Por Mario Abbade
28/10/2009
Quem conhece o trabalho da atriz Fabiana Karla, com certeza, espera algo relacionado ao humor, seja na TV ou no teatro. Em Gorda, o titulo da peça sugere que seja uma comédia. Confirmando essa hipótese, o texto, escrito pelo dramaturgo e cineasta Neil LaBute, flerta com o gênero. Porém, o espetáculo também é uma reflexão sobre o quanto o amor consegue superar preconceitos.
Fabiana Karla interpreta Helena, uma mulher gorda que não está preocupada com sua silhueta fora do padrão. Percebe-se que ela aceita sua condição, independente do modelo estético estabelecido pela sociedade, chegando a brincar sobre seu tamanho. Já no nome da personagem, brinca com o conceito de beleza helênica oriunda do mito grego.
Durante um almoço, em um self-service, ela conhece Tony (Michel Bercovitch), um rapaz boa pinta e muito bem empregado. Tony se sente atraído por Helena e inicia um romance. Porém, visivelmente acuado em ser visto em público com Helena por seus amigos. Ele terá que lidar com o preconceito de Caco (Mouhamed Harfouch), seu melhor amigo e colega no trabalho, e Joana (Flávia Rubim), um ex-caso que também trabalha no mesmo escritório. Interessante, que Joana é o oposto de Helena pela sua magreza excessiva, mostrando que o conceito de beleza pode ser subvertido, de acordo com quem olha.
O texto de Neil LaBute investe pesado nas piadas sobre pessoas gordas. Em um primeiro momento, pode gerar constrangimento, mas a intenção de LaBute é chocar e com isso provocar um debate no público sobre o excessivo preconceito não só sobre a estética, mas qualquer tipo de intolerância.
Comédia e melodrama caminham lado a lado. Ao mesmo tempo que o humor flui, uma certa melancolia surge lentamente, que irá provocar lágrimas nos mais sensíveis.
A montagem brasileira comandada pelo diretor Daniel Veronese sabe alternar esses momentos com equilíbrio. O público ri e se sensibiliza com cada situação encenada. Tudo funciona, dos cenários de Alberto Negrin, os figurinos de Vanessa Lopes a direção musical de Graciela Platek.
Para completar, o elenco está afinado com a proposta. Fabiana Karla controla seu lado humorístico com um bom desempenho dramático. Michel Bercovitch também transmite credibilidade em seu personagem, através de uma interpretação dúbia a cerca de seus sentimentos em contraste as cobranças da sociedade. Mouhamed Harfouch e Flávia Rubim possuem as amarras mais soltas no elenco, com o objetivo de provocar o confronto entre os personagens e o texto. Cumprem bem seu papel.
Neil LaBute já foi chamado de misantropo pela crítica. Realmente, seus textos flertam com a misantropia (aversão a sociedade), mas rotular dessa forma, é diminuir a força de sua obra. Em Gorda, ele proporciona, mais uma vez, um humor inteligente e provocador.
Serviço:
GORDA
Quinta, sexta e sábado, às 21h30, Domingo, às 20h
Teatro das Artes - Shopping da Gávea
Rua Marquês de São Vicente 52/ 2º piso - Gávea. Tel.: (21) 2540-6004
Capacidade: 456 lugares
Classificação etária: 14 anos
Duração: 1h30m
Ingressos: Quinta e domingo: R$60,00 (inteira)/ R$30,00 (meia), Sexta: R$70,00 (inteira)/ R$35,00 (meia) e Sábado: R$80,00 (inteira)/ R$40,00 (meia)
Visite o blog da peça: http://gorda-a-peca.blogspot.com/




