Por Anderson Henrique
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02 de novembro de 2009
Miguel e os demônios é, sob muitos aspectos, um livro interessante. Escrito por Lourenço Mutarelli, autor paulistano que, entre outros livros, assina o excepcional O cheiro do ralo, o romance convida o leitor a uma trama policial incomum que mistura em seu enredo uma série de assuntos aparentemente sem correlação, mas que acabam por se entrelaçar em um enredo muito curioso. Na trama o policial civil Miguel vive um dilema moral ao ser convidado a executar um serviço ilícito que pode lhe propiciar um rendimento extra. Divido entre a vontade de saciar os desejos consumistas de sua namorada e sua própria consciência, o policial acaba por se envolver em uma situação multifacetada que colocará em seu caminho pedófilos, travestis, múmias mexicanas, seitas religiosas e supostas possessões demoníacas.
Miguel e os demônios é um livro ágil e objetivo. A opção do escritor por frases curtas, econômicas em conjunções, e períodos simples, torna a narrativa dinâmica e fluente. Apresentando uma estrutura fragmentada, narrado em terceira pessoa, o texto é composto como um roteiro, repleto de expressões usadas por roteiristas da sétima arte como Close-up, Fade e tantos outros. Há também indicações de enquadramento e marcações específicas do gênero como pode ser observado nos trechos destacados a seguir:
Cibele apanha, sorrindo.
Põe as notas sobre o criado-mudo.
Lança um olhar de desafio.
Miguel avança sobre sua boca.
Beijam-se
Fade.
Miguel não responde. Permanece com a mão esticada no ar. Pedro entrega o cigarro. Miguel dá uma longa tragada, depois solta a fumaça.
Detalhe da fumaça subindo.
Apesar da história parecer, à primeira impressão, um tanto grotesca e absurda, esta sensação desaparece ao longo da leitura conforme as qualidades do romance são reveladas. Toda a ação do livro se passa São Paulo, mostrando diversos bairros e localidades da capital paulista. Com cerca de quinze personagens, a trama gira em torno de Miguel e das pessoas com quem se relaciona, incluindo sua família e colegas de trabalho, cada um com suas características e peculiaridades. De fato, a composição dos personagens parece querer confirmar a máxima de perto ninguém é normal: o pai de Miguel é um homem aposentado, viciado em programas de televenda, que sugere que o fim do mundo está próximo; sua namorada representa a amante fútil e consumista que faz do sexo objeto de escambo; o parceiro de Miguel na polícia é um homem corrupto e sem escrúpulos; e o delegado plantonista da delegacia onde trabalha é flagrado com um travesti na saída de um hotel. O mesmo travesti por quem Miguel irá se apaixonar.
Para Miguel o mundo é como uma festa para a qual ele não foi convidado. Entrou pelos fundos.
A união destes elementos e as referências diversas como Satre, Freud e Pascal, entre outros, mergulham o protagonista em um universo de frágeis convicções, prestes a romper por qualquer descuido. A tese defendida pelo autor é válida e faz de Miguel e os demônios um livro muito particular e que merece ser comentado. Curiosamente, os demônios que o livro menciona no título estão com Miguel o tempo todo, e diferente do que se possa imaginar, não são apenas entidades sobrenaturais. Os demônios estão por toda a parte, mas o lugar mais óbvio a se procurar é geralmente ignorado.
Serviço:
Páginas: 120
Formato: 13,50 x 20,60 cm
Acabamento: Brochura
Preço: R$ 34,00
