Por Raphaela Ximenes
17/04/2008
Quando "Falling Slowly" ganhou o Oscar de melhor canção original esse ano, desbancando o favoritismo das músicas de "Encantada" (2007), de Kevin Lima, muitos ficaram curiosos em relação ao filme Apenas Uma Vez (Once, 2006), de John Carney. Quase dois meses após aquela noite, a produção finalmente estréia no Brasil. Voltando a 1991 e ao filme do diretor Alan Parker, "The Commitments", se conhece um jovenzinho irlandês de 21 anos, franzino, ruivo e aparentemente tímido que quase era apagado por outros personagens mais extrovertidos e ruidosos. Ali, Glen Hansard estreava já em uma produção elogiada, que se tornou cultuada até hoje. A música foi seu começo no cinema e é através dela que ele volta a chamar a atenção, ao ganhar o Oscar supracitado e ao interpretar o papel principal de Apenas Uma Vez.
Hansard seguiu pelo caminho da música com sua banda The Frames. Suas incursões pelo cinema foram todas por essa estrada. Assim, quando estava realizando Apenas Uma Vez, o diretor e roteirista John Carney, que já foi baixista da banda, convidou Hansard para estrelar seu filme. Este, à primeira vista, é um musical disfarçado, que conta a história de dois músicos, um rapaz que toca violão pelas ruas de Dublin (Hansard) e uma moça que tenta se sustentar de todas as maneiras possíveis, mas se revela uma grande pianista (Markéta Iglová). Decidido a entrar para a indústria fonográfica, o rapaz convida a moça e mais um grupo de rapazes, que também tocavam nas ruas, para gravar uma demo (um CD de demonstração do trabalho). O intuito do rapaz é levar a demo até Londres e tentar convencer alguma gravadora de distribuí-lo.
A primeira coisa que nos conquista em Apenas Uma Vez são suas canções fortes, que vão embalando a história melancólica do casal principal. Elas são o contraponto do filme, as emoções que o rapaz e a moça não conseguem expressar explicitamente. A sutileza das interpretações de Hansard e Iglóva comove por conseguir passar a força dos sentimentos que eles guardam. Tudo o que não é verbalizado, explode em canções interpretadas com a mesma força de suas letras. Os personagens são comuns, mas suas complexidades surgem nas palavras não ditas, nos olhares confusos e na linguagem corporal contida. Por isso, não há necessidade de nomeá-los, Hansard e Iglóva são um casal que se esbarra, trocam experiências e a partir dali tudo pode acontecer.
Boa parte do mérito se deve à direção de Carney, que deixa todos muito à vontade, atores e público, transformando o último em um feliz observador de um momento especial na vida simples daquele rapaz e daquela moça. Toda essa atmosfera de "o que poderia ser" em que o filme é envolvido, demonstra a sensibilidade do diretor para contar uma história comum de forma particular. Hansard cativa e Iglóva mais ainda, mas não da maneira óbvia tal como os grandes filmes românticos tendem a cativar. Seus personagens nos conquistam com suavidade e muita naturalidade. Apenas por quererem alcançar aquele algo mais, tão normal dos seres humanos.
Nada em Apenas Uma Vez é novidade, nada ali já não foi contado de todas as formas possíveis no cinema, mas mesmo assim em momento algum ele passará despercebido. Naturalidade e sutileza andam cada vez mais raras em filmes sobre o amor. Muitas vezes a possibilidade do que poderia acontecer é muito mais interessante do que o arrebatamento explícito.




