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Análise: Monstros Invisíveis


Por Cláudia Fonseca

claudiasousafonseca@yahoo.com.br

28/09/2009

Uma sociedade que se torna cada vez mais escrava das aparências, em que seus atores se comportam de acordo com a necessidade de estarem em constante exposição. Em um misto de A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, e 1984, de George Orwell, Chuck Palahniuk abusa do senso crítico e criatividade no romance Monstros Invisíveis. A obra revela uma ácida visão da sociedade moderna, apresentando de forma chocante, apesar de verídica, o comportamento humano no mundo globalizado.

Shannon, uma jovem que começa a fazer sucesso como modelo, sofre um estranho acidente de carro que desfigura seu rosto e coloca um fim em sua carreira. Durante sua recuperação, ela conhece Brandy Alexander, travesti dona de glamourosa presença e beleza. Juntas, vão cruzar os Estados Unidos cometendo crimes e descobrindo suas identidades. Shannon deixa de ser o centro das atenções para se tornar um ser invisível, ignorado por todos, e Brandy deve decidir se fará a operação de mudança de sexo, que a transformará definitivamente em uma mulher.   

A trama apresenta reviravoltas em cada capítulo, surpreendendo ao revelar fatos que o leitor jamais imaginaria. Além de prender a atenção com uma narrativa que foge à ordem cronológica e vai se encadeando ao decorrer de cada página, o título apresenta discussões que permitem a reflexão sobre os valores modernos.

Palahniuk coloca em pauta a discussão já levantada por Debord em 67, mas ainda atual; quando o ser humano deixa de ser, para dar mais importância ao ter, e chegar à realidade que se encontra a sociedade contemporânea, que aclama cada vez mais o parecer. Surge a necessidade de estar de acordo com um padrão. A mídia, a globalização, fazem com que conceitos e valores sejam impostos, e para se sentir incluído em um círculo, você deve agir e aparentar ser o que os meios dizem que você deve ser.

"Isso acontece porque estamos muito presos à nossa cultura, a sermos seres humanos neste planeta com o cérebro que temos, além dos mesmos dois braços e das mesmas duas pernas que todo mundo tem. Estamos tão presos que qualquer meio imaginável de escapar da armadilha só pode ser mais uma parte dessa armadilha. Tudo que queremos fomos treinados a querer".

Quando o ator social não se enquadra nesse estereótipo mostrado pela mídia, ele se sente excluído, como se não fizesse parte desse círculo. Uma passagem interessante de como o indivíduo sente necessidade de ser representado em um meio é o momento em que Shannon se recorda de um comercial de televisão que fez, com a participação de uma platéia. Ela lembra que todos os participantes, em vez de prestarem atenção no produto apresentado, olhavam em direção o visor da televisão para se verem.

Quem assistia ao comercial percebia um público que estava mais preocupado em ser refletido no televisor do que participar do programa em si. Em outra passagem, um dos personagens aponta o impacto nas pessoas do que deveria ser apenas mais um meio de comunicação.

"Vocês já pensaram na vida como uma metáfora da televisão? (...) Vocês não acham que de certa forma a televisão nos transforma em Deus?"

A necessidade de estar cada vez mais exposto também pode remeter ao romance de Orwell, 1894, que foi responsável pela criação do programa exibido mundialmente, o Big Brother. No livro, uma sociedade de sistema totalitário é controlada por um ditador, o "Big Brother", que tem o poder de monitorar a população por meio de televisores que são instalados em todos os lugares.

No romance de Palahniuk, o totalitarismo se encontra na percepção da sociedade moderna em relação ao diferente, revelando a dificuldade dos indivíduos em descobrirem suas identidades em um meio treinado para ser homogêneo, conforme apresentado pelos grandes meios. A auto-exposição, nesse contexto, deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma necessidade pessoal, uma forma encontrada pelo homem para dizer que ele existe.

Em determinado momento, a protagonista descreve um dos seus trabalhos, em que tinha como única função passar o dia em uma casa de vidro com outra modelo, para serem observadas pelas pessoas que transitavam no local. Elas simulavam sentimentos, disputavam entre si a intensidade de emoções que não existiam, apenas para chamar a atenção. Apesar de sequer saber quem elas eram, o público parava e observa, revelando o voyeurismo existente na sociedade moderna e a necessidade de parecer e aparecer para conseguir um lugar de fala.  

"Completos desconhecidos paravam ali, ainda de casaco, para nos observar. A mesma coisa acontece com os programas de entrevista na televisão: é tão fácil ser honesto com uma platéia bem grande. Você pode dizer qualquer coisa, se houver gente suficiente para escutar".

Monstros Invisíveis é um romance que merece destaque, leitura obrigatória para quem gosta de refletir sobre a ditadura da aparência e do comportamento existente em uma sociedade hipócrita. Vale também viajar nas divagações de Shennon, que começa a viver uma nova realidade e apreende uma percepção de vida completamente diferente, quando deixa de ter um rosto digno de encantar qualquer um. Ao se tornar um monstro invisível, ela se descobre e entende melhor o que acontece à sua volta.

 "Quando ninguém olha para você, seu olhar consegue abrir um buraco nas pessoas. Dá pra notar todos os pequenos detalhes que você nunca teria tempo para perceber, caso a pessoa devolvesse esse olhar. E essa é a sua vingança".

Serviço

Título: Monstros Invisíveis

Autor:Chuck Palahniuk

Páginas:256

Preço: R$ 36,50

Editora:Rocco