Texto e fotos por Marcus Vinicius de Medeiros
28/07/2008
A trajetória dos ícones da cultura pop passa por um momento de transição. Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), dirigido por Christopher Nolan, escrito por ele em parceria com David S. Goyer, e estrelado por Christian Bale (Batman/Bruce Wayne) e Heath Ledger (Coringa) vem quebrando recordes de bilheteria consecutivamente. O filme arrebata por sua abordagem diferenciada e realista sobre o herói mascarado da DC Comics, estabelecendo um novo paradigma para o gênero. Basta dizer que tudo o que já foi feito com super-heróis está ultrapassado. Agora há um "antes" e "depois". Hoje os batmaníacos tiveram a oportunidade de participar do debate Batman - Um Novo Começo, no Cinema Estácio, que contou com Mario Abbade (Jornal do Brasil, Almanaque Virtual) e André Gordirro (Set). A moderação foi de Breno Lira Gomes, responsável pelo evento.
O primeiro ponto discutido foi justamente o que torna Batman - O Cavaleiro das Trevas tão diferente de outros filmes do gênero. Tanto André Gordirro quanto Mario Abbade ressaltaram a estética e temática dos filmes policiais que marcaram a década de 1970. "Copiando uma frase que marcou, temos O Poderoso Chefão versus Batman", disse Gordirro. "Pela primeira vez, Batman esteve inserido em seu real trabalho, que é o crime de rua. Se tirarmos o uniforme do herói, Coringa e Duas-Caras, termos a saga de um vigilante contra a máfia". Mario Abbade complementou, com muita propriedade, as influências do cineasta Christopher Nolan. "O filme aposta em estética policial de diretores como Martin Scorcese, Brian de Palma e Michael Mann. Não é um filme de super-herói. É um filme policial com trama de mistério".
Seria impossível não questionar a importância do Coringa no filme. Fãs estão com as falas do vilão na cabeça e apostam num Oscar póstumo para Heath Ledger. "Na época de Batman Begins, todo mundo estranhou o Batmóvel como tanque de guerra. Dessa vez foi a escolha de Ledger", comentou Abbade. "Mas ele se entregou ao papel. Não é o Coringa dos anos 40, mas um psicótico terrorista. No futuro, é certo que teremos abordagens diferentes". Gordirro também afirmou ter torcido o nariz quando Ledger foi anunciado, mas mudou de opinião ao ver o filme. "Ele calou a minha boca. É um vilão que reflete os problemas de hoje. O bandido não só rouba seu carro, como atira na sua cabeça depois. Isso é a maldade pela maldade". Também foi comentado como a aventura reflete chagas como caos social e milícias urbanas.
O realismo foi entendido como resultado dos ataques terroristas contra os Estados Unidos no dia 11 de setembro, na qual a própria noção de um herói foi colocada em cheque. "Antes havia o exército de um homem só, e Rambo vencendo sozinho a Guerra do Vietnã", explicou Gordirro. "Hoje as pessoas não acreditam mais nisso. James Bond enfrentou em Cassino Royale um criminoso envolvido em lavagem de dinheiro". Ele continuou com um problema que afeta Marvel e DC Comics: seus personagens fazem sucesso nos cinemas, mas as versões dos quadrinhos estão irreconhecíveis. Este é apenas um problema da indústria. No caso de Batman - O Cavaleiro das Trevas, as influências remetem a quadrinhos da década de 1970, fase de nomes como Dennis O´Neil e Neal Adams. Na época, Robin estava na faculdade, e Bruce Wayne trocara a batcaverna por uma cobertura no centro de Gothan City.
A partir deste ponto, o evento abriu espaço para perguntas de fãs entusiasmados, que questionaram os mais diversos elementos de Batman. Abbade e Gordirro concordaram que a morte de Heath Ledger atraiu público numa espécie de curiosidade mórbida. Sobre as inevitáveis alegorias políticas da história, alguns comentários foram esclarecedores. "O filme é niilista mesmo, mostra que você tem que destruir tudo para então fazer algo melhor. E o que conta é a união do povo", afirmou Abbade. Gordirro lembrou que o cultuado filme Robocop, na década de 1980, já antecipava Batman - O Cavaleiro das Trevas. Vamos esperar como se sai a nova encarnação do policial do futuro. Importante citar também que o filme de Nolan quebra o paradigma distópico da cidade suja de Blade Runner. "Mostrou que a Gothan pode ser sombria mesmo à luz do dia", definiu Abbade.
Questões posteriores abordaram a campanha sem precedentes de marketing viral da Warner, a sexualidade de Batman nos quadrinhos e no cinema, bem como o que se pode esperar daqui pra frente. Abbade disse que seria interessante ter no Super-Homem um oponente para Batman no terceiro filme, remetendo ao clássico Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Sobre isso, Gordirro ressaltou os problemas da Warner, dona da DC Comics, que não emplaca filmes de heróis conhecidos como Super-Homem, Mulher-Maravilha e Flash: "Ninguém sabe se Bryan Singer vai dirigir a continuação de Superman Returns, e ele já está contratado". Abbade se mostrou otimista quanto à adaptação cinematográfica de Watchmen, graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons. Explicando por que os super-heróis estão cada vez mais populares, mas vendendo menos revistas, Gordirro apontou a própria sofisticação das revistinhas. "Antes havia uma narrativa pueril. Agora é tudo complicado demais". O evento terminou com sorteio de ingressos, DVDs e camisetas. Algo mais significativo que a insanidade do Coringa pode ser notado. Enquanto a humanidade enfrentar desafios e for capaz de sonhar, haverá super-heróis prontos para a ação. A sombra do morcego não desaparecerá.




