo e da Seleção Brasileira, e candidato à vice-prefeitura do Rio de Janeiro, é antes de tudo personalidade que lhe torna único. Briguento, machista, mitômano, botafoguense histórico, sem papas na língua e de humorístico mau-humor, devia ter doado seu corpo à ciência. O cinema não podia jamais tê-lo esquecido.
Vamos ao filme, ou o que quer que seja. O começo é um rotineiro e cronológico álbum de fotografias. Papai, mamãe, cachorro, gato e galinha. Uma infância atípica no Rio Grande do Sul, em que, aos 6 anos, contrabandeava armas, suas eternas companheiras, para ajudar maragatos. Há alguns depoimentos de parentes entremeando as fotos. Nada a ser destacado, com exceção do próprio assunto tratado. Opção interessante. Para que inventar? O time está ganhando o jogo.
As facetas do "personagem" são tratadas de maneira linear até que, em dado momento, há uma bela montagem dos contraditórios depoimentos a respeito da legendária perseguição ao goleiro Manga de revólver em punho. De vez em quando, mesmo em times que estão vencendo, substituições são providenciais.
É lamentável, no entanto, o tratamento dado ao episódio de sua demissão do cargo de treinador do selecionado nacional. Seria necessário não só um filme, mas talvez uma telenovela para se colocar todas as questões e versões quanto ao fato relatado.
Só se atribui a desmesura com o então Presidente da República, Médici, ao resistir em escalar Dadá Maravilha, e sua militância comunista, como causadores de sua queda. Omite-se, por exemplo, a derrota para o Atlético Mineiro, no Mineirão, e para o Bangu, em jogo treino, em 1970. O seu gênio que fez ressurgir uma seleção em escombros desde o fracasso da Copa de 1966, fazendo o canarinho virar fênix, num brilhante 69 (refiro-me ao ano) já não se manifestava. Chega a soar tendencioso. Talvez fosse necessário que se fizesse um "Rashomon" (obra-prima do cineasta Akira Kurosawa que apresenta diferentes pontos de vista sobre um mesmo fato), tal como no tão bem feito episódio de Manguinha, oferecendo ao espectador uma melhor visão do ocorrido.
É também para se sentir falta de maior abordagem de seu trabalho como "crítico futebolístico". É esta atividade que o faz "consagrado" e o torna eterno.
De maneira geral, os que se deliciavam ao ouvir seus comentários na saída do Maracanã, ao fim dos jogos, encontrarão a mesma diversão. Episódios como sua prisão ao dar tiros numa farmácia por causa de pilhas que não funcionavam são de se rolar.
É uma obra imperdível para quem ama ao futebol e também para os pobres coitados dos filisteus que não sabem apreciar o que é bom...
FESTIVAL É TUDO VERDADE
COMPETIÇÃO BRASILEIRA - LONGAS
JOÃO (Idem)
Brasil, 2008. 80 minutos.
Direção: André Iki Siqueira e Beto Macedo


