Mamma Roma

Mais um lançamento do selo Clássica, responsável pela restauração digital de filmes clássicos, chega ao circuito brasileiro

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26 de novembro de 2015

Mais um lançamento do selo Clássica, responsável pela restauração digital de filmes clássicos, chega ao circuito brasileiro. É uma boa oportunidade para cinéfilos e apreciadores da sétima arte, avaliar obras que tiveram uma relevância no cenário cinematográfico mundial, exibidas com som e imagem digitais.

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O polêmico poeta maldito italiano Pier Paolo Pasolini era critico ferrenho da moral burguesa e seus filmes, hoje tidos como de vanguarda, eram considerados profanos e polêmicos demais para uma platéia acostumada ao technicolor e a leveza importada de Hollywood.  “Mamma Roma” (1962), seu segundo filme, desponta como uma obra onde todos os aspectos de seu criador estão presentes (sexo, religião e política) tornando-se uma fábula rude e metafórica sobre a situação econômica e social da Itália no início dos anos 60, quando a população, depois de um período traumático, voltava a acreditar em um futuro melhor.

A prostituta de meia idade, a determinada Mamma Roma, festeja no casamento de seu cafetão Carmine (Franco Citti), sua liberdade recém adquirida. Ela acredita estar reconquistando o espaço perdido após duas décadas de meretrício e sua escalada social é coroada com a volta de seu único filho, o adolescente Ettore (Ettore Garofolo) e a mudança para um subúrbio em ascensão que convive entre ruínas e aterros. Roma é vista ao longe como uma miragem daquele mundo imperfeito que resiste aos trancos e barrancos. Mas esta aparente felicidade é apenas um ensaio da tragédia que está por vir.

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O diretor desconstrói o arquétipo da felicidade ao centrar a história na figura poderosa de Anna Magnani que explode na tela com suas olheiras profundas, cabeleira desgrenhada e risada rouca. Mesmo pressionada para voltar às ruas para pagar as dividas de Carmine e cuidando para que Ettore não volte para a marginalidade, Mamma Roma (uma alusão aos dois maiores símbolos italianos) mantém uma fé inabalável que dias melhores virão, mesmo que todo o contexto diga o contrário. A visão de Pasolini sobre a realização de sonhos é funestamente poética e provocativa sublinhando a tendência de um artista preocupado em destilar a essência de suas crenças.

 

Todo filmado nas ruas (resquício da evolução do movimento neo realista) esta ópera trágica marginal embalada pelos acordes de Vivaldi, é um poderoso retrato de uma geração sofrida e calejada pelo infortúnio muito bem representada por um cineasta indignado e inconformado com a injustiça humana.

 

 

Mamma Roma (idem)

Itália, 1962. 106 min.

Direção: Pier Paolo Pasolini

Com: Anna Magnani, Ettore Garofolo, Franco Citti, Luisa Loiano

Avaliação Zeca Seabra

Nota 5