Matt Helm, o ancestral de Austin Powers
Por Raphaela Ximenes
19/06/2007
No fim de 2005, foi lançado um box de quatro DVDs com os filmes da série Matt Helm, protagonizada por Dean Martin e que se tornou um clássico da década de 60. Matt Helm nasceu em 1960, pelas mãos do escritor Donald Hamilton, era um agente do governo que havia atuado na Segunda Guerra Mudial e agora usado para aniquilar inimigos do país. Recheado de realismo, Helm logo ganhou fãs por todo o mundo e por isso uma adaptação para os cinemas.
Porém, a versão cinematográfica vai por outro caminho, o da sátira, tornando Helm o papel perfeito para Martin, um ator que caminhava muito bem pelo mundo da comédia e do drama. Atualmente os filmes de Matt Helm seriam vistos como ingênuos, mas muitos ainda conseguem perceber sua genialidade, entre eles o ator Mike Meyers, que nitidamente se inspirou nos filmes de Helm para compor seu agente Austin Powers.
Em 2006 foi feita uma proposta para que uma adaptação mais fiel dos livros de Matt Helm fosse feita para o cinema. Até agora a única coisa certa é que a produtora DreamWorks comprou os direitos de todos os filme de Hamilton e pretende filmar alguns. A seguir, conheça um pouco mais sobre o personagem Matt Helm, seu protagonista Dean Martin e as tramas dos filmes que compõem o Box de DVDs.
Helm, Matt Helm
A Coroa Britânica tem o famoso agente 007, James Bond, a seu serviço. Mas os Estados Unidos contam com um agente tão especial quanto. Seu nome é Matt Helm e ele foi criado em 1960 por Donald Hamilton. Seu principal trabalho é matar ou invalidar agentes inimigos. Mais do que um agente secreto, Matt Helm é um contra-agente do governo, que tem missões mais importantes que a de um agente secreto. Claro que essa definição, criada pelo próprio Hamilton, era apenas para mostrar que Helm não era de forma alguma, cópia de James Bond (criado em 1953). Apesar de suas aventuras serem parecidas, e de Helm ser tão sedutor quanto Bond, ele também possuí a malícia norte-americana e um humor mais picante. Com histórias mais sombrias, muito mais realistas sobre o mundo da espionagem.
O personagem aparece em 27 livros escritos durante 33 anos, desde 1960 até 1993. No início Helm era um homem de meia-idade, que havia participado da Segunda Guerra Mundial e que agora lutava contra a Guerra Fria. Mas com o passar dos anos o personagem perdeu essa característica, para poder se tornar atemporal e desse modo conquistar várias gerações futuras.
Mas Matt Helm nunca perdeu suas principais características, de homem determinado, pragmático e muito competente, e apesar dos muitos anos de vida, seus livros nunca perderam a continuidade entre as histórias. Outro fato que afasta Matt Helm de James Bond, é que suas histórias estavam recheadas de intrigas internas dentro do mundo da espionagem, dando um tom de realismo. Além dos inimigos, Helm enfrenta tentativas de ser anulado por outros agentes de sua própria organização. O mundo das agências de espionagem era retratado com realismo por Hamilton, o que fez os críticos da época elogiarem com fervor seus livros. Toda a paranóia pós-Guerra que surgia no país era retratada de forma sutil e inteligente nos livros de Hamilton.
Logo, no meio da década de 1960, Matt Helm também ganhou as telas dos cinemas. Quatro filmes baseados nas aventuras de Helm, que ganhou o rosto de ninguém menos que Dean Martin, foram produzidos entre 1966 e 1969. Martin participava da produção, assim como Irving Allen, que foi ex-parceiro de Cubby Broccoli na produção de alguns filmes da franquia James Bond. Porém, apesar de usar o nome Matt Helm, e do personagem ser um agente do governo norte-americano, os roteiros dos filmes estavam bem distantes dos livros originais de Donald Hamilton.
Algumas tramas, personagens e características das histórias originais foram usadas, mas na essência os filmes de Matt Helm fugiam dos livros. O tom sombrio e meio carrancudo do personagem dava lugar ao glamour e bom humor, onde Matt Helm se tornava um alter ego de Dean Martin, ganhando seu charme galanteador. Boa parte de culpa por essa transformação é dos produtores, que se preocupavam em que as aventuras cinematográficas de Matt Helm acabassem se confundindo como mais um filme de James Bond, ou seja, uma cópia sem graça. Assim se desfizeram do tom sério dos livros, já que as diferenças entre os dois personagens eram muito sutis. Logo, Helm acabou virando uma paródia de si mesmo e de Bond, tornando os filmes divertidos, clássicos e excelentes exemplos dos anos 60.
Todos os títulos dos livros de Donald Hamilton sobre Matt Helm: “Death of a Citizen” (1960), “The Wrecking Crew” (1960), “The Removers” (1961), “The Silencers” (1962), “Murderers Row” (1962), “The Ambushers” (1963), “The Shadowers” (1964), “The Ravagers” (1964), “The Devastators” (1965), “The Betrayers” (1966), “The Menacers” (1968), “The Interlopers” (1969), “The Poisoners” (1971), “The Intriguers” (1972), “The Intimidators” (1974), “The Terminators” (1975), “The Retaliators” (1976), “The Terrorizers” (1977), “The Revengers” (1982), “The Annihilators” (1983), “The Infiltrators” (1984), “The Detonators” (1985), “The Vanishers” (1986), “The Demolishers” (1987), “The Frighteners” (1989), “The Threateners” (1992) e “The Damagers” (1993). Além de “The Dominators”, que deveria ter sido publicado em 2002.
Mesmo com a morte de Donald Hamilton em 2006, a editora pensa em publicar esta última aventura de Matt Helm.
Dean Martin - O lado charmoso do “Rat Pack”
Dean Paul Crocetti nasceu no dia 7 de junho de 1917, em Steubenville, Ohio, nos Estados Unidos. Filho do barbeiro italiano Gaetano Crocetti e da ítalo-americana Angela Barra, o pequeno Dean apenas falava italiano até os cinco anos de idade, razão do seu sotaque meio sulista. Desistiu da escola no meio do colegial, porque se achava mais inteligente do que os professores. Passou a ter vários pequenos trabalhos, como entregar bebida clandestinamente, foi croupier, escreveu anedotas e dava cartas em jogos de pôquer. Por fim, aos 15 anos resolver se tornar boxer, se autodenominando “Kid Crocett”.
Sem muito sucesso no mundo do Boxe, Martin passou a fazer pequenos serviços para um cassino ilegal e nesta mesma época cantava com a banda local com o nome de Dino Martini, em homenagem ao tenor Nino Martini. Passou a cantar com a Ernie McKay Orchestra, e por influência de Bing Crosby e Harry Mills, fazia o estilo crooner, muito popular na época. No início da década de 1940 mudou seu nome artístico para Dean Martin, como ficaria famoso em todo o mundo.
Na mesma época acompanhou várias bandas, sempre se preocupando mais com o visual e sua personalidade no palco do que com a voz, mas logo conseguiu chegar ao seu estilo de cantar macio, manso que se tornou sua marca registrada. Em 1943 Martin passou a cantar no Riobamba Room, em Nova York, substituindo Frank Sinatra, sendo este o ano em que se conheceram e tornaram-se amigos. Em 1946, Martin já estava bem em sua carreira, fazia relativo sucesso, estava no mesmo patamar que Bing Crosby, um de seus ídolos, mas ainda faltava muito para alcançar Frank Sinatra.
No início da década de 1950, Martin estreou em Hollywood como ator, mas nunca se sentiu muito a vontade nos filmes em que participou, já que não era visto como um ator sério, apenas um cantor que tentava a sorte no cinema. Por isso, em 1957 aceitou participar do filme “Os Deuses Vencidos” (Young Lions – 1957), ganhando bem menos que os outros atores, mas para poder atuar ao lado de Marlon Bradon e Montgomery Cliff, grandes nomes da época. Assim nesse filme, Martin atuava em seu primeiro papel de peso no cinema, chamando atenção para si como ator, exatamente o que pretendia.
Em seguida veio “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo - 1959), dirigido por Howard Hawks, e ao lado de John Wayne e Ricky Nelson, conseguiu se consolidar como ator, além de cantor. Na década de 1960, Martin resolveu abraçar sua fama de beberrão e conquistador, tanto em seu show em Las Vegas, quanto nos filmes “Beija-me, Idiota” (Kiss Me, Stupid – 1964), dirigido por Billy Wilde e estrelado por Kim Novak, seu par romântico no filme. Depois por sua caracterização irreverente e tranqüila de Matt Helm, tornando-o um espião mais interessado em conquistar mulheres do que combater seus inimigos. Também em seu programa de televisão, “The Dean Martin Show” de 1965.
Mas ao contrário do que se pensa, Dean Martin era um homem tranqüilo, muito ligado à família, que na maioria das vezes bebia suco de maçã no lugar de whisky quando estava trabalhando, já que levava tudo muito a sério. Martin era realmente brincalhão e de personalidade tranqüila, por isso conseguia separar o personagem de sua vida real. Seu programa de TV fez muito sucesso, talvez por ser improvisado e quase nunca ensaiado. Martin não gostava de ensaio, preferia decorar de uma vez suas falas e então atuar, o que dava vida e ritmo ao programa. “The Dean Martin Show” foi ao ar até 1974, durando 9 anos, um bom tempo para os programas televisivos da época.
Outro aspecto muito importante na vida e carreira de Dean Martin são as parcerias. Voltando a 1946, quando ainda fazia números e cantava em clubes, Martin conheceu o jovem comediante Jerry Lewis e logo se tornaram amigos, levando a amizade para o palco do 500 Club de Atlantic City. A química entre os dois era tão grande, que o show era montado todo por improviso, sem nenhum roteiro, logo se tornando um sucesso, levando-os a se apresentar no famoso clube Copacabana de Nova York.
Em 1949 começaram um programa de rádio e neste mesmo ano os dois assinaram um contrato com a Paramount. A dupla protagonizou seu primeiro filme “Amigo da Onça” (My Friend Irma – 1949), e dali foram 18 filmes da dupla Martin e Lewis, de 1949 a 1957. Eles eram os dois atores mais famosos de Hollywood na década de 1950, mas logo começaram a sentir a pressão de tamanha responsabilidade. Críticos começaram a reparar mais em Lewis, como o verdadeiro talento da dupla, onde Martin seria apenas a bela voz e rosto. Reconheciam que a dupla funcionavam, mas ainda acreditavam que Lewis era a verdadeira estrela. Toda a crítica que sofria e a insistência dos produtores de não mudar a fórmula dos filmes da dupla, levaram Martin a se desestimular cada vez mais de seu trabalho com Lewis, o que passou a se tornar aparente. Logo a amizade também acabou e em 1956 a dupla se desfez pra sempre.
Outra grande parceria de Dean Martin, e talvez a mais importante, foi com Frank Sinatra. Desde o início da carreira de Martin no Riobamba Room, quando se conheceram, passando por duetos inesquecíveis, a amizade apenas se solidificou e criou fortes raízes quando Dean Martin passou a fazer parte do Rat Pack. Tudo começou com o filme “Deus Sabe Quanto Amei” (Some Camming Running – 1958), quando Dean atuou ao lado de Sinatra e Shirley MacLaine, considerada uma das mascotes do Rat Pack. O grupo formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Samy Davis Jr., Joey Bishop e Peter Lawford, se tornou imortal por causa de filmes como “Onze Homens e Um Segredo” (Ocean’s Eleven – 1960), mais seis outros filmes, além das antológicas apresentações ao vivo. Por fim Sinatra, Martin e Davis Jr. se tornaram os “membros” mais famosos do grupo mais conhecido do mundo. Não apenas pelo talento dos artistas, mas também pela amizade que tornava tudo muito natural e talvez razão do grande sucesso, até hoje.
Dean Martin continuou sua carreira no cinema, na televisão e como cantor com muito sucesso. Apesar de alguns problemas se casou apenas três vezes, sendo a terceira pela segunda vez com a sua segunda esposa, Jeannie, que se manteve ao seu lado até o fim. Era um homem de bem com a vida, mas que a levava a sério, ao contrário de seus personagens. Infelizmente faleceu aos 78 anos em 1995, por conseqüência de um câncer no pulmão.
Matt Helm no Cinema
De 1966 a 1969 quatro filmes baseados nas aventuras de Matt Helm chegaram ao cinema, todos estrelados por Dean Martin. Tudo começa com “The Silencers” (1966), onde Matt Helm nos é apresentado como um agente especial da agência do governo ICE, que pretende se aposentar e continuar sua ida como fotógrafo, sempre cercado por belas modelos. Porém a maligna organização Big O pretende tomar o mundo e se vingar diretamente de Helm, o que a faz a voltar ativa. Se no livro Helm era um assassino a serviço do governo para aniquilar os inimigos do país, no filme ele é um bon vivant, que quer apenas curtir uma vida mais tranqüila. Recheado de duplos sentidos e piadas em torno de outros filmes de Martin onde ele canta além de representar, este primeiro filme da série, é um ótimo aperitivo para o que vem a seguir. Uma curiosidade, Cyd Charisse aparece nos créditos de abertura dançando no melhor estilo Bond Girl.
A segunda aventura de Helm, “Muderers’ Row”, também de 1966, começa com Helm fingindo a própria morte para poder capturar o Dr. Solaris. Vários aspectos da cultura pop dos anos 60 são satirizados no filme, onde Helm acaba se envolvendo com uma jovem Ann-Margret, de micro-saia e longo cabelo ruivo. A atriz interpreta a filha do Dr. Solaris, Suzie Solaris, que acaba ajudando Helm para provar que seu pai na verdade é vitima de uma emboscada da Big O.
Em 1967 Matt Helm conquista o espaço sideral, na aventura de ficção científica, “The Ambushers”. Considerado o mais fraco dos quatro filmes de Helm, por razões óbvias. Sua história parte do seqüestro de um disco voador pelo espião Jose Ortega (Albert Sami). Helm e a bela agente, que também já foi piloto, Sheila Sommars (Janice Rule) são convocados para recuperar a nave. Claro que no fim tudo não passava de um plano da Big O.
O quarto e último filme de Matt Helm é “The Wrecking Crew” de 1969. Apesar de ser o último filme da série é baseado no segundo livro escrito por Donald Hamilton. Com uma trama muito parecida com a de “Goldfinger”, Helm é acionado por sua agência, a ICE, para lidar com uma organização que quer conquistar o mundo através do ouro. Tentando obter todo o ouro do mundo. Para tal missão Helm ganha uma parceira inglesa, interpretada pela atriz Sharon Tate. Outra curiosidade é que Chuck Norris faz uma ponta no filme, em seu primeiro papel no cinema.
Apesar de no fim dos créditos haver uma chamada para mais uma aventura de Matt Helm no cinema, “The Ravagers”, Dean Martin resolveu não encarnar mais o agente. Apesar de tramas diferentes, todos os filmes de Helm possuem as mesmas características. Um humor ácido, de duplo sentido, oportunidades para Dean Martin cantar, mesmo que como sátira a si mesmo, e muitas piadas em relação ao sucesso de Frank Sinatra como o cantor favorito das mulheres. Uma forma carinhosa do ator homenagear o amigo. Belas atrizes, a maioria em inicio de careira, mas que se tornariam famosas no futuro também é uma marca registrada dos filmes de Helm, onde não havia uma “helm girl”, mas várias e todas com nomes de duplo sentido.
Outro fato divertido do filme são as bugigangas que Helm leva consigo, assim como James Bond. Porém todas também de duplo sentido, como o cinto que fica ereto quando molhado, do filme “The Ambushers”, além da motocicleta anfíbia. Para a década de 1960, talvez as aventuras de Helm eram um tanto quanto picante, mas hoje ao lado das comédias atuais, parecem filmes até inocentes, com piadas divertidas sobre sexualidade, sem serem de mal gosto, uma característica que falta às comédias atuais.

Don Hamilton / Dean Martin / Caixa de DVDs

Exemplos de livros

Dean Martin / com Jerry Lewis e com o Rat Pack (Sammy Davis Jr. e Frank Sinatra)

Os primeiros filmes

Os 2 últimos filmes