Mais Sombrio que a Meia-Noite

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05 de novembro de 2014

Filme que não é apenas mais um no vasto número de realizações cinematográficas regidas pela temática gay, “Mais Sombrio que a Meia-Noite” valoriza, com a potência veraz de suas imagens quase autônomas, a exibição honesta dos dolorosos desdobramentos da intolerância. Protagonizado pelo ator Davide Capone, cuja androginia é uma característica que intensifica essa força imagética, o filme, brilhantemente dirigido por Sebastian Riso, acompanha a jornada de um adolescente que, oprimido dentro de casa por suas preferências, resolve sair pelas ruas em busca do lugar ao qual pertence.

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Para Davide (manteve-se o nome próprio do ator) a felicidade é um bem momentâneo e clandestino ― no porão de casa, decorado à sua maneira, ele é livre para olhar no espelho sem desconforto, para agir sem a pressão do fingimento de se passar por alguém que corresponda ao seu sexo. Guiado pelo desejo de identificação, Davide é atraído pela existência errante de um grupo de gays que ganham a vida nas ruas da Catânia. Acolhido por eles, agora Davide é parte da família de marginalizados, o jovem fica cada vez mais próximo da sensação de pertencimento. Em “Mais Sombrio que a Meia-Noite”, o ponto alto da eloquência dos planos é constituído pelo brilhante contraste estabelecido entre a vida nas ruas e no lar. As cenas que mostram Davide sob os domínios familiares são marcadas por uma esterilidade sufocante, um ambiente de frieza somente propício para a proliferação de manifestações paternas de incompreensão e preconceito. Continuar ali é correr risco de morte, um convite ao suicídio; ficar na rua, exposto e com fome, é um ato de autopreservação.

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Como não é assim tão fácil desvencilhar-se das próprias origens, um reencontro com o autoritarismo familiar culmina com o despertar do jovem em um leito de hospital. Por desespero ele feriu a si mesmo. Angustiado com o sofrimento represado, Davide olha-se no espelho em circunstância diferente daquela do começo do filme. O berro para o próprio reflexo, e para o espectador, tem mais de um significado ― é som do ódio por ainda estar de pé, como é também grito de alerta para um objetivo essencial transmitido pela câmera de Riso: de conscientização da igualdade.

Festival do Rio 2014 – Mostra Expectativa

Mais Sombrio que a Meia-Noite (Più Buio di Mezzanotte)

Itália, 2014; 94 minutos

Direção: Sebastiano Riso

Com: Davide Capone, Vincenzo Amato, Lucia Sardo Laurier, Pippo Delbono, Micaela Ramazzotti

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5