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Análise de “A verdadeira história do Pequeno Príncipe”


Por Anderson Henrique
andersonhgo@gmail.com 
29/09/2009

O essencial é invisível aos olhos.

Publicado originalmente nos EUA em 1943, O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry, é a obra literária de autoria francesa mais popular em todo o mundo e um dos livros mais vendidos da história. Traduzido para mais de 150 línguas, estima-se que o romance possua mais de 400 edições diferentes e que 80 milhões de exemplares tenham sido vendidos mundialmente. De tão popular, ganhou adaptações para o teatro, cinema, televisão e quadrinhos, contando ainda com gravações em formato de audiolivro.

O Pequeno Príncipe é um livro tão amplo e fértil que tentar enquadrá-lo em um gênero ou segmento específico pode ser uma tarefa um tanto complicada. Alguns o classificam como um livro infantil; outros acreditam se tratar de um romance adulto recheado de metáforas. A edição que usei nesta resenha atribui à obra a classificação de fábula francesa e uma pesquisa pela internet revelou as mais diferentes definições, dentre elas infanto-juvenil e literatura estrangeira. Nenhuma destas categorias consegue, contudo, definir com exatidão a essência do livro. Afinal, se "O pequeno príncipe" pertence ao gênero infantil, por que ele é tão apreciado pelo público adulto? Ou ainda: como pode um romance tão metafórico e tão profundo, atingir a popularidade que ele tem com as crianças?

Em "A verdadeira história do Pequeno Príncipe", Alain Vircondelet, biógrafo de grandes nomes como Marguerite Duras, Albert Camus e Rimbaud, narra os principais eventos que contribuíram para o surgimento desta obra-prima. Utilizando-se de documentos inéditos do arquivo pessoal de Consuelo de Saint-Exupéry, mulher de Antoine, o autor reconstrói os diversos momentos que contribuíram para a elaboração da obra, desde os primeiros lampejos da idéia que daria origem ao livro em 1942, até o desaparecimento de seu escritor em 1944 durante uma manobra militar na segunda guerra mundial, a bordo de um avião Lockheed Lightning P-38.

O leitor que desconhece os bastidores a obra talvez não imagine que a idéia surgiu de uma sugestão despropositada do editor de Antoine em Nova Iorque, Eugene Reynal. Exilado nos EUA em 1942, o escritor enfrentava momentos difíceis em terras estrangeiras. Seus constantes conflitos com a mulher Consuelo e a crise criativa faziam dele uma pessoa angustiada e sem esperanças. A atmosfera fútil da cidade estadunidense e a sensação de isolamento também eram fatores agravantes para a condição psicológica do autor francês. Incapaz produzir a obra prima que desejava, Antoine estava imerso em uma profunda depressão. A idéia para O Pequeno Príncipe surge por acaso em um de seus encontros com seu editor: enquanto Antoine desenhava um homenzinho de cabelos revoltos sobre a toalha branca da mesa, Eugene, percebendo a frustração do escritor, sugere que este escreva uma história infantil como artifício para afastar seus fantasmas. "Por que não", Antoine responde, e assim surge a primeira inclinação à história do Pequeno Príncipe.

O leitor não encontrará no livro de Alain Vircondelet uma obra completa sobre vida de Antoine de Saint-Exupéry. O livro, na verdade, possui uma proposta muito bem definida, compreendendo apenas o período da elaboração do romance de Antoine, desde o primeiro esboço da idéia, até o desaparecimento do autor durante a segunda guerra. O autor explora este período minuciosamente para traçar um paralelo entre o romance, suas origens e os acontecimentos que inspiraram as principais passagens do livro.

Antoine é retratado no livro com uma pessoa sonhadora e idealista, ao mesmo tempo em que é explosivo e infantil. Por conta deste temperamento imponderado, muitas das reações de Antoine são precipitadas e algumas retratadas de maneira cômica. Durante uma viagem ao Canadá, em uma destas atitudes geniosas, o autor interrompe a apresentação de um cantor de cabaré, que em sua opinião arruinava belas canções francesas, e assume o palco para cantar em seu lugar. A impulsividade de Antoine também se manifestava em relação às mulheres que o cercavam, com as quais insistia em manter relações extraconjugais. A infidelidade levou Consuelo a tentar o divórcio por diversas vezes, mas Antoine sempre conseguia dissuadi-la de tais idéias.

Pela primeira vez, ele foi pontual ao encontro. Eu lhe ofereci um copo grande de leite, como costume, mas ele me pediu uísque. Nós bebemos vários uísques e então lhe anunciei que tinha compreendido o que me restava fazer: divorciar. A reunião foi marcada com um advogado. (...) A discussão aumentou, o advogado disse que ele me tratava como uma amante e não como uma esposa, e que, ele, meu advogado, estava pronto para me defender. Meu marido se levantou e me deu um beijo na boca. Foi o primeiro que me dava nos seis meses em que vivia em Nova Iorque. Eu fiquei furiosa, pois Antoine não estava agindo com seriedade.
- Não dou a mínima para as leis - concluiu ele! - Eu te amo.
Tudo recomeçou. Eu me lembro: Cidade de Almería... As laranjas floridas sobre a costa... O amor de nossas jovens vidas...

Escrito de maneira muito poética, o livro segue uma lógica comparativa que traça um paralelo entre a obra e as experiências do autor. Para Alain Vircondelet, grande parte de O Pequeno Príncipe é fruto da personalidade pueril de Antoine, que ao entrar em contato com o mundo adulto, repleto de falhas e desapontamentos, leva o autor iconizar a infância, transformando a obra em um receptáculo deste saudosismo melancólico. A partir desta mesma perspectiva, muitos trechos do livro sugerem que Consuelo é a representação real da única rosa na vida de Antoine. Em trechos como "Vai rever tuas rosas. Assim compreenderás que a tua é única no mundo" o autor desenreda a visão peculiar de Antoine em relação à Consuelo e às muitas mulheres que lhe servem como amantes. Apesar da relação conturbada com a mulher, Antoine sente-se responsável pelo sucesso do relacionamento. Nas palavras do Pequeno Príncipe "Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa..."

Além de uma análise muito interessante sobre a personalidade do autor, o livro A verdadeira história do Pequeno Príncipe presta uma franca homenagem ao autor sem idolatrá-lo, expondo de maneira muito elegante e generosa sua personalidade e seus principais estímulos. A leitura é extremamente agradável e narra em detalhes a história por trás de um dos grandes clássicos da literatura moderna, mostrando como a insegurança, os relacionamentos e as motivações utópicas do escritor foram combinados na construção de uma obra grandiosa.

UMA CURIOSIDADE

A Ediouro lançou neste ano, durante a XII Bienal do Livro no Rio de Janeiro, uma edição comemorativa de 50 anos de O Pequeno Príncipe que custa cerca de R$ 40.000,00. Esta edição possui dois metros de altura por um metro e meio largura e conta com 128 páginas. Esta edição gigantesca fará parte da próxima edição do livro dos recordes, o Guinness Book, como o maior livro Publicado no mundo.

SERVIÇO:
Páginas: 160
Formato: 21 x 15
Editora: Novo Século
Preço: R$ 29,90


A verdadeira história do Pequeno Príncipe


O pequeno príncipe no asteróide B 612


Filme baseado no livro de Antoinde de Saint-Exupéry


Retrato do Pequeno Príncipe