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EM BREVE NOS CINEMAS

Pampa Fiction


Por Daniel Russell Ribas
08/10/2009

Há algum tempo, a noção de filme com experiência cinematográfica se separou. Não que ir ao cinema tenha perdido a validade, muito menos obras que são mais bem apreciadas na tela de uma sala. No entanto, a ideia de ir ao cinema para assistir a um filme e a um evento causado pelo efeito do próprio, no lugar de marketing ou expectativa, sumiu. Quentin Tarantino e Robert Rodriguez buscaram recuperar o filme como espetáculo em Grindhouse. Fracassaram. Veio da Argentina a nova e excelente tentativa. Histórias Extraordinárias consegue trazer com louvor a experiência de ir ao cinema, ser levado para um lugar imprevisível e compartilhar com anônimos a seu redor suas percepções.

Dirigido por Mariano Llinás, que também atua, é uma versão cinematográfica para uma caixa chinesa ou os galinhos portugueses. São três tramas principais, que por sua vez que desdobram e outros segmentos. Estes são breves, mas são importantes por serem paralelos às histórias e, eventualmente, oferecem partes de explicação sobre o desenrolar do filme. São quatro horas e cinco minutos, divididos em dois intervalos. A cada intervalo, há sequencias que indicam para o espectador o que ele verá quando retornar à sala.

Através de diversos narradores, Llinás, aumenta a força das imagens. É ininterrupta, mas completamente perfeitamente a ação, como um livro com imagens. Essas, por sua vez, oferece a espectador uma compreensão extra que o texto não traz. A cena em que dois personagens encaram a enchente de um rio pela manhã é um exemplo. A narração também brinca com a posição teoricamente submissa do público diante da obra; negligenciando informações por capricho ou fazendo acreditar em algo para depois se desmentir.

Sua estrutura literária, utilização de um universo específico e conseqüente reinvenção, combinado com estilo pop e a utilização de muita música e referências, remetem a trabalhos de Tarantino, como Pulp Fiction e já citado Grindhouse. Já a trama bebe assumidamente de Borges, em especial sua parceria com o Casares. No caso, a utilização de uma história policial que se torna gradativamente rocambolesca e absurda, deixando o espectador/leitor tão perdido/fascinado quanto o protagonista. Apesar da narração já ter uma ideia de qual será o final (em vários momentos, adianta passagens da história e assume saber mais do que os protagonistas), ele brinca com a artificialmente do recurso, usando e abusando da metalinguagem. Esse elemento, aliás, utilizado fartamente por Borges e Tarantino.

Pode se falar e/ou escrever bastante sobre o filme, mas nada se compara a vê-lo num cinema. Esta é a grande vitória de Histórias Extraordinárias.

Mostra Latina

HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS
Argentina, 2008. 245 min.
Direção: Mariano Llinás
Elenco: Mariano Llinás, Agustín Mendilaharzu, Walter Jakob