Mais Um Ano

A Preciosidade do cotidiano de casal de senhores no inverno da vida, mas que ainda a tratam como verão, visto por quem está de fora

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06 de junho de 2015

Esta crítica foi escrita para o Festival do Rio 2012 e inacreditavelmente esta obra-prima demorou 3 anos para chegar ao circuito.

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Existem filmes cujo ponto forte pode ser o roteiro. Noutros, a produção. E ainda os que primam pela atuação. Mais Um Ano é o novo filme do experiente diretor Mike Leigh, e, um de seus talentos mais notórios é justamente a direção de atores, podendo-se confiar num rendimento muito acima do padrão para contar uma história através de sutilezas e minúcias. No enredo, um casal de senhores incrivelmente carismático, e que não deixa de se amar e se entrosar apesar do passar dos anos, serve de base sólida para se construir a pirâmide de visitações à sua casa e jardins no decorrer de capítulos divididos entre as 4 estações. Pois mesmo com um casal no inverno de suas vidas, ainda se tratam como se no verão de suas juventudes.

Screenshot_2015-06-06-12-23-19-1Capitaneado pelo excelente ator Jim Broadbent (já ganhador do Oscar de coadjuvante por “Iris”) e pela doce e catalisadora personagem de Ruth Sheen, o casal recebe desde o filho com a nova namorada, ao melhor amigo do marido ou a colega de trabalho da esposa. E é esta última, na revigorante atuação deLesley Manville, que eleva o filme a outro nível. Com uma personalidade ligeiramente desequilibrada e inquietante para todos ao redor, é a partir da interação desestabilizadora dela com todo o resto do elenco que se criam catarses de tensão ou mudanças, sem ser previsível em nenhum momento. Sua personagem poderia ser irritante, mas com extrema simpatia e canais abertos para o público se identificar, ela transforma suas perturbações em simbolismos do vazio que sua geração está sentindo no momento e nas neuroses que se desenvolvem (pois projeta as chances perdidas, desencantos, divórcio e etc na juventude do filho da amiga, com tudo ainda pela frente, e por quem ela começa a ficar obcecada). Neuroses estas no cerne do roteiro, pois a protagonista é conselheira do serviço social, e até a namorada do filho é terapeuta de reabilitação de infartados e idosos, tratando dos problemas psicológicos alheios.

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A natureza versus urbanismo também têm destaque, pois, além de cultivarem belo jardim que reflete o estado tranqüilo de ser deles, o marido ainda é geólogo e argumenta em inúmeras conversas sobre os desafios da modernidade, como os efeitos antiecológicos da propagação de carros, ou falta de incentivo governamental para trens ou altas taxas da aviação; e até a (in)utilidade de se reciclar ou não – tudo isso por causa do carro novo da personagem de Lesley que guia sutilmente certa parte das conversas da trama (que não estão falando de verdade sobre carros, e sim da imobilidade social com o meio ao seu redor).

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Vale ressaltar a ponta precoce da personagem de Imelda Staunton (uma homenagem à grande parceria com o diretor no grande filme “O Segredo de Vera Drake”), de cujo sintoma de insônia pelo estresse tão comum à vida cotidiana é o que dita o ritmo e profundidade da investigação do ordinário – pois o pode parecer simples às vezes esconde coisas muito complicadas. À primeira vista engana o público (talvez os menos acostumados ao jeitão e humor irônico inglês) como se a trama toda não girasse em torno de muita coisa, mas, de fato, escrutina uma gama enorme de particularidades de todos nós.

Mostra Foco Reino Unido – Festival do Rio 2012
Mais Um Ano (Another Year)
Reino Unido, 2010. 129 min.

Direção: Mike Leigh
Com: Jim Broadbent, Ruth Sheen, David Bradley, Lesley Manville

Avaliação Lena Cavalheiro

Nota 5