Malala

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19 de novembro de 2015

No Brasil, o documentário sobre Malala Yousafzai, dirigido por Davis Guggenheim, chega aos cinemas em um momento muito propício. Vivemos um período em que as mulheres do país, desafiadas por um projeto de lei que impede um direito básico (o acesso não burocratizado ao aborto em caso de estupro), estão tomando atitude e erguendo a voz. Da mesma forma fez Malala quando se deparou com o ditame radical do Talibã que negava às meninas o direito à educação escolar. Por falar em grupo extremista, “Malala” chega também em uma fase apropriada quando o assunto estende-se ao mundo. No dia 13 de novembro, sexta-feira, uma série de ataques terroristas em Paris, perpetrados pelo Estado Islâmico, deixou mais de 120 mortos. O banho de sangue na capital francesa reativou na população mundial o alerta da iminência de mais uma guerra contra o terror. Quem de nós, civis vulneráveis, ousa levantar a voz nesse caso? Em face da complexa questão, é uma boa pedida sentar na poltrona do cinema e refletir sobre a trajetória de uma adolescente que enfrentou o Talibã no campo minado paquistanês, com então quinze anos de idade ― sua munição? Palavras não silenciadas nem com um tiro na cabeça.

O início do documentário, que reconta o feito lendário de Malalai de Maiwand, jovem heroína que esteve por trás da vitória dos afegãos contra os britânicos na Segunda Guerra Anglo-Afegã, em 1880, fundamenta-se na noção de predestinação. O pai de Malala, Ziauddin Yousafzai, homenageou a tradição Pashtun ao batizar a filha com o nome poderoso. O destino da recém-nascida foi certeiro já que Malala herdou também a disposição heróica, qualidade ameaçadora para o inimigo ― Malalai de Maiwand foi morta e a líder contemporânea passou perto disso, baleada na cabeça. Sua recuperação inacreditável, ultrapassando várias complicações de saúde enquanto esteve hospitalizada, reforça ainda mais essa ideia de missão a ser cumprida. Para florear o documentário que segue o método tradicional, Davis Guggenheim inclui sequências de animação, como pinturas aquareladas em movimento. A introdução do filme é um dos trechos que seguem esse formato.

Figura de notabilidade mundial, Malala atua em nome de uma militância que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 2014, a mais jovem premiada da história, além de levá-la até lugares distantes de seu local de nascimento, o Vale de Swat, no Paquistão, como a sede das Nações Unidas, em Nova York. A essas atividades de conhecimento público, o filme opõe aspectos da vida privada de Malala por meio da câmera que entra na residência que ela divide com a família ― mãe, pai e dois irmãos ― em Birmingham, na Inglaterra. Malala está proibida de retornar à sua terra natal, sob a ameaça de perder a vida, angústia que o filme mostra. Ainda acerca dessa linguagem de oposição, o longa confronta a imagem de ativista sem fronteiras com a da estudante de boletim nem tão brilhante, realidade contrária ao desempenho escolar da jovem no Paquistão. O documentário, contando uma história com incrível potencial cinematográfico, deixa que a emoção das vivências de Malala, hoje com 18 anos, fale por si. Diante da perseverança da menina que recusou se exilar na própria existência para pensar nos direitos de suas semelhantes, a indiferença é algo impensável no espectador. De modo inequívoco, o material que se tinha em mãos facilitou o processo geracional do filme; portanto, deve-se ressaltar o funcional encadeamento das partes da vida de Malala, sem resvalar na acomodação.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4