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Análise do Livro: O contorno do sol


Por Daniel Russell Ribas
10/08/2009

Flávia é uma mulher entorpecida por medicamentos tarja preta, bebida e culpa devido a uma tragédia no passado. No decorrer dos anos, ela ora se esquiva, ora tenta encontrar um rumo para sua vida. A novela O contorno do sol, segundo livro de Natália Nami, sofre do mesmo problema que sua protagonista. Embora a autora tenha boas ideias e seu texto tenha personalidade, a obra não alcança o potencial apresentado no começo, ficando no meio do caminho. O resultado é ainda uma obra acima do mediano. Assumidamente um livro de formação, contém várias qualidades, sinalizando um futuro promissor para a escritora e recomendável para aqueles que desejam uma boa leitura.


Há diversos pontos positivos. O principal seria o estilo. Como muitas autoras brasileiras da geração 90, como Adriana Lunardi e Adriana Lisboa, Nami bebe em um "lirismo realista", utilizando elementos urbanos sob um ponto de vista delicado, metafórico, e mais conectado com a situação psicológica de sua personagem que com a realidade em si. Essa ainda se faz muito presente, mas é contaminada por comparações e reflexões da protagonista a seu respeito de sua "função" para ela. A opção por subjetividade que "aparece", não dominando a visão, mas surgindo como algo natural, permite ao leitor penetrar na maneira da protagonista interpretar o mundo, algo que, reforçado pela narração em primeira pessoa, fornece uma visão mais "direta" do cotidiano pelos olhos de uma mentalidade complexa. Um exemplo desta forma realista de narrar misturado com o lírico pode ser notado quando Flávia examina sua casa:
Olhei para baixo, para os ladrilhos vermelhos riscados. A casa precisava de reformas urgentes - as infiltrações, os ladrilhos rotos, as paredes como que suspensas por teias de aranha - mas dava preguiça mexer naquilo tudo, se eu começasse, teria de ir até o fim. Na verdade, eu queria conservar a deterioração da casa; meus avós estavam no piso lento daquela escada, no desbotado dos ladrilhos.

Outra escolha feliz, e ligada diretamente ao estilo da escrita, é a estrutura quebrada do texto. Com uma protagonista incerta do que é real e/ou da noção de tempo, Nami opta por idas e voltas, às vezes dentro do mesmo capítulo. Mais uma vez, Nami leva o leitor à mente confusa da protagonista, fazendo com que este descubra e participe das sensações de Flávia. O leitor, então, fica como a personagem, montando um quebra-cabeças da uma vida, esperando que, ao final, haja uma solução. Estes elementos reforçam a protagonista como uma pessoa, cheia de contradições, medos e carência.

Entretanto, se a caracterização é bem feita, há falhas na construção da trama em si. A história aponta para várias possibilidades que não atingem a complexidade desejada por conta de um aproveitamento abaixo do esperado. A relação entre Flávia com sua irmã, Cristina, ou com Rômulo, não são explorados a contento. Desse modo, o leitor não consegue sentir ou perceber a importância destes personagens para a protagonista ou a trama. Temos a palavra de Flávia e as reclamações de seu amigo Samir para mostrar a relevância e alguns momentos, como o aniversário de Cristina, que mostram isso. Ainda assim, não é o suficiente para o leitor crer na intimidade e volatilidade dos relacionamentos. Deste modo, um fator importante na psicologia de Flávia é relegado a comentários. O acidente, outro elemento essencial para a protagonista, é bastante citado, mas, novamente, não se consegue sentir a carga que isto trouxe para Flávia. O que ocorreu e o efeito estão descritos de maneira competente, mas como esta assombração se manifesta não fica suficientemente claro. Nami não vai ao cerne do conflito, preferindo permanecer na beira. Se funciona com o estilo, o oposto ocorre quanto à trama, pois assume o risco de banalizar a trajetória de sua protagonista, independentemente das razões de sua dor serem verídicas ou apenas uma atitude egoísta da mesma. Isto compromete o rumo, especialmente em sua parte final, quando situações particularmente importantes na trama ocorrem sem um espaço necessário entre esses ou uma exploração mais evidente do impacto na protagonista.

Ao final, é um relato breve e despretensioso. O número reduzido de personagens mostra que a intenção não é realizar um retrato aprofundado, mas explorar de maneira sutil como o trauma pode exercer uma influencia vital. É uma narrativa maior em que elementos de conto (poucos conflitos e personagens orbitando o acontecimento principal) persistem. É um bom começo, que demonstra uma tentativa real de dar um novo passo. Com qualidades positivas bem fortes, pode se esperar bastante da escritora Natália Nami. O contorno do sol apresenta momentos interessantes e de ousadia, o que sempre torna o ato de ler instigante.

Serviço
Título: O contorno do sol
Autor: Natália Nami
Páginas: 128
Preço: R$ 20
Editora: Rocco