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EM BREVE NOS CINEMAS

Mostra no CCBB reúne filmes da fase inicial de Bernardo Bertolucci


Por Daniel Schenker Wajnberg
05/12/2008

Um Bernardo Bertolucci de difícil acesso torna-se palpável para o espectador brasileiro. O mérito é do cineasta Joel Pizzini, curador da mostra "A estratégia do sonho: O primeiro cinema de Bertolucci", que toma conta do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) até o dia 21, reunindo, como o próprio título indica, filmes da fase inicial do diretor.

Alguns são conhecidos do público. "Antes da revolução" foi relançado no cinema há alguns anos. "A estratégia da aranha" e "O conformista" passam ocasionalmente. E, claro, "O último tango em Paris" sobrevive como referência. Mas o garimpo de Pizzini está repleto de pedras raras. "Além de uma produção impecável que descobriu cópias no British Film Institute, em Londres, tivemos a colaboração de Fiorella Amico (viúva de Giani Amico), que fez a ponte com Bertolucci e as Cinematecas de Bolonha e de Roma, que, a princípio, relutaram em cedê-las, por se tratarem - por exemplo, no caso de ‘Novecento - de cópias de preservação. O Instituto Italiano de Cultura e a Cinemateca de São Paulo também deram um apoio institucional fundamental para termos acesso a estes arquivos e respaldo para a exibição destas relíquias. ‘Caminho do petróleo, que tem um episódio fotografado por Luiz Carlos Saldanha, será exibido em sua cópia 35mm restaurada, a mesma que encerrou o Festival de Veneza de 2007", informa Pizzini.

Além dos filmes do próprio Bertolucci, foram encontrados trabalhos centrados em obras do cineasta. "Mostraremos o documentário ‘Bertolucci, segundo o cinema, de Gianni Amelio, uma espécie de making of de ‘Novecento que só foi localizado esta semana e deverá ser incluído na programação, e um dos primeiros curtas do diretor paranaense Marcos Jorge, feito na Itália, chamado ‘Carta a Bertolucci", diz Pizzini, referindo-se, ao final, ao diretor do elogiado "Estômago". Emoldurando a exibição das produções haverá um debate, marcado para o próximo dia 12, com as presenças de Gustavo Dahl, Paulo Cezar Saraceni, Joel Barcellos e Arnaldo Carrilho. "Junto com Saraceni e Dahl, que eram alunos do Centro Sperimentale, em Roma, Bertolucci pertenceu à chamada Geração Rosati, que freqüentava o Cáfé Rosati, onde se fermentavam idéias e filmes", assinala. Barcellos, vale dizer, atuou em "O conformista".

Sabe-se que Bertolucci tinha grande ligação com o cinema brasileiro. "Ele se confessou ‘viciado em cinema brasileiro e manteve uma fecunda relação com a nossa produção, sobretudo na época do Cinema Novo", declara Pizzini, lembrando que Bertolucci estabeleceu proximidade com Glauber Rocha. "Quando ele viu ‘Deus e o Diabo na terra do sol, em Cannes, colocou o diretor baiano entre os maiores da época. No livro ‘O século do cinema, Glauber afirma: ‘Gostava-se de Godard por inteligência, de Pasolini por excitação, mas de Bertolucci por amor. É justamente essa ponte afetiva com o primeiro cinema dele que pretendemos reatar. Nosso desejo é o de continuar e, quem sabe, reinventar essa tradição tão poderosa, que confere ao cinema uma dimensão artística e poético-política, possibilitando ao espectador uma experiência libertária", afirma Pizzini, que chama atenção para a falta de difusão do cinema de Bertolucci.

"O grande paradoxo é que mesmo tendo se tornando uma celebridade, Bertolucci continua praticamente desconhecido no Brasil. Essa mostra quer fazer justiça a um dos autores mais influentes do cinema moderno, que virou um mito desconhecido. Trata-se de um cinema que nos interessa - primeiro pela ponte mantida desde o Cinema Novo, depois pela pulsão onírica presente, sobretudo, na sua fase primordial que inspirou toda uma geração e continua provocando inquietação no público mais atento. É um cinema lírico, que valoriza a grande tradição, dialoga com a pintura, a literatura e o teatro e rompe com a gramática naturalista", observa. Como se pode perceber, Bertolucci teve muitas influências determinantes.


"O primeiro mestre foi, sem dúvida, Pier Paolo Pasolini, de quem ele trabalhou como assistente em ‘Accatone (‘Desajuste social), em 1961, e de quem ganhou como retribuição a indicação para dirigir ‘A morte, sua estréia no longa-metragem, em 62", destaca. Pasolini entregou a Bertolucci o Prêmio Viareggio, por seu livro de poemas, "In cerca del mistério", publicado quando tinha apenas 16 anos. Um talento herdado do pai, o poeta Attilio Bertolucci. Não por acaso, as referências literárias são centrais na obra do diretor, valendo mencionar Stendhal, Dostoievski, Alberto Moravia e Jorge Luis Borges. "Em ‘A estratégia da aranha, ele transfigura o texto de Borges para refletir o tema do traidor e do herói, tão caro ao mundo midiático como a construção da mitologia do poder", menciona.

O já citado Gianni Amico figurou em lugar central na carreira de Bertolucci. "Foi seu parceiro de todas as horas, co-roteirista e mentor filosófico, compartilhando a descoberta de Godard, que se tornou seu segundo pai. Em ‘O conformista, incomodado pela sombra de Godard, e seduzido pelo mundo da psicanálise, Bertolucci resolve ‘matar o novo pai dando ao personagem do professor que vai ser assassinado pelo ex-aluno no filme o endereço e telefone real do diretor de ‘Acossado", explica Pizzini, em relação ao cineasta também norteado por Jean Renoir, Max Ophuls, Yazujiro Ozu e Luchino Visconti.

Bertolucci enfrentaria polêmicas determinantes na sua carreira. A primeira se deu com o explosivo "O último tango em Paris". "O cineasta extrapolou os limites do erotismo, escandalizando a esquerda que condenou o ‘individualismo do filme e o Estado, que cassou seus direitos, obrigando-o a fugir do país. Sem falar da Igreja que praticamente excomungou Bertolucci", diz. A segunda foi com "Novecento". "A influência da psicanálise ganha forte relevo em sua carreira e ele decide realizar um afresco da gênese do comunismo,  ‘Novecento, bancado ironicamente por Hollywood. Parte da imprensa americana, embora reconhecesse a grandiosidade do filme, classificou-o de propaganda comunista", conta.

O espectador que vem acompanhando os últimos trabalhos de Bertolucci ganha a oportunidade de traçar um panorama da sua trajetória. E analogias bem objetivas também. "Os sonhadores", por exemplo, não foi o primeiro trabalho em que o diretor se voltou ao turbulento Maio de 68, em Paris. "‘Antes da revolução influenciou e foi influenciado pelo Maio de 68, chegando a ser exibido em 16mm nos muros, durante as rebeliões. ‘Partner traduz os dilemas de 68, mixando Marx, Freud e Godard", cita.


É a chance ainda de refletir sobre a relação do diretor com a indústria. "Acho que ele dignificou a indústria, trabalhou dentro de certos limites, mas não deixou de fazer filmes inquietantes, embora num registro mais espetacular. Sem culpa, buscou uma aproximação com o público e assumiu seu exílio. Afinal, teve os seus direitos políticos cassados na Itália por dois anos por ter feito ‘O último tango em Paris e fugiu do ‘consumismo fascista, que custou a morte, inclusive, de seu mestre Pasolini. Confesso que me identifico mais com o primeiro cinema dele. Mas não tinha outra saída. Ele atravessou os ‘otanta orribili, como ele definiu os anos 80, sendo muito bem-sucedido dentro da indústria, com nove Oscar pelo ‘O último imperador, mas sem interlocução, às vezes, visto com desconfiança pela crítica e por alguns autores que antes o admiravam", compara Joel Pizzini, referindo-se ao elogiado épico sobre Pu Yi, o último imperador da China.

O sopro nostálgico não é a principal força impulsionadora da mostra que passa a tomar conta do CCBB. "É importante re-conhecer essa filmografia e se apropriar do legado em nome de futuros experimentos. No seu primeiro cinema há um legado poderoso que pode contaminar nossa vontade de arte e inspirar novas reflexões para o nosso cinema independente, que enfrenta atualmente os velhos dilemas entre arte e mercado. Bertolucci viveu na carne essas transições e é uma referência básica para toda discussão", resume Pizzini, contextualizando, adequadamente, Bertolucci na ordem das discussões do dia. (DSW)

A ESTRATÉGIA DO SONHO: O PRIMEIRO CINEMA DE BERTOLUCCI - Mostra retrospectiva do cineasta Bernardo Bertolucci. Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66 - Tel.: 3808-2020). Até 21/12.

FILMES

"A morte" (1962) - É o primeiro filme do diretor. Na periferia de Roma, é encontrado o corpo de uma jovem prostituta brutalmente assassinada. A polícia interroga uma série de suspeitos. No estilo de "Rashomon", de Akira Kurosawa, o espectador conhece as diferentes versões de cada um deles por meio de flashbacks. Quem está contando a verdade? Com roteiro de Pier Paolo Pasolini, Bertolucci constrói um filme sobre a natureza da verdade e o processo da memória.

"Antes da revolução" (1964) - Filme emblemático sobre a juventude revolucionária dos anos 60. Parma, 1964. Fabrizio, um jovem de 22 anos, passa por uma fase de indecisão política e afetiva. Apesar de renegar a burguesia, não se sente à vontade no movimento revolucionário, pois se considera à frente das ideologias da esquerda. Ao mesmo tempo, vive um amor conturbado com sua tia.


"Caminho do petróleo" (1967) - Documentário sobre a viagem que o petróleo faz de Monte Zagros, no Irã, até uma refinaria na Alemanha.

"Partner" (1968) - Realizado durante o auge do movimento estudantil de 1968, trata-se de um dos filmes mais radicais do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. Baseando-se livremente em "O duplo" (1846), de Fiódor Dostoievski, Bertolucci conta a história de Jacob, um estudante com idéias revolucionárias cuja existência solitária é abalada pelo aparecimento de seu duplo, que o incentiva a ter um maior engajamento político. Inspirado pelas teorias de Karl Marx, Sigmund Freud e Jean-Luc Godard, Bertolucci realizou um filme-manifesto que capta os principais dilemas da geração de 1968.

"Amor e raiva" (1969) - Filme em episódios dirigido por Marco Belocchio, Pier Paolo Pasolini, Bernardo Bertolucci, Jean-Luc Godard, Carlo Lizzani.  Cinco histórias contemporâneas de uma época que revolucionou o mundo. O episódio de Bertolucci intitula-se "Agonia" e narra a história surreal de um padre em seu leito de morte que, nos seus últimos instantes, tem de enfrentar um dilema moral levantado pelo próprio Deus. Incorpora a influência do grupo teatral Living Theatre.

"O conformista" (1970) - Em 1938, em Roma, Marcello acaba de aceitar um trabalho para Mussollini e flerta com uma bela jovem, o que faz com que fique cada vez mais conformista. Marcello resolve viajar a Paris em sua lua de mel e aproveita para cumprir uma missão designada por seus chefes: vigiar um professor que fugiu da Itália assim que os fascistas assumiram o poder no país. 

"A estratégia da aranha" (1970) - Athos Magnani vai a Tara, povoado da Bassa Padana, para investigar a morte de seu pai, um misterioso personagem que teria se envolvido na luta contra o fascismo e em um atentado ao ditador Mussolini. No entanto, mesmo conhecendo muitas pessoas ligadas ao pai, Athos não consegue concluir se ele foi um traidor ou um herói.

"A saúde está doente"  (1971) - Filme propaganda realizado para coincidir com as eleições romanas de 1971. O filme apresenta uma série de imagens com temas marxistas, intencionalmente utilizadas para chamar atenção sobre as péssimas condições de saúde pública e da destruição generalizada dos subúrbios italianos.

"O último tango em Paris" (1972) - Atormentado pelo suicídio de sua esposa, um homem de meia idade se entrega a uma paixão alucinada por uma jovem parisiense que está prestes a se casar.

"Novecento" (1976) - O filme faz uma retrospectiva histórica da Itália desde o início do século XX até o fim da Segunda Guerra Mundial, focando as vidas de duas pessoas: Olmo, filho bastardo de camponeses, e Alfredo, herdeiro de uma rica família de latifundiários. Apesar da amizade desde a infância, a origem social fala mais alto e os coloca em pólos política e ideologicamente antagônicos. O pano de fundo é o intenso cenário político da época, com o fortalecimento do fascismo e, em oposição, as lutas trabalhistas ligadas ao socialismo.

"La luna" (1979) - Cantora americana de ópera viaja com seu filho adolescente Joe para uma longa turnê na Itália. Absorvida por seu trabalho, Caterina choca-se com a descoberta de que seu problemático e solitário filho está viciado em heroína. Seu desespero em ajudar a curar seu filho resulta numa relação incestuosa entre eles e, além disso, na possibilidade de um reencontro dele com seu pai verdadeiro, cuja existência ela sempre manteve em segredo.

"Bernardo Bertolucci: Pra que serve o cinema?" (2002) - Documentário sobre Bernardo Bertolucci realizado por Sandro Lai para a TV.


Novecento


O conformista


Antes da revolução


O último tango em Paris


La luna