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Análise: Negrinha


Por Bruno Rios Evangelista
01/11/2009

Editora: Desiderata
Autores: Jean-Christophe Camus (roteiro) e Olivier Tallec (desenhos).
Páginas: 104
Preço: R$ 44,90

2005 foi o ano do Brasil na França, quando nosso país foi tema de exposições e atividades culturais diversas lá na Europa. 2009 é o Ano da França no Brasil, quando os papéis se invertem; entretanto, nós, brasileiros, continuamos a receber homenagens da terra de Asterix: a dupla Jean-Christophe Camus e Olivier Tallec criou a HQ Negrinha, bonita história que aborda o preconceito na Copacabana dos anos 50. Qualquer um que tenha lido aberrações como os gibis Batman no Brasil e Wolverine: Rio de Sangue ficaria cético ao saber que uma dupla de gringos resolveu produzir um álbum que se passa no Brasil - um enredo de época, ainda por cima! Mas, ao contrário do que se possa imaginar, os dois franceses não transformaram o Rio de Janeiro na capital do México. Jean-Christophe Camus é filho de uma brasileira, e soube usar sua experiência de vida para elaborar um roteiro verossímil.

De fato, Negrinha é uma história bem brasileira - para o bem e para o mal. No álbum nós acompanhamos parte da vida de Maria, uma garota simples de 13 anos. Ela é morena, filha da negra Olinda, que trabalha num apartamento luxuoso com vista para a praia de Copacabana. Por conta disso, mãe e filha tem uma vida boa, e Maria estuda num colégio particular frequentado pela elite da cidade (composta apenas de pessoas brancas...). Devido a uma tragédia familiar, Olinda é obrigada a levar Maria numa visita à favela. A partir destes acontecimentos, a menina descobre um tipo de vida diferente da que estava acostumada. Faz novos amigos, e passa a conhecer o preconceito, além de suas consequências na vida das pessoas. Além da segregação social e econômica (que todos nós já conhecemos) há também o problema da auto-estima dos habitantes da periferia, exemplificada numa auto-depreciativa frase da tia de Maria: "Olha só pra você, você é uma morena de Copacabana, não é uma negrinha da favela da favela."...

É bom lembrar que nada disso é contado de uma forma panfletária. É uma história bem cotidiana, repleto de momentos singelos e poéticos, características reforçadas pelo traço de Olivier Tallec, que aqui estreia nas histórias em quadrinhos. Tallec é ilustrador, o que explica o visual de livro infanto-juvenil adotado no álbum. Sua técnica não é rica em detalhes, mas é correta na elaboração dos cenários - algumas vezes, parece que estamos diante de um quadro pintado com aquarela. Suas figuras humanas são simples, belas e dotadas de personalidade, embora possa desagradar um pouco quando ele simplifica demais o traço - nas  faces das pessoas, por exemplo. O sambista Cartola faz uma participação especial, mas só é possível saber que ele está lá porque o mencionam! Logo ele, que tinha um rosto tão característico...

Vale a pena ler Negrinha, uma HQ sem grandes pretensões que entrega o que promete. É uma pena que este álbum, que teria um apelo tão grande entre leitores de várias camadas sociais, seja vendido a um preço tão alto! O livro ainda conta com um prefácio escrito pelo ex-ministro da Cultura Gilberto Gil.