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EM BREVE NOS CINEMAS

Brasil, o país do futuro?


Por Christian Jafas

01/02/2007

 

No Brasil, cerca de 16 milhões de pessoas com mais de 15 anos não são capazes de ler essas linhas e o país tem ainda 30 milhões de analfabetos funcionais, ou seja, pessoas com menos de quatro anos de estudo.

 

Os indicadores, produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o Censo 2000, foram analisados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e compõe o Mapa do Analfabetismo no Brasil, lançado em 2003. O Mapa mostra que as taxas de analfabetismo estão fortemente relacionadas à renda familiar e à localização geográfica. Todos os dez municípios com melhores indicadores estão nas Regiões Sul e Sudeste, e as dez cidades com o menor número médio de séries concluídas estão nas Regiões Norte e Nordeste.

 

O estudo aponta ainda que é possível erradicar o analfabetismo no país com projetos de qualidade e um grande esforço nacional, mas isso exigiria aproximadamente 200 mil professores de alfabetização. Hoje, o sistema educacional conta com 49 mil professores trabalhando no primeiro ciclo do ensino fundamental na modalidade de Educação de Jovens e Adultos.

 

Pro dia nascer feliz, segundo longa-metragem do cineasta João Jardim, mergulha nesse universo complexo e pouco explorado pela cinematografia nacional. O diretor que já havia nos presenteado com o belo “Janela da Alma” (2002) retoma a parceria com o produtor Flávio R. Tambellini para fazer um painel da relação jovem-escola-professor.  

 

O projeto, iniciado em 2003, só foi finalizado no ano passado e agora chega às telas com a missão de trazer à tona a discussão sobre a formação escolar brasileira. Pedir que um documentário assuma obrigações que são exclusivas da esfera governamental pode parecer excessivo, não fosse o também excessivo número de 46 milhões de brasileiros que perfilam no pátio dos analfabetos.

 

Fugindo dos números e se aproximando do dia-a-dia dos jovens, João Jardim percebeu que a equação ‘Aluno + Escola’ possui variáveis ainda desconhecidas:

 

“A adolescência, na vida de todos nós, é um momento difícil, sofrido, prazeroso e com emoções sempre à flor da pele. Um momento em que as dificuldades de entender o mundo, e de se entender, afloram com muita intensidade e este foi o meu foco. Eu percebia no discurso de meninos e meninas de 15, 16 anos uma inquietação e um antagonismo muito grandes com relação à escola – o que, por um lado, é natural; mas por outro, reflete a realidade da educação no Brasil”.

 

Foi com esse foco que a equipe de filmagem percorreu extremos econômicos como o rico bairro do Alto Pinheiros em São Paulo e a violenta Itaquaquecetuba, distante apenas 50Km do centro da capital paulista; e também extremos geográficos como Duque de Caxias, no Rio de Janeiro e Manari, em Pernambuco, um dos municípios mais pobres do Brasil. E foi justamente em Manari que João encontrou Valéria, 16 anos, a personagem-símbolo do filme: “Eu deveria ter uma péssima impressão da vida se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver”.

 

Pro dia nascer feliz está longe de usar os personagens para refletir os números frios das pesquisas. Sem entrevistar especialistas, doutores, políticos ou ONGs, o que João Jardim propõe é simplesmente ouvir os atores desse processo: alunos e professores. Durante os 88 minutos de projeção somos convidados a retornar à sala de aula e encontrar elementos que fazem parte da nossa memória: a conversa no corredor, as desilusões amorosas, a falta de professores, a turma da bagunça, as expulsões, o drama das notas vermelhas.   

 

A fotografia de Gustavo Habda merece um dez com louvor, e aqui não importa o foco preciso ou o movimento perfeito, o que impressiona é a sensibilidade para captar gestos, olhares, risos, palavras não-ditas, componentes que permeiam qualquer roda adolescente. As imagens que entrecortam as entrevistas não servem apenas para ilustrar ou dar espaço à montagem, elas revelam as diferenças gritantes que existem na nossa sociedade: as paredes descascadas e úmidas das escolas públicas não recebem as mesmas confidências que o pátio arborizado da rica instituição paulistana. 

 

Nas escolas de Manari, Caxias e Itaquaquecetuba os problemas são os mesmos: desinteresse pelo quadro-negro, violência em sala de aula, professores com medo e desestimulados. Alguns depoimentos nos dão a certeza de que o sistema está falido, e algumas perguntas ficam sem resposta: “Como tornar a escola atraente? Que futuro existe depois da formatura? A escola vai me garantir um emprego?”.

 

As preocupações dos alunos da rede pública são substituídas pelas questões filosóficas da elite paulistana. E a montagem não precisa colocar um depoimento atrás do outro para reforçar a idéia do diferente ou para chocar o público. Keila, 16 anos, de Itaquaquecetuba, aparece nos primeiros trinta minutos:

 

“Antes eu chegava da escola, deitava na cama e ficava o dia inteiro dormindo. Comia até deitada na cama, porque pra mim seria a solução dos meus problemas, morrer. Seria mais fácil o caminho”.

 

Quase no fim da projeção, Thais, 15 anos, do Alto Pinheiros revela suas angústias: “Eu tenho medo de coisas complexas e grandiosas, como o medo da morte, o que acontece depois da vida, quem sou eu, o que vai acontecer comigo – coisas que você começa a pensar nessa idade e não tem resposta”.

 

Mais triste do que as questões filosóficas de Thais é perceber que o analfabetismo dificilmente será erradicado e um documentário como Pro dia nascer feliz está longe de ser apenas ficção no Brasil.