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EM BREVE NOS CINEMAS

Superman Returns – O Último Adeus


Por Marcus Vinicius de Medeiros

24/08/2008

No ano de 1978, quando, como sempre, o mundo precisava de esperança, chegou às telas de cinema o filme Superman (Superman - The Movie, 1978). Com direção do competente e determinado Richard Donner (A Profecia), roteiro de Mario Puzo (O Poderoso Chefão), e consultas não creditadas de Elliot S! Maggin e Cary Bates, a aventura cinematográfica eternizou também os atores Christopher Reeve (Kal-El/Clark Kent/Superman), Margott Kidder (Lois Lane) e Gene Hackman (Lex Luthor). Completando o elenco estavam também os astros Marlon Brando (Jor-El) e Glenn Ford (Jonathan Kent). A trilha sonora inspirada de John Willians marcou uma geração, de modo que o nome Superman praticamente saltava da tela com os acordes poderosos.

Donner investiu sempre na idéia de verossimilhança. Por mais improváveis que fossem os conceitos de um alienígena com capa vermelha disfarçado de tímido repórter, de um vilão megalomaníaco com obsessão por terras e de mudar o curso da história, ele não se renderia ao caminho fácil de parodiar a mitologia norte-americana. O cartaz promocional afirmava que, assistindo a Superman, você acreditaria que um homem pode voar. E foi o que aconteceu. A história se iniciou em tom bíblico, nas cenas finais do planeta Krypton, passou para uma América ao estilo Normam Rockweel, com a adolescência de Clark em Smallville, e assumiu de forma primorosa o lado super-herói, definindo um novo gênero cinematográfico.

Dois importantes temas de Superman foram a herança kryptoniana, representada pela relação entre Jor-El, o Pai, e Kal-El, o Filho, na qual o Filho se torna o Pai, e o pai se torna o Filho, e o amor por Lois Lane. Tais aspectos sempre estiveram presentes na mitologia do Homem de Aço, mas ganharam fôlego com o filme. A afirmação de Superman como um messias secular americano ganhou novo significado com as palavras sagradas de Jor-El, que enviava à Terra, pela capacidade das pessoas para o bem, seu Único Filho. O amor por Lois Lane, que passou a ganhar mais importância em todas as versões da história da salvação, alcançou no filme um ponto em que, Superman chegou a desafiar as próprias leis do universo, de Jor-El e, de certa forma, de Deus criador, para trazê-la de volta à vida.

Diversos problemas resultaram no afastamento de Richard Donner da franquia cinematográfica do Superman, de modo que o segundo filme foi completado por Richard Lester. Superman III e IV constituem uma seqüência de equívocos que são melhor esquecidos. Enquanto o personagem encarnou em séries televisivas em animação ou live action, como Superman - The Animated Series, Lois e Clark - As Novas Aventuras do Superman, e Smallville, um retorno aos cinemas era aguardado. Projetos absurdos que envolviam aranha gigante, robô gay, Superman com olhar assassino, em trajes sombrios que revelavam seus órgãos internos e semelhantes atrocidades foram apresentados, em projetos que envolveram nomes como Tim Burton, Jon Peters, Kevin Smith e J.J. Abrams. Com o sucesso nos cinemas dos super-heróis Marvel Homem-Aranha (que copiou muito da estrutura do filme original de Richard Donner) e X-Men (que sobrepôs os mutantes num cenário ainda mais realista) a Warner decidiu confiar o Último Filho de Krypton ao responsável pelo sucesso dos Filhos do Átomo, o mestre Bryan Singer.

Com o projeto inicialmente chamado Red Sun (Sol Vermelho), Singer trabalhou idéias ao lado dos roteiristas Michael Doherty e Dan Harris, deixando claro que não tentaria reinventar a roda, mas usaria os filmes de Richard Donner como referência vaga e avançaria a história em cinco anos, nos quais o Superman estaria ausente da Terra, e encontraria um mundo diferente. Com a divulgação oficial de Superman - O Retorno (Superman Returns, 2006), do desconhecido Brandon Routh no papel central, de Kate Bosworth como Lois Lane, e Kaven Spacey como Lex Luthor, além de imagens de Marlon Brando recuperadas digitalmente para Jor-El, imagens, vídeos e declarações infestaram a internet, deixando seguidores honrados com a certeza de que a profecia kryptoniana seria cumprida. O esforço envolveu ainda uma série prólogo em quadrinhos, fazendo a ligação entre os filmes de Donner e Superman Returns, uma adaptação literária por Marv Wolfman, e diversos livros relacionados. São notáveis as influências de obras como Superman: As Quatro Estações, de Jeph Loeb e Tim Sale, Superman: O Homem de Aço, de John Byrne, Superman: Identidade Secreta, de Kurt Busiek e Stuart Immonem, bem como da saga Morte, Funeral e Retorno do Superman. Mais notável, contudo, foi a devoção integral de Singer à obra máxima de Richard Donner.

Em Superman Returns, duas forças em oposição podem ser encontradas no desejo subconsciente de Kal-El estabelecer um vínculo com Krypton, que o leva a abandonar a Terra, e o amor puro, verdadeiro e inabalável por Lois Lane - a única coisa que o fez quebrar todas as leis do universo, conforme estabelecido por Donner. Ao ceder ao desejo e visitar Krypton, devido a descoberta de que haveria vestígios do planeta, ele abandona Lois, traindo assim seu maior sentimento, fato que resultaria em dor, sofrimento e redenção. Lex Luthor, com um plano de, através da tecnologia kryptoniana adquirida na Fortaleza da Solidão, volta a ameaçar o planeta e quase encerra a própria vida do Homem de Aço. Num artigo que ganhou o prêmio máximo do Jornalismo internacional, Lois questionou a necessidade de um salvador, após anos sofrendo a perda do Super-Homem que amava ao lado de Richard White. Contudo, a cada cena, fica evidente o amor entre Superman e Lois Lane, e se, todos os dias, o herói escutava pessoas pedindo um salvador, era pela mulher que ele chorava.

Bryan Singer, numa das jogadas mais corajosas da história dos cinemas, introduziu a figura de Jason White, Filho de Superman com Lois Lane, fechou a profecia kryptoniana quando, ao perder Jor-El, e posteriormente ganhar Jason, o Homem de Aço se tornou o Pai e Jason, o Filho, e deixou em aberto a relação entre o casal de amantes. Mesmo com o coração esfacelado, Superman se sacrificou pela humanidade, foi espancado por Luthor, morreu e ressuscitou, mas não deixou de lutar por um segundo sequer. A cena em que arremessa ao espaço o continente de kryptonita define heroísmo como poucas. Brandon Routh, atualizando a interpretação de Christopher Reeve, mostrou um Clark menos caricato e mais convincente, ainda que fiel ao espírito do personagem, e um Superman meditativo e irascível. Da mesma forma, Kate Bosworth e Kavin Spacey, estão adaptados à história, Lois com o amadurecimento da maternidade, e Luthor com desejo psicótico de vingança. A decisão da Warner, por motivos questionáveis, de reiniciar a franquia de Superman nos cinemas, encerra uma das mais belas e pujantes histórias já narradas. Em alguma realidade perdida do Multiverso, entretanto, Superman e Lois estarão juntos, com a certeza de que um homem pode voar, ele está sempre por aí, e podemos despertar um salvador em cada um de nós.