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Entrevista com Caio Barbosa, editor do Globoesporte.com


Por Daniel Russell Ribas
Fotos Álvaro Riveros
23/10/2009

Caio Barbosa nasceu em Petrópolis em 1977. Desde que se lembra, se interessava por futebol. Jogou, inclusive, em diversos times da sua cidade natal, ocupando posição de zagueiro a goleiro. Ele veio para o Rio de Janeiro ("apesar de todos os problemas, a melhor cidade do mundo") em 1995 para fazer faculdade de Ciências Sociais na UFF. No entanto, por conta de restrições do mercado e incentivado por jornalistas e professores, optou por seguir Comunicação Social. Ele trabalhou nas publicações O Fluminense e Lance!. Em junho de 2007, foi para a Globo, onde trabalha atualmente. Ele também escreve uma coluna no site Justiça Desportiva (http://justicadesportiva.uol.com.br/index.asp).

Almanaque Virtual - Como entrou em Comunicação Social?
Caio Barbosa -
Entrei em contato até porque as faculdades são próximas geograficamente (Ciências Sociais e Comunicação). O contato entre os colegas universitários era muito grande. E sempre participei ativamente dos movimentos sociais, sempre fui líder estudantil, sempre tive muito próximo de futebol... Sempre fui um torcedor muito ativo quando jovem, sempre estive presente nos clubes, no clube onde torcia e conheci jornalistas dessa forma.

AV - Nos jogos?
CB - Nos jogos, nos treinos, eu tava sempre acompanhando, sempre gostei muito de futebol, eu era meio torcedor fanático mesmo, tava todo dia no clube.

AV - O tricolor? (Fluminense)
CB - Sempre tricolor. E foi assim que conheci bastante gente. Assim foram feitos os primeiros contatos. Mas aconteceu mesmo na faculdade. Eu me lembro de alguns jornalistas da época... fizeram convite, perguntavam o que eu fazia, que eu era bem articulado, que era legal eu fazer faculdade... Adorava jornalismo e, mesmo em Ciências Sociais, as pessoas diziam que eu levava jeito para isso. Achavam que era legal que eu participasse para o jornalismo e acertaram.

AV - Como foi o começo de sua carreira?
CB - No segundo período, tive o primeiro convite para trabalhar no jornal "O Fluminense". Foi uma experiência muito positiva. O jornal "Fluminense" é uma verdadeira escola pelos problemas que a gente enfrenta, pelas dificuldades da produção da notícia, mas é um aprendizado muito válido e foi uma experiência muito prazerosa, que lembro com muita saudade. Depois dali, 2001, eu fui pro diário "Lance", que é o maior diário esportivo do Brasil. Fiquei lá durante seis anos. Eu fiz a cobertura dos grandes clubes cariocas; Fluminense, Botafogo, Flamengo; diariamente. Fiz seleção brasileira também, em viagens pelo Brasil e pelo mundo. E depois, em meados 2007, eu fui para o Globoesporte.com, lá pela proximidade do Panamericano. Tive um blog que foi bastante prazeroso de fazer. Foi um blog que falava sobre... É mais ou menos o que eu lido na coluna "Justiça Desportiva", uma coisa que não falava tanto do esporte em si, mas fala mais sobre os arredores, as partes periféricas.  Eu cobri o Panamericano, só que eu ia aos jogos, aos eventos, que achava que fossem os melhores do dia para acompanhar a reação dos familiares, a reação das torcidas, os problemas enfrentados pelos torcedores, a chegada das instalações, as ruas... Fiquei lá um ano e pouco. Saí em meio de 2008 e fui convidado para ser editor da home da Rede Globo. É um projeto novo da emissora e fui um dos que trabalhei na implantação desse portal que está no ar desde primeiro de janeiro na Redeglobo.com

AV - Qual era a sua rotina no "Lance"?
CB - Um dia comum era acordar sete e meia da manhã, porque tinha treino às oito e meia e dormir a meia noite, porque ainda tinha de ficar de olho nos noticiários esportivos da rádio. Era uma diária de trabalho muito pesada.

AV - Escrevia quantos textos por dia?
CB - Quantos textos? No "Lance", a gente fazia, às vezes, três páginas de matéria e duas, três, às vezes quatro; isso dava... dez, doze, quinze retrancas (Palavra que identifica um texto. "Samba" pode ser uma retranca que identifica um texto sobre as escolas de samba. O ideal é que a retranca tenha uma só palavra.[i]) assim.

AV- Por dia?
CB - Doze, treze retrancas.

AV - Certamente é uma escola. Ou você aprende ou você tem que fazer outra coisa.
CB - Ah, é. Se você passa pelo "Lance", faz qualquer coisa, porque lá é muito trabalho. A escala de trabalho é um pouco pesada para os jornalistas atualmente. Acho que trabalham muito, muito tempo, muito desgaste e acho que não só no "Lance", mas nos veículos esportivos. Acho que vão encontrar uma maneira um pouco mais razoável para os jornalistas, porque a rotina do repórter que cobre clube, especificamente, que era o meu caso, tem uma rotina muito pesada. E acho que nos tempos atuais, onde a velocidade da informação e o acesso a internet, celular, qualquer outro meio, por casa não tem mais necessidade de ficar 12, 13 horas dentro de uma redação, porque isso é massacrante. mas foi muito bom, aprendi muito, fiz muitos amigos e só tenho a agradecer.

AV - Como foi sua passagem no Globo Esporte?
CB - Minha passagem no Globo Esporte foi muito boa, porque aprendi uma nova mídia, trabalhei diretamente com a internet, que no "Lance", apesar de eu ser um repórter multimídia, fazer vídeos via internet não eu era que publicava a matéria. Agora, no "Globoesporte.com" não, a gente tem que se virar. A gente produz, apura, escreve, edita e publica. então, a velocidade é a maior e você tem que estar sempre ligado, sempre querendo dar o furo, porque é disso que a gente vive, é disso que gosto... Existem jornalistas com diversos perfis. Tem jornalistas que tem perfil de editores, jornalista que tem perfil pra fazer matérias especiais e jornalista que tem perfil pra correr atrás da notícia para dá-la em primeira mão, que eu acho que é o que mais gosto de fazer. Essa corrida pelo furo é algo que sempre me motivou muito e isso no "Globoesporte.com" tem uma vantagem. A gente se tiver a notícia em primeira mão, é só chegar, bater ali em cinco minutos e bum. Isso é muito legal, muito gratificante, ter podido trabalhar daquela maneira e ter conhecido mais a fundo a mídia de internet, que não era tanto a minha praia e agora é onde trabalho atualmente.

AV - Como é que sua relação com o Fluminense?
CB - Minha relação com o Fluminense é familiar. Minha família inteira é Fluminense.

AV - Não teve muita escolha?
CB - Não tive muita escolha, não, mas também não lamento nada por isso não. Eu sou Fluminense e não há o menor problema. Na verdade, hoje, o time está numa situação bem complicada, mas todo mundo que tem um time desde pequeno não vai ser porque o time vai para a segunda divisão, terceira, primeira, ganhando ou perdendo, a gente torce para aquele time.

AV - Como é cobrir clubes?
CB - Cada dia que a gente vai trabalhar num clube... a gente... não só por mim, falo por todos, especialmente dentro do futebol carioca. O primeiro dia que a gente vai trabalhar no Fluminense, no Flamengo, no Vasco, no Botafogo, a gente se desilude. A gente vê que é um mundo de fantasia, que nosso universo particular, na infância e na adolescência, não existe, porque é uma desorganização e um amadorismo tão grande que a gente fica constrangido. Mas eu nunca tive problema nenhum com isso. Até porque a gente tem que entregar a matéria, a gente tá ali trabalhando e a gente não trabalha numa revista. Nunca trabalhei numa revista que tem que fazer pra semana seguinte. Sempre trabalhei com velocidade. Tinha que terminar o texto, porque o jornal tava fechando ou porque tinha que enviar a matéria para o site em tempo real. Então, não dá tempo de torcer.

AV - Já passou por uma situação curiosa envolvendo trabalho e o fato de torcedor?
CB - Um dia muito curioso para mim foi quando fui cobrir a final da Copa do Brasil, Flamengo e Santo André. Eu fui a São Paulo, eu fui fazer a caravana da torcida do Flamengo, eu fui num dos ônibus da raça rubro-negra pra São Paulo e acompanhei toda a paixão da torcida do Flamengo, foi muito legal, foi uma matéria muito bacana de fazer e o Flamengo acabou naquele jogo empatando e, como todo mundo, no Maracanã perdendo para o Santo André e as pessoas: "Porra, você secou bonito. Gostei de ver. Foi lá e secou mesmo. O pessoal não ficou puto contigo não, cara?" Eu disse: "Não, cara. Até porque, eu juro pra você, nem se eu quiser secar, o que eu não faria, eu conseguiria, porque era tanta coisa pra fazer, tanta informação pra passar, tanta matéria pra fechar, que não dava pra secar. No jornalismo, o que mais conta pra sua carreira é credibilidade. Então, não tou ali pra secar ninguém. Sou jornalista e meu trabalho é esse.

AV - Como é sua relação com os torcedores?
CB - Muito boa. Nunca tive problema com torcedor. Os torcedores também reclamam, isso é natural. Torcedor tem que reclamar mesmo. O torcedor tá sempre insatisfeito, mas tem que estar, porque ele está cobrando o melhor do seu time.

AV - Como você separa o torcedor do jornalista?
CB - Agora, mais do que nunca, já que eu não trabalho com futebol. Agora, torço mais do que nunca. Mas é tranquilo. Eu já aprendi nesses anos todos, dez anos, a separar bastante. acho que já fiz o torcedor mais crítico, com críticas construtivas a fazer. acho que posso acrescentar não só ao Fluminense quanto aos outros clubes, porque a minha passagem pelo jornalismo ainda fez isso. Hoje, sem hipocrisia nenhuma, posso falar que torço pelo bem dos clubes cariocas, até por uma questão de sobrevivência da categoria. Com o futebol carioca fraco, perde todo mundo.

AV - Qual é o grande problema com o Fluminense?
CB - Acho que o maior problema do Fluminense, que acaba se refletindo no time, é o clube. Acho que é por isso que o time está tão mal. É um efeito dominó. A primeira pedrinha do dominó começou a derrubar as outras com a perda da Libertadores. Naquele dia, o castelo tricolor começou a ruir. Me lembro que a LDU era a segunda colocada na classificação geral da Libertadores, o primeiro era o Fluminense. Eu fui pra um evento no Equador, pra primeira fase da final. O Fluminense ganhou o primeiro jogo, na estreia da Libertadores, em um clube mínimo chamado El Nacional, desconhecido aqui no Brasil. A estrutura do El Nacional é muito melhor do que Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo, mas muito melhor. São cinco, seis campos de treinamento, mas em perfeito estado, um ao lado do outro, com um CC com piscina, com sala de musculação, com tudo que aqui no Rio não tem. E o da LDU é melhor ainda. Então, não foi por acaso, sabe? E, hoje, os clubes cariocas, eles não conseguem enxergar o tamanho dos problemas que têm, eles continuam vivendo num mundo de ilusão, achando que tudo são flores...

AV - Por que não há investimento na estrutura do clube?
CB - Por incompetência e amadorismo... Não há uma visão profissional da coisa. Os clubes de São Paulo estão muito à frente dos clubes cariocas. Os clubes de São Paulo, os clubes do Sul, os clubes de Minas... Meus amigos paulistas hoje falam: "Me desculpa, mas os melhores hoje são os gaúchos, são os mineiros, os cariocas hoje... são times charmosos, mais nada." A estrutura aqui é muito fraca, muito ruim e isso repete no Fluminense. O Fluminense precisa urgentemente de uma gestão profissional. No final de 2006 pra 2007, em 2006, o Fluminense tava quase rebaixado. Aí, foi a contratação do Fernando Gonçalves para elaborar o planejamento. O Fluminense deu um salto de qualidade tamanho que chegou aonde chegou e não poderia ter deixado aquilo desandar como deixou. Hoje o Fluminense tá do jeito que tá por falta de um planejamento das pessoas que tão lá hoje e não são profissionais.

AV - Qual é o problema com os times cariocas?
CB - É justamente isso que eu falei. É a falta de estrutura. Nenhum clube carioca tem uma estrutura condizente com a grandeza dos clubes. Eles simplesmente pararam no tempo. Não inovaram em nada e a estrutura hoje é como na década de 80, mas é também como se fosse na década de 90. Se há 30 anos, a mudança era mais lenta, a evolução era mais lenta... de repente, você podia manter uma estrutura física de trabalho por cinco, dez anos. Hoje em dia, você tem que modernizar todo ano. É igual ao computador. Tem que sempre dar um upgrade nele, senão você vai ficar obsoleto. Os torcedores não tem a mínima noção do que existe dentro dos clubes cariocas. Os times cariocas estão muito defasados, esta é a verdade. É preciso correr contra o tempo, porque os outros times estão muito à frente. Times de São Paulo, Sul, Minas estão muito à frente dos cariocas. Não é pouco não.

AV - Qual foi a matéria sua que mais repercutiu e por quê?
CB - Sempre trabalhei mais com furo de reportagem. Isso que me motivava mais. Acho que sempre, nas coberturas que fiz, o placar de furos dados e furos tomados foi a meu favor. Acho que a repercussão disso era legal. Uma história engraçada que eu posso contar foi uma matéria que fiz com o Pedrinho, o meia que se consagrou no Vasco, no Palmeiras, ídolo das duas torcidas e fez uma passagem pelo Fluminense. Eu fiz uma matéria de uma página inteira com ele, com infográfico, mostrando o quanto que ele não tava rendendo. É uma matéria comum, mas o jogador ficou indignado, porque mostrei o quanto ele valia por jogo, por partida, e... o jogador em agosto, setembro tinha tido dezenas de contusões da retina do olho até contusão nos órgãos genitais. Ele quis me agredir no treino. O Fernando Henrique e o Arouca, na época, o viram partindo pra cima de mim assim... O Pedrinho, um jogador franzino, deve ter um 1, 60 m e 60 kg, eu tenho 100 kg e aí o Fernando Henrique olhou e disse: "Ah, não, não vai bater senão vai acabar quebrando a mão." Aí o pessoa começou a rir e foi engraçado. Mas essa foi uma que repercutiu. Mas no microcosmo, as matérias que mais repercutiram foram as contratações que dei. Me lembro de 2004, o Fluminense montou um supertime e não ganhou nada, mas a grande maioria das revelações eu dei em primeira mão também. Foi o time do Romário, Edmundo, Ramon, Roger, aquilo foi muito gratificante.

AV - Qual foi seu melhor momento trabalhando com jornalismo e o pior?
CB - A rotina do repórter que cobre clube diariamente é uma competição diária, é gostoso e é muito dinâmico... E o gostoso disso é a sensação que dá quando você dá o furo de uma grande notícia. Aquilo vale muito a pena as noites mal dormidas e as contas do celular particular ou do telefone de sua casa. O contrário também é verdadeiro. A dor de ver um concorrente dar um furo é de perder um título ali no finalzinho do jogo. Não adianta ficar achando que você é o melhor quando leva o furo ou o pior quando toma o furo. Mas tem que saber levar muito bem isso para conseguir no dia seguinte continuar dando furo ou recuperar aquele furo tomado. É esse jogo de pés gigantes que vai movimentando a nossa vida e que transforma nisso no grande prazer da profissão.

AV - Qual dica você daria para aqueles que querem trabalhar com jornalismo esportivo?
CB - Não tem que conhecer só do Flamengo ou Fluminense. O importante é saber a história de todos os clubes. Hoje em dia, a literatura esportiva, futebolística é cada maior. É sempre importante o estudante estar ligado no que está acontecendo, na história do clube porque ele vai deixar de ser torcedor. A vida do jornalista esportivo não tem o status que as pessoas pensam, é muita ralação, é muito trabalho, é muito final de semana de trabalho... Estudar, ler bastante, estar sempre bem informado, ser sempre bem criterioso e conhecer não apenas futebol. Tem que ter um conhecimento geral bastante bom e isso é fundamental para sua formação, não apenas como jornalista, como ser humano. O jornalista tem que estar pronto pra encarar qualquer parada. essa é a dica. não pensa só em futebol, não pensa só em economia, não pensa só em música, todo mundo tem que entender um pouquinho de cada coisa para ser um bom profissional.

AV - Recentemente, foi lançando o livro "Os dez mais do Fluminense" pelo jornalista Roberto Sander. Qual seria o melhor jogador do Fluminense em todos tempos na sua opinião?
CB - O Fluminense tem ídolos como Assis, Renato Gaúcho, que foi um protagonista do maior jogo que vi no Maracanã. O Flamengo com o maior jogador do mundo, que era o Romário, um timaço incrível foi derrotado pelo Fluminense num Maracanã absolutamente lotado. O Fluminense tem vários ídolos de outras épocas que nunca vi jogar, como o Castilho e o Telê, que são meus ídolos. Acho o Telê meu grande ídolo que não vi jogar. Mas jogador que vi jogar foi o Romário. O melhor que já vi, que por acaso jogou no Fluminense, foi o Romário.



[i] RIBEIRO, Maria Rosane e OLIVEIRA, Maria Cláudia (colaboração): Glossário de Jornalismo. In: Manual de Redação do GLOBO