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EM BREVE NOS CINEMAS

Panorama do Cinema Francês: O Advogado do Terror


Por Guilherme Castro Neves

24/06/2008

O Advogado do Terror (L´Avocat de la Terreur, 2007), documentário biográfico que aponta para o singular Jacques Vergès, veterano da 2ª Guerra e advogado famoso do século passado, devido a sua inclinação à defesa de "monstros" de seu tempo. O filme mostra o descendente de vietnamita tailandês que começou sua carreira impulsionado pela revolta para a autonomia da Argélia na metade do século. Foi nesse contexto que tomou pra si a causa que lhe rendeu a fama, quando um grupo de jovens e belas muçulmanas tornam-se terroristas-bomba contra o colono francês; daí mostra-se o desenvolvimento deste, agora, melhor conhecido personagem histórico, que será lembrado como o homem que defendeu "o açougueiro de Lyon", o nazista Klaus Barbie; o terrorista Carlos "O Chacal"; o genocida Slobodan Miloševiæ, e incluindo também, seu envolvimento com o Khmer Vermelho e sua amizade com Pol Pot e a família Brando, entre outros (!).

Pontos altos deste filme referem-se à compreensão que é passada quando se trata do porquê estes criminosos se tornaram tal, mostrando não só seus motivos pessoais, mas principalmente, o contexto político em que se encontravam, e suas respectivas formações como indivíduo e os motivos pelos quais as vítimas seriam seus opositores. Esse caminho dá ao espectador a possibilidade de compreender, e até tomar conhecimento, de forma simples, dos fatos que construíram o século XX. Foi desta forma que a personagem de Djamila Bouhared, figura símbolo da independência da Argélia, nos é apresentada. Quando o biografado transforma o julgamento desta em um espetáculo internacional que culmina com o salto da dupla para fama e... para a paixão; porém quando lhe é dado a morte como veredicto,  a mártir responde com risada e o juiz retruca "não ria, isto é grave" ou quando Vergès, diante de um tribunal recebe, de forma pejorativa e errônea, o título de "chinês" e rebate: "enquanto meus ancestrais construíam castelos os seus vagavam pelas florestas", o que ilustra a narrativa de um filme onde não há personagens desinteressantes, apesar de, na maioria das vezes, não concordarmos com eles.

O diretor Barbet Schroeder, renomado por "O Reverso da Fortuna" (1990), deixa claro que esta estória é sua visão sobre a criatura de Vergès, que ao ser perguntado se defenderia Hitler responde: defenderia até Bush, desde que se declarasse culpado.

O documentário oscila e viaja tanto quanto o próprio Vergès, de grandes nações à vilarejos perdidos no oriente, de depoimentos tanto de ex-namoradas quanto do único irmão vivo de Pol Pot; e é em uma dessas variações que vemos Vergès saindo de envolvimentos com guerras, revoluções, revoltas e até a expulsão com o rótulo de "persona non grata" de Israel, para por fim, envolver-se com o terrorismo internacional, com ligações no ataque em Munique (1972) culminando em sua conexão direta a "O Chacal".

Nesta outra fase da narrativa ocorre a introdução de mais um personagem feminino interessantíssimo, na figura da outrora bela Magdalena Kopp, vinda de relacionamentos criminosos e explosivos (no sentido figurado e literal), a moça vê-se no topo ao se tornar a primeira dama do terrorismo, ao unir-se a Carlos. Quando esta é presa são uma série de atentados com incontável número de vítimas que se dão em represália, e em meio à esse turbilhão, quem aparece para defendê-la?! Previsível, não julgue ainda. Não bastasse tanta história ainda se desenvolve um triângulo amoroso entre contratante-cliente-advogado, porém o mais incrível é que tudo isso não saiu da cabeça de um roteirista alucinado de Hollywood.

Finalmente chegou ao público brasileiro essa bela amostra documental, vencedora do César de melhor documentário, que deixa o público aguçado, pois ainda não acabou, afinal Jacques Vergès continua vivo e na ativa. Fica a pergunta, qual o próximo cliente? Talvez se capturarem Bin Laden...