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Entrevista: Waldomiro Vergueiro, pesquisador de quadrinhos


Por Bruno Rios Evangelista
10/10/09

Fundador do Observatório de Histórias em Quadrinhos (antigo Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos), o Professor Waldomiro Vergueiro é um dos maiores pesquisadores da Arte Sequencial do Brasil - e talvez do mundo, tendo muitos de seus artigos publicado em veículos estrangeiros. Além disso, é autor de vários livros, entre eles este Muito Além dos Quadrinhos - Análises e Reflexões Sobre a 9º Arte, publicado recentemente pela Devir e co-organizado por Paulo Ramos. O livro é uma coletânea de vários artigos acadêmicos, pesquisas e ensaios sobre as HQs. Embora este tipo de obra seja comum no exterior, aqui no Brasil ainda é rara uma iniciativa como esta. Saiba mais sobre Muito Além dos Quadrinhos na entrevista que o prof. Waldomiro Vergueiro cedeu ao Almanaque Virtual.

Almanaque Virtual - Como foi a "gênese" deste livro?
Waldomiro Vergueiro - A ideia do livro surgiu há alguns anos, quando ministrei uma disciplina de pós-graduação na Escola de Comunicações e Artes da USP, onde trabalho. Pensei, na época, na possibilidade de reunir os melhores trabalhos e fazer um livro que enfocasse as histórias em quadrinhos sob diversos aspectos, com especial destaque para seu impacto social. Além desses trabalhos, solicitei também capítulos de alunos de cujas bancas de defesa (TCC, mestrado ou doutorado) participei. Um deles, Paulo Ramos, concordou em ser um dos organizadores do livro junto comigo, o que ajudou bastante na concretização do projeto.

AV - Por quê há poucas obras deste estilo (com artigos acadêmicos sobre quadrinhos) no Brasil?
WV - Nem sempre as editoras olham com bons olhos livros desse tipo. Tratam-se de obras para um público mais específico, que não representam grandes lucros. Eles se pagam ao final, mas dependem das editoras acreditarem em suas possibilidades. Além disso, existem as dificuldades para reunir os textos, prepará-los para publicação, dar coerência ao conjunto, o que é muito cansativo e toma bastante tempo. Mas sei de vários outros livros no mesmo estilo que estão sendo organizados no Brasil neste momento e pode ser que esse espaço seja preenchido mais rápido do que pensávamos.

AV - Qual foi o critério para a escolha dos artigos presentes no livro?
WV - O critério foi a pertinência ao conjunto e o nível de qualidade do texto. Tentamos criar um livro com abordagens bem variadas sobre as histórias em quadrinhos, mas que não se afastasse de uma postura acadêmica. Ainda que tenhamos variedade temática - que vai desde o quadrinho histórico à imagem do personagem Batman popularizada pela televisão -, acredito que o nível dos artigos proporciona um conjunto bem harmonioso.

AV - Ainda é grande o preconceito (e a ignorância) por parte da academia e da imprensa não especializada em relação aos quadrinhos? Ou isto já foi superado?
WV - Eu diria que caminhamos para um maior entendimento. À medida que os quadrinhos passam a ser discutidos com mais frequência na academia e são objeto de maior atenção da imprensa (e não apenas sob o ponto de vista do pitoresco ou do sensacionalista), aumenta a tendência deles receberem um tratamento mais digno.

AV - Falando um pouco sobre o texto que escreveu para o livro: os quadrinhos institucionais podem ser uma forma de formar novos leitores desta mídia?
WV - Podem, sim. Eles ajudam a tornar mais palatável um tipo de informação que nem sempre é bem assimilado pelos leitores. Esse aspecto pragmático pode levar os leitores a apreciar outras produções de quadrinhos, ampliando o público consumidor.

AV - Qual é, digamos assim, a "vantagem" de se fazer um folheto educativo em quadrinhos, em relação a um simples texto com algumas ilustrações?
WV - No caso dos quadrinhos - considerando, é claro, a boa utilização dos elementos da linguagem quadrinhística -, a leitura é mais fluída e a assimilação dos conceitos ocorre de forma mais dinâmica e prazerosa. O potencial da linguagem para a transmissão desse tipo de informação já está sobejamente demonstrado pelas muitas iniciativas que já ocorreram nessa área. No entanto, não devemos esquecer que existem muitas utilizações precárias da linguagem, que pouco acrescentam e pouco efeito surtem nos leitores, muitas vezes até denegrindo a imagem que eles têm das histórias em quadrinhos. Nesses casos, ao invés de criar novos leitores, o produto pode até mesmo afastar alguns.

AV - Qual é o perfil do leitor brasileiro de quadrinhos? Ele curte mais Bonelli, mangá, super-heróis...
WV - Não podemos pensar em um leitor apenas, mas em segmentos de leitores. As crianças gostam dos quadrinhos infantis, como Turma da Mônica, Mickey, Scooby-Doo, etc. Os adolescentes se dividem entre mangás e super-heróis. E os adultos se distribuem nas diversas temáticas cultivadas pelos álbuns e graphic novels, notadamente obras ligadas a ficção científica, terror, mistério e exotismo. Ultimamente, tem crescido também o número de leitores adultos que se interessam pelo gênero conhecido como "jornalismo em quadrinhos" e também por obras biográficas em linguagem quadrinhística.

AV - A solução para os quadrinhistas nacionais é trabalhar para o exterior? Pois mesmo alguns que se destacam lá fora (até mesmo os que venceram o Eisner) aqui no Brasil ainda publicam histórias em publicações independentes, que não deixam de ser fanzines bem feitos.
WV - Não acredito nisso. A solução, a meu ver, está em desenvolver um mercado nacional, no qual esses artistas encontrem espaço para publicar e tenham interessados pelo seu trabalho. Isto não é fácil, pois existe uma grande parte da produção direcionada ao mercado que vem diretamente do exterior e toma conta das bancas. Mas não se deve esmorecer. É preciso continuar a buscar alternativas. Maurício de Sousa, no caso do quadrinho infantil, demonstrou que é possível furar o bloqueio da produção internacional de quadrinhos. Não é impossível fazer a mesma coisa nas outras faixas etárias.

AV - Aliás, você é um acadêmico respeitado mas não deixa de publicar artigos em fanzines (como o Graphiq, do Mário Latino). Por quê?
WV - Penso que é função do pesquisador divulgar o conhecimento em todos os meios possíveis, não apenas entre seus pares. No meu caso, gosto de estar onde posso ser lido e onde consigo atingir leitores interessados. Os fanzines são um espaço privilegiado para isso e não podem ser menosprezados.

AV - Houve aquele caso em que o governo adquiriu alguns álbuns, distribuídos a escolas do ensino fundamental, que continham palavrões. Os álbuns evidentemente não eram indicados para aquela faixa etária. Isto prejudica a imagem da Arte Sequencial perante a sociedade? A falha, a seu ver, foi do governo, que distribuiu os álbuns sem critério algum?
WV - Aquele caso foi lamentável. Não tenho dúvida de que houve uma má avaliação por parte dos responsáveis pela compra e distribuição. Isso ocorreu em virtude de uma visão deturpada que parte da população ainda tem sobre as histórias em quadrinhos, identificando-a, em sua totalidade, com o público infantil. Essa visão só poderá ser modificada com a informação. Cabe a nós esclarecermos a sociedade sobre as características da produção de quadrinhos, contribuindo, assim, para que casos como esse não se repitam.

AV - Falando um pouco de sua carreira, houve algum preconceito, por parte do mundo acadêmico brasileiro, quando você decidiu se tornar pesquisador da Arte Sequencial?
WV - Houve, sim. Velado, às vezes; declarado, outras. Com o tempo e a constância de minha produção, grande parte desse preconceito foi ficando para trás. Mas isso não quer dizer que outros colegas, talvez começando a carreira acadêmica nesse momento, não sofram algum tipo de preconceito. Eu quero acreditar que a experiência que eu e outros pesquisadores tivemos nessa área - e não posso deixar de mencionar o trabalho pioneiro de colegas por quem tenho um imenso respeito, como Antonio Luis Cagnin, Moacy Cirne, Álvaro de Moya e Sonia Luyten - servirá para os novos pesquisadores, aplainando um pouco os caminhos que irão seguir. Sou um otimista incurável, como você pode ver.