Por Mario Abbade
05/11/2009
O gênero musical no teatro tem como objetivo maior entreter. Isso não impede do texto ter elementos que proponham uma reflexão sobre os dogmas da sociedade. O Despertar da Primavera se encaixa nesse perfil. Por trás das músicas e coreografias, existe uma critica sobre a opressão sofrida pelos jovens na escola, família e igreja. Apesar do texto original ter sido escrito em 1891, as mensagens continuam atuais.
A montagem é comandada por Charles Möeller e Claudio Botelho, atualmente, responsáveis pelos melhores musicais produzidos no teatro brasileiro. Temas como o florescimento da sexualidade, o incesto, e o suicídio permeiam o espetáculo de forma equilibrada. Com isso a epístola atinge o espectador sem ganhar uma aura de discurso.
A trama, escrita pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind, acontece no final do século XX na Alemanha e tem como protagonistas Melchior Gabor (Pierre Baitelli) e Wendla (Malu Rodrigues). Melchior é um aluno brilhante. E como todo estudioso, através de seus livros e crenças, questiona as regras impostas pela sociedade. Wendla é uma jovem educada de forma rígida por seus pais. Ela está aflita para descobrir sobre como os bebês são concebidos. Os dois descobrem o amor e o desejo juntos.
No meio dessa descoberta, outros adolescentes cruzam a vida do casal e encenam suas próprias histórias, como o atormentado Moritz (Rodrigo Pandolfo). Através de cada um desses personagens e seus questionamentos, o público navega em temas como o abuso sexual, a violência doméstica, a gravidez na adolescência, a prostituição, o suicídio e o homossexualismo.
Em alguns momentos, o texto pode soar dotado pela forma que a sociedade atual está bem mais liberal, mas é importante ressaltar o impacto de quando a peça foi escrita. Sua montagem foi censurada por diversas vezes e só ganhou força a partir do final da década de 50, quando se tornou um hino de liberdade para os jovens universitários.
A montagem de Möeller e Botelho é baseada no musical encenado na Broadway em 2006 com músicas de Duncan Sheik e texto/letras de Steven Sater. Eles apostaram no rock independente para criar as musicas. Com essa abordagem, o texto ganhou uma nova camada de dialogo nos temas. O espetáculo acabou recebendo oito prêmios Tony, o Oscar do teatro norte-americano.
O grande diferencial da montagem de Möeller e Botelho, foi a forma criativa que eles inseriram as musicas. Cada canção se incorporou ao texto e na ação dos personagens. Na encenação norte-americana, em cada musica, a dramaturgia era interrompida, os personagens pegavam o microfone e cantavam as canções como fossem ídolos do rock, como se fosse um grande show. Vale salientar, que a tradução das canções por Claudio Botelho funciona, devido ao respeito na forma de falar no Brasil. Isso sem mudar o conceito original das músicas.
O elenco, formado por jovens entre 14 e 25 anos, entendeu o projeto e conseguiu transmitir essa sintonia entre as musicas e o texto. Uma outra mudança foi a utilização do mesmo casal de atores para representar os adultos do triângulo escola/igreja/família. Com isso a mensagem sobre conservadorismo ganha ainda mais força.
Os cenários de Rogério Falcão é um outro elemento que produz uma bela metáfora para o texto. Ele utiliza tijolos e paredes com o desígnio de reforçar a repressão e a falta de comunicação entre os jovens e os adultos. Para contrastar, as descobertas sempre acontecem nas florestas a céu aberto.
Completando os destaques, os figurinos de Marcelo Pies, a coreografia de Alonso Barros, a luz de Paulo César Medeiros e a direção musical de Marcelo Castro.
O Despertar da Primavera é mais um espetáculo concebido com inteligência e criatividade por Charles Möeller e Claudio Botelho. Mesmo quem ache que certas normas comportamentais não causam mais espanto, elas continuam até hoje sendo encaradas como tabus pela sociedade.
SERVIÇO
O Despertar da Primavera
Local: Teatro Villa-Lobos
Endereço: Av. Princesa Isabel, 440. Copacabana
Telefone: (21) 2334-7153
Temporada de 21 de agosto a 15 de novembro
Quintas e sextas, às 21h.
Sábados, às 21h30. Domingos, às 19h.
Ingressos a R$ 60 (quintas e sextas); R$ 70 (domingos) e R$ 80 (sábados).
Vendas pela internet em www.ingresso.com.br
A bilheteria do teatro funciona de quarta a domingo, de 15h às 19h.
Classificação etária: 14 anos
Lotação: 463 lugares
Duração do espetáculo: 120 minutos (mais intervalo)




