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EM BREVE NOS CINEMAS

Riocenacontemporanea: Um festival que lança provocações


Por Daniel Schenker Wajnberg

12/12/2008

O festival riocenacontemporanea ganha nova e concentrada edição, neste final de semana, na Casa de Cultura Laura Alvim. Capitaneado por três dos antigos sócios - Bia Junqueira, Cesar Augusto e Marcia Dias -, o evento destaca o conceito de acesso. "A maior parte das atrações poderá ser acessada via internet", garante Cesar, lançando, de cara, uma provocação. Afinal, o teatro é sempre "definido" como uma manifestação artística calcada na interação entre as presenças físicas do ator e do espectador. Polêmica à parte, a principal característica do teatro permanece preservada: a sintonia com o aqui/agora.

A programação do festival aponta para uma ampliação da noção tradicional de teatro através da inclusão de performances e happenings. Diferentemente do que ocorre em determinados países, como os Estados Unidos, onde há uma literatura desenvolvida sobre o campo da performance, a cena produzida no Brasil ainda parece, pelo menos em certa medida, resistir a esta vertente. "As pessoas costumam classificar o happening como uma tendência dos anos 70. Existem tabus que enredam as apostas. Muitas vezes, se o artista não busca inserção numa estrutura pré-concebida, seu trabalho tende a não ser aceito como teatro. Acredito que, a princípio, todas as propostas devem ser consideradas. Se não forem boas, se tornarão passado. Até porque a cena se faz no tempo presente", afirma Cesar Augusto.

Na programação, os curadores valorizam grupos que apresentaram trabalhos em edições anteriores do riocena - casos do Espanca!, de Belo Horizonte, e do XIX, de São Paulo. O primeiro, dirigido por Grace Passô, já mostrou as elogiadas montagens de "Pour Elise" e "Amores Surdos", trabalhos voltados para a expressiva utilização de metáforas. Agora, o Espanca! desembarca com "Congresso Internacional do Medo", título extraído de um texto de Carlos Drummond de Andrade, espetáculo produzido pelo Núcleo dos Festivais. O Grupo XIX, por sua vez, atualmente sediado na Vila Maria Zélia, em São Paulo, teve a oportunidade de mostrar "Hysteria", no Museu Helio Oiticica, e "Hygiene", na Praça XV, encenações que propunham uma refinada interação com o público. A companhia dirigida por Luiz Fernando Marques será representada pelo documentário "Qual o seu Filme de Amor Preferido?", centrado no processo de criação do espetáculo "Arrufos".

O vínculo pessoal também pode ser relacionado a outras atrações desse riocena. É o caso da personagem da Bailarina de Vermelho, criada pela atriz Alessandra Colasanti num vagão da Leopoldina, na edição anterior do festival, que acabou rendendo a performance "Anticlássico". A companhia Pequena Orquestra, composta por nomes promissores do teatro carioca, marca presença. "Rodrigo Nogueira está próximo de nós, tanto como ator quanto como dramaturgo", informa Cesar. E "Casa de Laura" é uma encenação assinada pela diretora da Cia. Atores de Laura, Susanna Krueger - a partir de texto de Anamaria Nunes, responsável pelo adorável "A Geração Trianon", que rendeu montagem notável do Grupo Tapa, na década de 80. Os espetáculos e performances do riocenacontemporanea serão apresentados em vários pontos da Casa de Cultura Laura Alvim, de modo a valorizar a pesquisa voltada para a utilização de espaços não-convencionais. "A Casa Laura Alvim nunca foi ocupada dessa forma. Estamos aproveitando espaços desconhecidos do público, como dois quartos em que dona Laura abrigava artistas de rua", assinala Cesar.

Além dos espetáculos e instalações, a programação se completa com quatro debates - "A atuação dos festivais no desenvolvimento da cidade", "Teatro e política cultural", "A virada dramatúrgica" e "A cena e as comunidades". Vale dizer que os espectadores podem trocar objetos pessoais por ingressos e todas as atrações do festival.

Espetáculos:

"Congresso Internacional do Medo" (Grupo Espanca!) - O espetáculo reúne convidados vindos de lugares imaginários do mundo para participar de um encontro no qual buscam embasamento para tentar explicar o sentimento do medo. Dentre as conclusões tiradas, a amedrontadora constatação de que somos efêmeros.

"Estação Vitória" - O título do texto do dramaturgo inglês Harold Pinter batiza esta iniciativa que reúne, além de "Estação Vitória", outras três peças curtas inéditas por aqui, encenadas em um único espetáculo: "A Nova Ordem Mundial, Monólogo e Precisamente". Nas quatro obras do ganhador do Nobel de Literatura, fica evidente o jogo de poder entre os personagens que vivem em solidão.

"Casa de Laura" -  A vida de Laura Alvim em uma visita guiada, sob o olhar da atriz e diretora Susanna Krueger. Ela mostra a paixão de Laura, apontada como a primeira garota de Ipanema, pelas artes e como a doação da casa, transformada pelo Estado em Centro Cultural, materializa esse amor. Depoimentos de Rubens Correia, Ivan de Albuquerque e de Mariana Alvim, irmã de Laura, formam a base do texto de Anamaria Nunes.

Intervenções, Performances e Instalações:

"Cascando" - Os quartos do terraço, nos quais Laura abrigava prostitutas "corridas" das batidas na Av.Vieira Souto, e nordestinos recém-chegados ao Rio - que, em troca, faziam pequenos serviços na casa e ajudavam na construção do teatro -, serão, pela primeira vez, abertos ao público. Lá, estarão a instalação sonora de "Cascando I", poema de Samuel Beckett, traduzido por Daniela Pereira de Carvalho, com voz da atriz Camila Morgado; e "Cascando II", peça radiofônica de Beckett, com tradução também de Daniela, e vozes de Emílio de Mello e Renata Sorrah.

"Projeto Escambo I" - A instalação do artista plástico João Modé será composta de objetos que o público trocará por ingressos para as apresentações teatrais, durante o riocenacontemporanea. No encerramento do festival, serão objeto do Escambo propriamente dito. O projeto é uma parceria do artista com os curadores do festival. No domingo, ao fim do festival, a obra será "desfeita", com a participação do público. A coreógrafa Cristina Moura conduzirá o ato, num happening que estimulará as pessoas a interagir com a obra recém-apropriada.

"Projeto Escambo II" - Em outra parceria, o riocenacontemporanea se junta à grife de moda Cantão e promove o "Escambo II". Peças de roupa que fazem parte do projeto "Reciclagem Cantão", doadas pela grife, serão silkadas com a identidade visual do festival e trocadas por outras peças, levadas pelo público.

"Ao Camarim da Bailarina" - A Bailarina de Vermelho, personagem criado pela atriz Alessandra Colasanti, abre as portas de seu camarim, localizado no porão da Casa de Cultura Laura Alvim, nessa sexta, às 20h30, para receber amigos, fãs e o público em geral. No mesmo dia, a bailarina inaugurará a exposição "Fôlego do Artista", o primeiro acervo work in progress de todos os tempos. Alessandra, encarnada na bailarina, será a anfitriã do riocenacontemporanea 2008, e fará interferências pelos espaços da Casa de Cultura durante o festival.

Patrick Grant - Conhecido pelo trabalho junto ao grupo de teatro americano The Living Theatre, o músico e sound designer Patrick Grant fará um show-perfomance na varanda da Laura Alvim. Criador de partituras para Bob Wilson, The Living Theatre, Gerald Thomas e o Museu do Louvre, entre outros artistas e instituições, Patrick passou três anos em Bali, pesquisando o gamelan e a arte performática da Indonésia, e, no festival, apresentará algumas das muitas trilhas sonoras de peças que compôs.

DJ Sany Pitbull - O DJ tem se destacado de outros produtores de funk por apostar na vertente instrumental do gênero, utilizando pouco, ou quase nenhum, vocal em suas músicas. Em vez disso, tem experimentado sonoridades pouco comuns ao universo do funk, usando de barulhos de construção a gongos orientais em suas produções. O estilo de Sany Pitbull foi batizado "pós-baile funk". Sany Pitbull faz parte do projeto internacional Red Bull Music Academy, que reúne talentos espalhados por todo o mundo e que já passou por cidades como Londres, São Paulo, Melbourne e Barcelona. A apresentação do DJ é uma parceria entre a associação riocenacontemporanea e a Red Bull Music Academy.

Cristina Flores - A atriz apresentará com Marino Rocha, no balcão da varanda interna da Laura Alvim, quatro esquetes inspirados em famosas cenas de balcão da dramaturgia ocidental.

"A Marcha dos Abajoures Indignados" - Série de performances ocupando o espaço público, baseada no conceito antropológico de intervenção institucional, onde um elemento pode interferir no conceito de outros. A marcha dos abajures indignados propõe uma performance de longa duração, por meio de sucessivas performances com o mesmo formato, em diferentes lugares do Rio de Janeiro.

"Qual seu Filme de Amor Preferido?" - Documentário do professor da Faculdade de Educação da USP Júlio Groppa Aquino sobre o amor, a partir da exposição do processo criativo da peça "Arrufos", do Grupo XIX de Teatro. A pergunta é retirada de uma cena do espetáculo e são os integrantes da companhia de teatro que a respondem. Júlio Groppa Aquino é o  personagem central que alinhava a narrativa do documentário.

"Imagem" - O filme, "Imagem", de Álamo Facó, foi inspirado na avalanche visual do cotidiano e, por meio do personagem Mateus Sfencker, que se depara com fotos suas espalhadas pela cidade, mostra necessidade de ficar em silêncio e manter-se desconhecido. Álamo buscou referências em contos de Franz Kafka e roteiros de Charlie Kaufman.

"Ilha" - A performance-instalação "Ilha" gira em torno da idéia de espaços que não são ocupados por seres correspondentes, existenciais, partindo para o incondicionado, que não tem nada que cause a sua existência a não ser a si próprio.

"Ninguém sai daqui Vivo!" - Performance do ator Fransérgio Araujo, "Ninguém sai daqui Vivo!" é uma livre adaptação para o teatro de poesias, textos e fatos biográficos de Jim Morrison, criada e vivida pelo ator e com trilha sonora de Djdu K. A encenação segue as idéias do homem-teatro Antonin Artaud sobre a ruptura da separação entre platéia e palco, público e ator, realidade e espetáculo. Optou-se pelo espaço cênico sem cadeiras nem palco italiano. Todos pisam no mesmo chão e, assim, será criando o ritual de envolvimento e distanciamento.

"Processo Madrigal" - Estimulados pelo convite do diretor Enrique Diaz, a companhia de teatro Pequena Orquestra resolveu transformar sua pesquisa sobre "a verdade na cena", feita a partir de improvisações e exercícios, no espetáculo "Processo Madrigal". A peça investiga "a fabricação da realidade" tendo como estímulos duas obras: o filme "Blow Up", de Michelangelo Antonioni, e o livro "A Invenção de Morel" de Adolpho Bioy Casares.

Gerald Thomas - O fim da tarde de domingo reserva ao público do riocenacontemporanea um encontro com um dos mais importantes diretores da cena contemporânea brasileira, Gerald Thomas. Às 17h30, ele apresentará "O Cão que insultava as Mulheres, Kepler, The Dog", espetáculo feito para internet. Em seguida, o polêmico encenador, criador de uma estética elaborada a partir do uso diferenciado de cada um dos recursos teatrais e orientada pelo conceito de "ópera seca", proferirá uma Aula Magna.