Magic Mike XXL

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30 de julho de 2015

Imagine que você, aí do outro lado, ainda esteja sob as influências de luxúrias desfrutadas com um alguém desconhecido, mas especial, em uma determinada noite. De repente, um tempo depois, seu telefone toca e aquela mesma pessoa lhe faz um convite irrecusável, prometendo mais diversão tórrida. Pensando com boa vontade, dá para perceber que tal situação não abre o texto por acaso, ela faz um paralelo bem humorado com a sequência do filme de Steven Soderbergh, “Magic Mike” (2012). A sensação é essa mesma da introdução, de um quente primeiro encontro que terá continuidade ― os rapazes musculosos e exibicionistas estão de volta, cheios de propostas indecentes para a mulherada que embarcou no deleite visual servido no filme anterior. A sensualidade sem vergonha, agora em tamanho double extra large em “Magic Mike XXL”, segue a mesma linha despreocupada ― sem enredo denso com profundas reflexões, como era de se esperar.

A continuação, dirigida por Gregory Jacobs (assistente de direção de Soderbergh), assume a conhecida forma de “filme de estrada” quando os rapazes decidem fazer um grand finale em uma “Convenção de Strippers”, marcada para acontecer em Myrtle Beach muito em breve. O personagem Mike (Channing Tatum ― mantendo viva a veia de stripper, sua ocupação antes da fama no cinema), afastado dos palcos, é procurado pelos antigos colegas que querem trazer o principal astro de volta. Dessa forma, ele é seduzido a abandonar a vidinha normal que tentou construir: relacionamento estável sustentado por um trabalho convencional de fabricante de móveis, para novamente rasgar a roupa do corpo e acumular verdinhas na tanga. Do grupo original, ficaram de fora Dallas (Matthew McConaughey), o veterano da noite que gerenciava os dançarinos, e o “ninfeto” Kid (Alex Pettyfer), pupilo de Mike. Subtrações no elenco que de fato não prejudicam o roteiro. Um antigo romance de Mike, a madura Rome (Jada Pinkett Smith), também envolvida na indústria do rebolado masculino, substitui Dallas na condução do espetáculo. A atriz Andie MacDowell, curiosamente um dos rostos de “Sexo, Mentiras e Videotape” (1989), que fez do cineasta de “Magic Mike”, Steven Soderbergh, um queridinho do público mais alternativo, interpreta uma madame que encontra redenção sexual nos exageros anatômicos do personagem de Joe Manganiello.

Por mais que a narrativa de “Magic Mike XXL” seja desprovida de camadas de complexidade, o enredo suscita, com a despretensão de quem quer apenas se divertir, certas questões apropriadas. Um ponto essencial que deve ser ressaltado é que o filme atual apaga qualquer resquício daquele moralismo perceptível em “Magic Mike” ― o dilema de tentar separar a profissão da “verdadeira” personalidade, aliado ao ingênuo processo de conquista de uma moça para casar, como dizem por aí. Na película da vez, nos preparativos para o último ato, é o próprio Mike quem sugere que as apresentações de cada stripper sejam mais pessoais possíveis. Uma atitude que nega a máxima do primeiro longa, “eu não sou meu estilo de vida”, trocando-a pela afirmação de que “você é aquilo que faz”. E danem-se os julgamentos. Para dar o tiro final na caretice, a mulher que cruza o caminho de Mike, a jovem Zoe (Amber Heard), não encontra a felicidade ao lado dele na doçura de um beijo privado entre quatro paredes. Ela sorri no palco, no auge da dança mágica do garotão. O prazer libidinoso concedido pelos homens-objeto abre os olhos do público para um argumento reiterado desde o longa inaugural, mas desta vez intensificado de propósito ― o ponto certeiro é a presença feminina, a MC Rome, apresentando cada stripper para as rainhas, como ela gosta de chamar as mulheres da plateia. Quem disse que elas não merecem um estímulo aos sentidos mais íntimos, algo tão comum ao universo masculino? Channing Tatum e sua turma seminua estão aí, mais uma vez submetidos ao olhar, para destruir o escudo do machismo. Aliás, como dizia Cindy Lauper: “girls just wanna have fun”.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4