Por Daniel Russell Ribas
19/10/2009
O filme Estórias de Trancoso é uma singela homenagem à cidade referenciada no título e à vida no interior do Brasil. O diretor e roteirista Augusto Sevá a retrata como um local quase parado no tempo. Mesmo com a chegada do progresso e a consequentemente solidificação como paraíso turístico, o tempo passa devagar e quase nada acontece fora do ordinário ocorre. Sevá reafirma a expressão: As coisas mudam, mas, no fundo, continuam as mesmas...
A trama é uma crônica das mudanças na realidade do lugar e de seus moradores nos últimos vinte anos. Através de um pequeno grupo de personagens, vê-se as principais modificações locais. O sumiço da representação indígena e o aumento de pessoas de fora das mais variadas origens, o fim de uma cultura quase de subsistência por outra alimentada pelo turismo, o surgimento de drogas e a influência cultural externa... Todos estes fenômenos sócio-culturais são analisados a partir da interação destes com os personagens.
Sevá, no entanto, busca uma linguagem próxima a um pseudo-documentário direto. Há uma mistura entre verdade e ficção que constantemente nos lembra da artificialidade através de elementos reais. Os atores são locais sem experiência, a locação é real (a extensa utilização de externas acentua ainda mais esta característica), e há pouquíssimas intervenções de linguagem (como trilha sonora, câmera lenta, enquadramentos fora do aberto e médio) e narrativas (sonhos, delírios, flashback), buscando o aqui e agora (som direto, trama cronológica..). Com isso, Sevá deseja permear sua encenação com o máximo de autenticidade.
É claro que esta opção se revela uma faca de dois gumes. Embora carismáticos, os atores não convencem nos momentos mais dramáticos (o mesmo vale para Rodrigo Lombardi). É nítido como alguns falam de maneira mais lenta de forma a o soarem coerentes com as sensibilidades auditivas do resto do país. O amadorismo causa uma estranha e contraditória sensação de ver pessoas de verdade sendo atores medíocres de versões de si mesmos.
A história não parece estar indo para lugar nenhum, constantemente se aproveitando dos desencontros amorosos dos personagens como artifício para manter o interesse do espectador. Nenhum deles parecem estar se movimentando e seus dilemas ficam em um lugar comum, morno. Exatamente como a rotina da maioria dos humanos no mundo real.
A única trama original e provoca curiosidade é de Tonzé (Cristiano Cabral, Nefi Tales de Souza e Claudio dos Santos), o garoto que se torna pintor naïf. Seu fascínio com a cultura indígena e sua relação com os estrangeiros proporcionam algo inédito e que muda. No entanto, isto ocorre por sua narrativa conter alguns elementos extraordinários. A opção observativa se cumpre ao destacar o contexto e esperar que o drama surja de fora para dentro, dos personagens para o filme. Se o diretor alcança o efeito desejado, ao mesmo tempo, prejudica seu trabalho como obra de ficção e entretenimento.
Felizmente, este problema não é tamanho a ponto de impedir o espectador de apreciar a obra. É justamente a despretensão na vida dos personagens que o suaviza de modo a torná-lo gostoso como uma breve brisa de vento num dia quente. E, como a brisa, é breve e se vai.
Para finalizar, vale mencionar a boa qualidade técnica do filme. O destaque vai para fotografia de Sevá e Claudio Portiolli consegue fazer Trancoso aparecer como o Éden terrestre na tela.
Estórias de Trancoso, logo, é o equivalente cinematográfico a uma conversa de comadre ou bom prato de comida baiana: é bom enquanto dura, mesmo que não muito. Então, por que não experimentar?




