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Nostradamus, do Judas Priest


Por Wallace Souza
07/11/2008

Depois que o fim dos anos 90 foram tomados pela moda do nu metal (passageira, como toda moda), o metal dos primeiros anos do século XXI traçou uma linha no chão, que dividia o mundo com um aviso: de um lado, os tradicionalistas que querem fazer o metal como ele sempre foi feito. Do outro lado, as bandas que estavam dispostas a correr o risco de misturar o metal com outros estilos, seja eletrônico, industrial, e principalmente música clássica. Muitas bandas fizeram coisas boas e ruins, em ambos os lados. Mas de todas essas bandas nenhuma ousou tanto quanto os anjos malditos do metal, Judas Priest, com seu novo álbum.

Considerados parte do Panteão Sagrado do Metal ao lado de Black Sabbath e Deep Purple, acabam de causar um rebuliço ao lançar "Nostradamus", seu primeiro álbum conceitual, que tem a dura missão de suceder o bem sucedido "Angel of Retribution" de 2005. O segundo álbum de estúdio após o retorno de Rob Halford relata em 23 canções a vida e as profecias do astrônomo/médico/alquimista/bruxo/profeta francês Michel de Nostredame, e por ser um álbum conceitual é bem diferente do que Judas Priest já fez. É um bom álbum, com melodias potentes, a voz de Halford em ótima forma, mas com aquela sensação de que o estilo clássico limita muito o potencial criativo do grupo.

De modo geral, só o fato de uma banda como o Judas, que não tem mais nada a provar pra ninguém e que são influenciadores e imitados até hoje, se ariscar a andar num terreno estranho ao que conhece como a palma da mão já é algo muito louvável. Muitas bandas preferem ficar na zona segura (vide o excelente mas nada surpreendente novo álbum do AC/DC, "Black Ice"), e manter seus fiéis e conservadores fãs.

Enquanto destila sua autoridade no metal, percebe-se que faixas como "Prophecy" são um pouco sem, mas o álbum tem seus pontos altos, como a ótima "Revelations", que é rápida, pesada e tem um ótimo solo de guitarra e "War" mergulha no estilo clássico, com violinos, cellos, e sons que recriam uma batalha medieval.

Entre esses e outros exemplos, temos "Lost Love", uma balada mediana, mas que não mostra o porque de estar ali.

É o Judas Priest que conhecemos, mostrando que a divisão entre o novo e o velho metal é uma grande bobagem. Só duas coisas atestam que não é um grande álbum: primeiro que como conceitual fica devendo, se lembrarmos que Kamelot fez melhor em "Epica", álbum conceitual baseado na obra "Fausto", de Goethe, por exemplo. E segundo, que os melhores momentos do álbum são justamente os que fogem do estilo clássico, e remetem ao bom e velho metal que o Judas ajudou a consolidar, vide "Persecution", uma das melhores do álbum, que com alguns ajustes poderia entrar em "British Steel", e os duos de guitarra de K.K. e Tipton.

"Nostradamus" é um álbum que merece ser ouvido com atenção, várias vezes antes de se formar uma opinião. Mas se a banda for inteligente o suficiente, será o seu único vôo por estas terras.