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EM BREVE NOS CINEMAS

Entrevista com Herbie Hancock e Macy Gray


Por Dany Marques

29/05/2008 

O ícone do jazz, Herbie Hancock, ao lado da cantora Macy Gray, conhecida por sua voz rouca, falam sobre a apresentação que farão juntos no Telefônica Open Jazz, no próximo domingo (1°), no Parque Villa-Lobos.  Hancock, que desbancou a favorita Amy Winehouse e levou o prêmio Grammy de Álbum do Ano, revelou-se "um homem que sabe a importância do mundo em que vive", ao comentar questões relacionadas ao meio-ambiente, clima e biocombustíveis. Engajada na produção de seu novo álbum, uma mistura de jazz, R&B e dance music, Macy Gray falou sobre seus projetos como cantora e atriz, e ainda cogitou a possibilidade de se apresentar ao lado do pianista durante o show. Na entrevista, ambos elogiam a possibilidade de poder levar suas músicas para um grande e diversificado público, já que o evento é gratuito. O Almanaque participou de coletiva com Herbie Hancock e em seguida com Macy Gray. 

Almanaque Virtual - Quais são os compositores nacionais que você mais admira? 

Herbie Hancock: Bom, quando eu vim ao Brasil, há muito tempo atrás, estava de férias, queria conhecer mais a música brasileira, e tive contato com canções de Milton Nascimento, Eumir Deodato e Tom Jobim, é claro. Eu havia acabado de chegar, falei com Milton Nascimento, ele veio ao hotel e tocou muitas de suas músicas. Achei aquilo tão lindo, a sensibilidade... Eram composições maravilhosas, incrivelmente maravilhosas. Participei de várias gravações do Milton, e apesar de não entender as letras, eu imagino que sejam muito bonitas, pois ele captura o coração do Brasil, assim como Tom Jobim. Foi uma ocasião maravilhosa, os brasileiros são incrivelmente criativos. 

AV - Quais foram às influências brasileiras que você teve durante sua carreira? 

Herbie Hancock: Eu aprendi muito sobre harmonia com Milton Nascimento, do ponto de vista técnico. Acho que a o mais importante é a sensibilidade, o coração. Isso é o que eu encontro na música e também nas pessoas. 

AV - Você sabia que Milton Nascimento acabou gravar uma releitura de músicas de Tom Jobim em parceria com o Grupo Jobim Trio? Você se lembra como foi quando gravou com Tom Jobim?  

Herbie Hancock: Oh, sério? Não, não sabia. Isso já foi lançado? Quando sair daqui irei ouvir então (risos), deve ser muito bom. Quando gravei com Tom Jobim foi uma homenagem com diversos artistas. Todos amam a música de Tom Jobim.  

AV - Que tipo de público você acredita que verá no sábado? Normalmente há muito jovens, como costuma ser sua platéia? 

Herbie Hancock: Desse ponto de vista é muito importante enxergar isso com uma amplitude vasta, um horizonte maior. O mundo está nas mãos dos jovens, assim como o futuro do jazz. Quem gosta de jazz envelhece e morre, então se não houver sempre jovens apreciando essa música, o jazz morrerá.  O Jazz é liberdade, é compartilhar. Entramos na carreira porque gostamos muito. Os músicos são muito dedicados à musica em si. Por isso o jazz atrai todo tipo de público. 

AV - Essa parceria com a Macy Gray, bastante eclética, é uma mistura de R&B com outros ritmos até mesmo com o pop; você acha que isso pode ser uma maneira de rejuvenescer o jazz? 

Herbie Hancock: Eu busco sempre novas maneiras de fazer música. Nos meus álbuns mais recentes eu achei interessante mostrar que o jazz tem ritmos muito próprios, é diferente do pop, que é mais fechado. Quando eu faço um show, tem bastante improviso, é muito aberto, enquanto a maioria dos shows de pop é fechada, é tudo muito igual ao que você ouve no CD. O público que vai a shows de pop quer ouvir exatamente o aquilo que está na gravação, no jazz acontece ao contrário. Quando gravei o álbum "Possibilities", convidei diversos artistas de idades diferentes, procurei escolher os melhores dentro daquilo que eu queria, e achei bacana que todos eles aceitaram como Santana, Paul Simon e Cristina Aguilera. Foram músicas compostas a quatro mãos, cada canção é diferente, mas com um fio condutor, eu. Acho interessante o pop vir para esse mundo. O ser humano tem muitas dimensões, cada trabalho tem uma dimensão. Inúmeros artistas têm o jazz em seu DNA, como Sting, por exemplo.  

AV - Com relação ao público que assiste ao seu show, qual é em média a faixa etária dele? O que você preparou para sua apresentação? 

Herbie Hancock: A idade varia entre 10 e 75 anos, uma gama bastante ampla, apesar de que maior parte dele está entre 25 e 50. Eu sempre procuro fazer o melhor, o mais empolgante, mas também o sensível. Os brasileiros amam a música de verdade! Existem muitas influências de jazz na música brasileira. Eu vou tocar algumas conhecidas, outras mais antigas, às vezes com arranjos novos, diferentes, porque senão pode ficar um pouco entediante. Um guitarrista africano fantástico vai se apresentar comigo, ele toca de tudo, muito bom mesmo. Muitas vezes eu uso softwares, como o Logic, e sintetizadores, sempre para inovar com sons diferentes, apesar do piano continuar sendo o meu favorito. 

AV - O que você acha do projeto oferecer um show de jazz gratuito no Parque Villa-Lobos?  

Herbie Hancock: Acredito que será um ótimo show, muito excitante, e será gratuito, isso faz com que as pessoas não tenham que se preocupar em pagar o aluguel, pagar o etanol para seus carros, mas sei que eu vou receber (risos). Acho ótima a idéia de um show de graça. 

AV - Você me pareceu muito surpreso quando ganhou o Grammy de Álbum do Ano. Você não esperava ganhar esse prêmio, já que havia fortes concorrentes como Amy Winehouse? 

Herbie Hancock: Em primeiro lugar para um artista de jazz a indicação é extremamente rara na categoria Álbum do Ano. Não houve nenhuma especulação ao meu respeito durante meses. Em todos esses anos eu tive a menor venda dos indicados nessa categoria, acho que posso entrar no Guinness Records como artista que menos vendeu discos com indicação para Álbum do Ano no Gremmy (risos). Pensei em várias coisas diferentes, como o que isso me traz. Eu já recebi dez prêmios Grammy, mas acho que a vida não depende disso. Faço discos para servir a humanidade e é servir que torna sua atividade valiosa. Quando entrei para o budismo aprendi a não me ver como uma pessoa, e sim nós como um todo, porque estamos aqui. Temos que tirar o máximo de proveito do tempo que passamos aqui, como com a música verdadeira, que é o jazz. Durante o tempo que passei com Miles Davis, pude compreender que o mais importante são os valores que devemos admirar e ouvir como a coragem, a integridade. O jazz é gostoso, tem uma batida legal, mas é mais que isso; é o ritmo da vida, se importar com o que está no coração, em busca da excelência e o Álbum do Ano homenageia isso. Não temos que nos preocupar com o que podemos tirar da arte e sim com o que vamos doar para ela. Eu representei quem busca a excelência. A Amy está mudando sua vida, ela passa por problemas como todos nós, isso é normal, mas ela vai superar tudo isso, procurando ser sempre uma pessoa melhor. 

AV - Você é considerado uma das pessoas mais importantes do mundo com relação à sua carreira e ao trabalho que faz, mas parece não dar muita importância para isso. Será que é porque tem a sensação de que seu trabalho ainda não acabou e não está completo? 

Herbie Hancock: Eu realmente acredito que ele nunca está concluído. Eu só vou me aposentar quando meu coração parar. Estarei sempre tentando fazer minha contribuição como ser humano. Todo ser humano é dotado de uma capacidade infinita!!! 

Macy Gray 

Almanaque Virtual - Quais são os cantores brasileiros que você mais gosta? 

Macy Gray: Bom, eu adoro Djavan, gosto muito também de João Gilberto.  Existe um grupo norte-americano chamado Brazilians Girls que eu acho muito bom, formado por quatro homens e apenas uma mulher (risos).  

AV- Você já esteve no Brasil anteriormente, o que espera da platéia? Preparou algo especial para a apresentação no Parque Villa-Lobos? 

Macy Gray: Eu estou muito ansiosa. É um show gratuito, em um parque onde haverá todos os tipos de pessoa. Vai ser fantástico! Adoro os fãs brasileiros, a platéia.  

AV- Um dos grandes ícones do jazz, Herbie Hancock, e você farão shows no mesmo festival nesse domingo. Vocês preparam alguma coisa para apresentar juntos? 

Macy Gray: Então, eu fui convidada por ele. Fico lisonjeada, porque Herbie Hancock é levado muito a sério.  Para mim é uma honra muito grande estar no mesmo palco que ele. Nós não conversamos sobre uma apresentação juntos, mas é possível que aconteça. 

AV- Como você define sua personalidade? 

Macy Gray: Eu tive muitas oportunidades na vida, e tenho que tirar proveito ao máximo disso. Acho que devo fazer tudo que tenho vontade. Às vezes você pode dar uma enlouquecida, uma vez não tem problema, sabe? 

AV- O que você pensa sobre um festival de jazz acontecer em um parque e ser gratuito? 

Macy Gray: É extraordinário poder levar minha música para tanta gente. Em Los Angeles está acontecendo um festival de reggae maravilhoso, com participação de Damian Marley, e outros cantores fantásticos, um dos melhores festivais do ano, e é gratuito também. No domingo muitas pessoas irão para se divertir, fumar, beber, comer, vai ser muito, muito bom!

AV- Em uma de suas declarações, você disse que 2007 seria o seu ano. Esse ano foi realmente seu? Como está sendo 2008? 

Macy Gray: O último ano foi maravilhoso para minha carreira. Aconteceram muitas coisas. Agora estou preparando um álbum, que traz uma mistura de dance music com jazz, algo novo. Dei início ao projeto já faz seis meses, será totalmente inédito. Tive muita sorte na vida, acredito que fui abençoada. Também faço parte do elenco de uma nova peça na Broadway, Chicago, com lançamento previsto para 2009. Comecei tudo muito cedo, me casei jovem e tive três filhos. Todo mundo pensa na carreira para depois ter uma família, comigo foi ao contrário. Tudo acontece para todos quando tem que acontecer.  

AV- No Festival Live Earth, você cantou um trecho da música "Manic Depression" do Jimi Hendrix. Como você trabalha com essa diferença dos anos 70, 80 e a sua música? E como estão as parcerias para seu novo álbum? 

Macy Gray: Tive uma sorte muito grande de estudar música bem cedo, sempre aberta ao soul, ao hip-hop, tanto na escola como com a MTV. Eu também ouvi bastante rock. Na faculdade você estuda música erudita, jazz, e fica exposto a muita coisa que influencia seu trabalho. A dance music cresceu tanto nos Estados Unidos como na Europa, e no meu novo álbum você percebe isso.  Quanto às parcerias eu já não posso revelar os nomes, mas tem um dueto fantástico, entre outras novidades. 

AV-  Com relação ao filme "Mama black widow", você já sabe alguma coisa sobre o personagem? Já começou algum estudo? 

Macy Gray: É um filme muito interessante, que conta a história de uma família negra e sua mudança de uma lavoura no Sul do país para a cidade.  Trata sobre essa adaptação de como é deixar o campo para viver em uma metrópole. O meu personagem é muito colorido, talvez um pouco masculinizado. Acho que por interpretar a irmã de um cafetão, esses traços capangas acabam surgindo. O filme será um estrondo! 

AV- Você gosta de São Paulo? O que acha da cidade? Como define o público brasileiro? 

Macy Gray:  No Brasil a platéia sempre se entusiasma com você, ela canta junto, responde à música, isso é maravilhoso! Quanto à cidade de São Paulo, eu gosto sim. Adoro fazer compras aqui, naquela rua... Oscar Freire. Em Nova Iorque as coisas são muito caras. Eu vi também uma ponte nova que foi construída aqui perto, super bonita. Também já fui ao Rio de Janeiro, lá tem homens lindos (risos). Sempre me divirto muito no Brasil. 

AV- Você criou a M. Gray Music Academy, um centro de ensino musical para jovens de Los Angeles, qual seu compromisso com isso? 

Macy Gray: Essa iniciativa é crucial e necessária para toda criança. Diversos estudos já comprovaram que quando se estuda música, as notas em matemáticas são mais altas, as chances de envolvimento com o crime diminuem e elas se tornam mais prósperas. Isso deveria ser obrigatório na escola e não facultativo. As crianças passam a ver a vida com a mente mais aberta e com mais imaginação.  

AV- Você é cantora, mãe, atriz...como lida com tudo isso? 

Macy Gray: Recebo uma ajuda muito grande. Minha família é muito grande. Inúmeras pessoas cuidam da minha carreira. Eu não faço tudo sozinha. Ser mãe e ser atriz são coisas que exigem dedicação sete dias por semana, 24 horas por dia, nesse ponto eu vou me equilibrando,agindo como um equilibrista.  

AV- Entre liberdade e maturidade, qual seria sua escolha? 

Macy Gray: Liberdade é essencial. É mais importante do que qualquer outra coisa. Isso entra na minha música. Progredir, crescer, melhorar tem sua importância, mas ser livre, ser aberta para fazer o que eu quero é muito mais. 

Herbie Hancock





Macy Gray