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The Wrestler
A Troca
New York Film Festival 2008: Veteranos e Estreantes

Por Carlos Augusto Brandão, direto de Nova York

06/10/2008

1. RESUMO

A 46ª edição do Festival de Nova York - de 26.09 a 12.10 - teve uma programação caracterizada pela diversidade geográfica e temática, bem como pela inclusão de veteranos como Clint Eastwood, João Botelho e Nagisa Oshima ao lado de diretores mais novos como Antonio Campos - nova-iorquino, filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes - com seu primeiro longa Afterschool.

O filme de abertura foi "Entre os Muros" (Entre Les Murs), de Laurent Cantet, Palma de Ouro em Cannes, sobre uma turma de alunos numa escola da França. "The Wrestler", de Darren Aronofsky, estrelado por Mickey Rourke e vencedor do Leão de Ouro em Veneza, foi escolhido para encerrar o evento. "A Troca" (Changeling), de Eastwood - baseado num fato real sobre a luta da telefonista Christine Collins (Angelina Jolie) para encontrar seu filho desaparecido - foi a já tradicional peça de resistência do festival.

Entre os títulos europeus, a França foi o país com maior representação. Além de abrir o evento, mostrou "Parlez-moi de la Pluie", novo filme de Agnes Jaoui; "LHeure dEté", de Olivier Assayas, estrelado por Juliette Binoche; e "Um Conto de Natal" (Un Conte de Noel), de Arnaud Desplechin, um pesado drama familiar com Catherine Deneuve no elenco. O inglês Mike Leigh  apresentou  "Happy-Go-Lucky", que deu o Urso de Prata de melhor atriz em Berlim para Sally Hawkins e o italiano Matteo Garrone mostrou "Gomorra", sobre a máfia napolitana, que ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes.

Em mais um ano em que não foram selecionados títulos brasileiros - já que o filme de Campos é uma produção americana - a representação  latino-americana incluiu "La Mujer Sin Cabeza", da argentina Lucrecia Martel; "Tony Manero", do chileno  Pablo Larrain; e "Voy a Explotar", do mexicano Gerardo Naranjo. Foram destaques ainda "Che", de Steven Soderbergh, sobre o lendário líder revolucionário; "Cinzas do Passado" (Ashes of Time Redux), novo versão de Wong Kar-Wai para seu filme de 1994; "24 City", do chinês Jia Zhangke; e "Waltz with Bashir", do israelense Ari Folman, um documentário em desenho animado sobre a Guerra do Líbano, baseado na vivência pessoal de Folman. "Quatro Noites com Anna", um drama sobre um voyeur, marcou o retorno às telas do bom diretor polonês Jerzy Skolimowski. As mostras paralelas incluíram uma retrospectiva do cineasta japonês Nagisa Oshima e um tributo ao controverso diretor Guy Debord.

2. FILME DE ABERTURA

Depois de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes, "Entre Les Murs", de Laurent Cantet,  ganhou o status de abrir o tradicional evento novaiorquino. O filme de Cantet é baseado no livro homônimo de François Bégaudeau e, numa mescla entre a realidade e a ficção, aborda os problemas e conflitos de um colégio situado em um bairro francês, onde a população é predominantemente composta de imigrantes. Procurando seguir os princípios propostos no título do seu trabalho, Cantet segue o perímetro marcado pelos muros do instituto, lugar em que o professor François (o próprio Bégaudeau) entregue ao seu trabalho de pedagogo e tutor, tenta conviver com alunos marcados pelos estigmas de sua condição social. No marco das discussões que se desenvolvem em uma classe de vinte e cinco alunos durante o curso escolar, Cantet transita no tênue limite espacial e temporal do barril de pólvora que faz parte da vida escolar daquele grupo. O roteiro - escrito a quatro mãos com Bégaudeau - é excelente, prende a atenção dos espectadores e,  em nenhum momento, escorrega num previsível sentimentalismo ou panfletagem. Na coletiva com a imprensa, Cantet - um homem tranqüilo e um pouco diferente da imagem de contestador expressa em sua obra - disse que sempre quis fazer um filme sobre o sistema educacional. "Tenho filhos, vivo cercado de adolescentes, mas não queria fazer um filme apenas conceitual, queria traçar um microcosmo que representasse o que acontece no mundo. Foi quando descobri o livro de Bégaudeau, que relata sua experiência como professor de uma escola pública. É a voz de alguém de dentro do sistema e foi o ponto de partida que eu necessitava para a abordagem realista do filme". Para Cantet, é essa realidade que o leva a compor os personagens, mas ele evita fazer julgamento de valor sobre as pessoas retratadas. "Ao contrário, eu quero mostrar quão complexa são suas vidas. Na verdade, tenho uma grande empatia com elas porque acho que nós todos dividimos um tipo de paradoxo que é propagarmos o que pensamos e depois fazermos coisas que não nos orgulhamos muito", ressaltou. Ao final, esclareceu que, embora o filme seja baseado em fatos reais, não tem ligação com sua vida pessoal. "Já me perguntaram algumas vezes se o filme é autobiográfico. Mas a minha vivência de estudante vai longe, numa pequena cidade (Melle) do interior da França, onde nasci numa família de classe média. A experiência desses meninos é muito mais rica e muito mais aberta para as coisas do mundo. Eu estava interessado em saber o que os estudantes de hoje pensam de si mesmos e do modelo educacional que lhes é oferecido. Essa é a principal mensagem do filme", concluiu.

3. REPRESENTAÇÃO EUROPÉIA

Mais uma vez, o cinema francês teve um grande espaço no festival, sendo destaque os novos filmes de Assayas, Desplechin e Jaoui.  A Itália compareceu com Garrone, Portugal com Botelho, a Polônia com Skolimowski e a Inglaterra com Mike Leigh e o impressionante trabalho de Steve McQueen (Hunger). O detalhamento a seguir dá uma idéia de tais filmes.

O cinema sensível de Olivier Assayas

"LHeure d Eté" marcou a volta do cineasta Olivier Assayas ao NYFF, onde já esteve algumas vezes. Seu novo trabalho começa com uma família de classe média alta reunida para celebrar os 75 anos da matriarca Hélène (Edith Scob), na sua confortável casa de campo. A primeira parte do filme introduz os numerosos personagens, circulando em torno da luminosa figura de Hélène e delineando as relações entre eles. Dois meses após, Hélène morre subitamente, deixando para seus descendentes - Adrienne (Juliete Binoche), Frédéric (Charles Berling) e Jérémie (Jérémie Renier) - decidirem  o melhor a ser feito com seus bens, principalmente com as valiosas pinturas, mobiliário e muitos itens ligados ao seu tio, famoso artista da qual ela foi musa e amante secreta. A história prossegue no estilo do cinema francês de Rohmer - e do próprio Assayas - em que não acontece muita coisa de novo, não há grandes conflitos ou dramas e, mesmo a discussão sobre as posses de Hélène provoca apenas desacordos leves, que não causam maiores rancores ou ameaças de rupturas. Assayas baseia seu filme num tempo mais antigo - aquele dos objetos, memórias e a história que foi guardada neles - mas vira a página como um sopro de ar fresco.  A filha de Frédéric dá uma festa de final de semana para dezenas de amigos barulhentos na casa da avó, numa espécie de metáfora, mostrando a transição do velho para o novo.

Álbum de família francês

"Um Conto de Natal", de Arnaud Desplechin, foi um outro destaque da significativa representação francesa. O diretor retorna ao tema da família, aos desencontros e aos traumas de infância que teimam em continuar ressonando ao longo da vida. A história se passa em Roubaix, uma cidade do norte da França, cuja abundante vida noturna é mostrada numa montagem que remete ao cinema noir. Em Roubaix vive Junon, a matriarca da família Vuillard (Catherine Deneuve), que está morrendo de câncer e precisa urgentemente de um transplante de medula. Junon tem três filhos, Elizabeth (Anne Consigny), o amargo e alcoólatra Henri (Mathieu Amalric) - que Elizabeth quer banir de sua vida e da família - e Ivan (Melvil Poupaud), casado com Sylvia (Chiara Mastroianni, filha de Deneuve na vida real). Todos se reúnem para uma festa de Natal e a intenção é que seja  também uma oportunidade de uma negociação por baixo dos panos para que um dos filhos seja o doador para Junon  Só que quase todos se odeiam - e, no caso de Henri, um dos candidatos mais prováveis para a doação -  nem ele nem a mãe se suportam. Levando a emoção dos personagens ao seu limite extremo, Desplechin traz lembranças que evocam a morte, o amor, o ódio, o rancor e a difícil convivência entre amantes, marido e mulher, pais e filhos e até mesmo entre pessoas que não têm qualquer laço familiar. "Un Conte de Noel" não é tão impactante como Reis e Rainhas - considerado o melhor trabalho de Desplechin - mas não deixa de trazer sua assinatura nessa profunda análise dos relacionamentos interpessoais, expressos nos conflitos, nos sofrimentos e na lógica encontrada pelos personagens para os seus comportamentos.

Sutileza nas relações familiares

Outro representante francês no NYFF foi "Parle-moi de la Pluie", o novo filme de Agnes Jaoui, roteirizado e protagonizado por ela e por Jean-Pierre Bacri, seu marido na vida real. O filme segue Agathe Villanova (Jaoui),  uma escritora feminista candidata a deputada, que retorna à casa de verão de sua família para ajudar sua irmã Florence em assuntos relacionados com a morte da mãe de ambas. Karin (Jamel Debbouze), que é o filho de Mimouna e seu amigo Michel Ronsard (Bacri) decidem fazer um documentário com Agathe para uma série que estão produzindo sobre mulheres bem sucedidas e vitoriosas na carreira e na vida pessoal. Embora não seja propriamente uma seguidora fiel da escola de diretores franceses, como Resnais, Rohmer e Assayas, Jaoui tem, no entanto, o mesmo estilo, ou seja, através da narração de pequenos incidentes, vai compondo um painel que trata de questões sérias e complicadas da vida real das pessoas. Jaoui disse que a inspiração para a história teve diversas vertentes. "Desde o início, Bacri e eu trabalhamos com várias idéias até ver como elas se encaixavam nos personagens. Queríamos falar de feminismo, racismo, adultério, problemas de relacionamento entre homens e mulheres e similares. Fomos construindo tudo aos poucos e colocamos maior ênfase nas relações de poder entre as pessoas, que é um tema que me interessa muito". A diretora contou que o título do filme é inspirado na letra de Georges Brassens, que diz - fale-me da chuva e não do tempo bom. "No fundo a idéia é mais ou menos a seguinte: o mês em que se passa o filme é agosto, o tempo é ruim, chove muito, mas é normal. No entanto, na história dos personagens, embora pareça, nada é normal".

Um novo olhar sobre a máfia napolitana

"Gomorra", de Matteo Garrone, representante da Itália na delegação européia, já tinha tido uma ótima recepção em Cannes, onde concorreu à Palma e de lá saiu com o Grande Prêmio do Júri. Nada mais merecido. O diretor italiano consegue dar um inusitado fôlego às histórias sobre máfias, um assunto que muitos já julgavam para lá de saturado. Gomorra - ou Camorra, como é igualmente conhecida - é a máfia napolitana e também considerada uma das organizações do estilo mais sangrentas e violentas que existe. O filme, baseado em fatos reais, é inspirado no best-seller de Roberto Saviano, que teve uma grande repercussão na Itália. O tom cru do livro de Saviano - perfeitamente reproduzido no filme de Garrone - vai fundo na hipocrisia de uma sociedade que joga suas mazelas para baixo do tapete, preferindo camuflá-las através da ostentação de produtos que exibem luxo e glamour. O roteiro é desenvolvido através de cinco histórias de pessoas que precisam conviver com a dura realidade de um sistema desumano e perverso. Garrone não poupa os espectadores de fortes seqüências mostrando garotos, mal saídos da puberdade, nas mãos de chefes mafiosos cruéis que não têm a menor hesitação em maltratá-los e/ou tirar-lhes a vida. E assim, vai desfilando na tela uma grande quantidade de personagens (adultos, jovens, crianças, homens, mulheres) no meio de uma guerra brutal de facções rivais e de negócios sujos (tráficos de drogas, viciados), que provocam centenas de mortes e, ao mesmo tempo, geram uma fortuna em euros para os bolsos de sanguinários mafiosos. O próprio Saviano, que em seu livro denuncia os crimes, vive há anos dentro do sistema de proteção policial, criado para aqueles que estão ameaçados pela máfia. Gomorra saiu do festival com muitos elogios da crítica e do público e com o reconhecimento para o talento de Garrone, um diretor ainda jovem, mas com uma promissora carreira pela frente.

História de gerações na Ilha da Madeira

"A Corte do Norte", do português João Botelho, foi um dos filmes que mais sensibilizou a platéia desta 46ª edição do festival. A projeção marcou a volta do diretor ao evento, onde esteve em 1988 com "Tempos Difíceis", uma primorosa adaptação de Hard Times for These Times, do escritor inglês Charles Dickens. O novo trabalho de Botelho é também uma transposição literária, desta vez de Agustina Bessa-Luis, escritora que tem muitos de seus livros levados à tela, alguns deles pelo veterano diretor Manoel de Oliveira. A história de "A Corte do Norte" segue uma geração de mulheres, a partir da figura central Emília de Souza, que é inspirada em Emília das Neves, a primeira vedete a ser conhecida em Portugal. As mulheres são todas interpretadas pela atriz Ana Moreira, o que faz ainda mais perfeita a conexão de Emília com as gerações seguintes. O livro, bem como o filme, atravessa séculos, classes e estilos de vida de diversas habitantes da Ilha da Madeira, numa rica estrutura melodramática, trazendo à tona paixões frustradas e a energia transmitida de geração a geração para todas aquelas mulheres. Na entrevista conosco, Botelho falou sobre a inspiração de adaptar o romance de Agustina para as telas. "As motivações para ter feito A Corte do Norte são várias. Inicialmente, eu gosto muito de cinema e literatura, já adaptei Charles Dickens, Diderot e outros. Mas eu também queria fazer uma homenagem ao meu amigo José Álvaro Morais (1943-2004), que havia idealizado o filme, mas infelizmente não chegou a concretizar o projeto, que era muito caro. Eu tomei como ponto de partida o trabalho que ele começou, completando o argumento e aceitando o desafio de filmá-lo. Por último, acho o livro de Agustina a grande epopéia da Madeira, que é um lugar fascinante", disse acrescentando que, na medida do possível, procurou ser fiel à obra literária. "Eu costumo respeitar o livro que estou adaptando, principalmente na essência que os autores quiseram imprimir à história original. Mas é preciso levar em conta que a linguagem de um livro é diferente de uma narrativa cinematográfica, o que faz com que seja necessário fazer algumas mudanças", disse ressalvando que o cerne principal da obra - a força poderosa dos personagens - foi integralmente mantido. "O filme é uma história de várias gerações de mulheres da ilha e as mulheres dessa grande autora são sempre fortes e cheias de energia. A Emília de Souza, que inspirou a história, foi uma mulher extraordinária, que deixou muitas seguidoras", afirmou o diretor, antecipando seu próximo projeto. "Será O Livro de Desassossego, de Fernando Pessoa, composto por Bernardo Soares, semi-heterônimo do escritor". 

Um sombrio conto de amor

"Quatro Noites com Anna" ("Four Nights with Anna"), de Jerry Skolimovski, marcou o regresso, após 17 anos sem filmar, do diretor polonês, autor de obras importantes como "O Grito" e "Trabalho em Negro". O filme é uma pequena história sobre um anti-herói, uma espécie de   tragicomédia e ao mesmo tempo uma sofrida história de amor. A trama segue as desventuras do triste e solitário Léon, um homem de meia idade encarregado de um crematório que se enamora e fica obcecado por Anna, uma enfermeira gordinha e alcoólatra. Numa postura de voyeur, ele a espia durante as quatro noites do título e até se anima a ingressar em sua casa quando sua mulher-fetiche dorme. Enquanto isso, o diretor vai narrando em outras linhas temporais os problemas profissionais e judiciais do seu atribulado personagem. Embora não seja o melhor trabalho de Skolimovski o filme foi bem recebido, quanto mais não seja como um reconhecimento à carreira do talentoso diretor. 

O cinema social de Leigh

"Happy-Go-Lucky", do inglês Mike Leigh, foi outro representante da delegação européia mostrado nesta edição do NYFF. O filme - que foi candidato ao Urso no Festival de Berlim - segue as aventuras de Poppy (Sally Hawkins), uma professora de uma escola primária no norte de Londres, aberta e generosa e muito engraçada. Como é comum em sua obra, o diretor busca o maior realismo possível ao retratar o universo popular e o cotidiano de pessoas simples, num viés ficcional bem próximo do documental. "Meus filmes, embora ficcionais, aspiram à condição do documentário", confirmou o diretor na coletiva após a projeção, acrescentando que, seja filmado por alguém ou não, o fato real permanecerá onde está, esperando a hora de ser narrado. O ótimo desempenho de Hawkins, que ganhou o Urso de Prata de melhor atriz em Berlim, é um dos pontos altos do filme. Embora tenha o seu lado dark, "Happy-Go-Lucky" é, sem dúvida, o mais alegre e engraçado dos filmes de Leigh até agora, sem deixar de manter sua assinatura de narrador do cotidiano das pessoas.

Imagens que chocam

Mas um dos filmes mais esperados  da representação européia era  o chocante "Hunger", do inglês Steve McQueen (nenhum parentesco com o lendário ator homônimo americano). "Hunger" - que deu a McQueen o Câmera dOr para diretor estreante em Cannes -  descreve as penosas condições carcerárias e a brutal repressão que os ativistas do IRA sofreram em 1981, na sua luta para serem reconhecidos como presos políticos nos cárceres da era da direitista Thatcher. O filme acompanha a greve de fome que Bobby Sands e vários de seus camaradas iniciaram, por tempo indeterminado, e que terminou mais de dois meses mais tarde com a morte do carismático líder e de mais de uma dezena de outros prisioneiros. As imagens reveladoras da tortura dos prisioneiros são impressionantes e certamente vão permanecer por longo tempo na mente das pessoas como um testemunho de até onde pode ir a irracionalidade no mundo contemporâneo. Ao final da projeção, McQueen explicou que a idéia de fazer um filme sobre esse momento da história estava na sua cabeça desde que ele tinha 11 anos. "Eu era praticamente um garoto e todas as noites via a imagem de Sands na tevê. E eu ficava extremamente impressionado com o nível de paixão e confrontação dele e o que pode levar uma pessoa a uma greve de fome até a morte. Quando cresci procurei saber mais sobre ele e imaginei que poderia fazer um filme sobre o assunto. Além de tudo era importante que muito mais pessoas ficassem sabendo os terríveis acontecimentos que aconteceram naquele período do Reino Unido", afirmou. O ator Michael Fassbender é um ponto alto com um desempenho impressionante como Sands, particularmente nos momentos que antecedem sua morte devido à greve de fome. Apesar do desconforto que causa, o filme não deixa de ser impactante e independentemente da sua linguagem sem concessões, "Hunger" é um filme importante e difícil de esquecer.

4. CINEMA AMERICANO

Entre os filmes do país anfitrião o grande destaque foi Clint Eastwood, que está caminhando rapidamente para se tornar um mito vivo. Também despertou atenção especial o novo filme de Soderbergh e, para nós brasileiros, o filme de Antonio Campos, filho do jornalista Lucas Mendes.

Os bastidores de uma história real

Como era esperado - e até considerado pelo festival quando colocou seu filme como "peça de resistência" - o cultuado diretor Clint Eastwood roubou a cena. Como já tinha ocorrido recentemente em Berlim e Cannes, o veterano ator tem monopolizado crítica e público onde aparece. Seu novo filme, "A Troca", marcou também seu retorno ao festival onde esteve em 1988 com "Bird" e em 2003, quando abriu o evento com "Sobre Meninos e Lobos" ("Mystic River"). "A Troca" é uma trama complexa sobre um episódio real ocorrido nos Estados Unidos na década de 20. O filme reconstitui a história da telefonista Christine Collins (Angelina Jolie) para provar que a polícia foi negligente na busca de Walter, seu filho desaparecido. Pressionado pela opinião pública, o esquema policial quis obrigar Christine a aceitar um menino parecido com o pequeno Walter como se fosse o seu filho verdadeiro. Ao se recusar a participar da farsa, foi maltratada e internada em um hospital para desequilibrados mentais. O filme é fruto da pesquisa feita pelo roteirista J. Michael Straczynski que, ao saber que a polícia de Los Angeles iria descartar arquivos sobre o misterioso desaparecimento da criança, resolveu aprofundar o caso. Eastwood falou sobre a origem do filme e como ficou envolvido com o drama da história real de Christine. "Descobri a história de Christine Collins, e sua luta para saber a verdade do que houve com seu filho, por sugestão do produtor Brian Grazer que me apresentou o roteiro quando eu estava prestes a fazer uma viagem a Berlim para apresentar "As Cartas de Iwo Jima" no festival. Quando voltei alguns dias depois com o script já lido, tive certeza que queria filmá-lo. Ele tinha a fonte dramática das grandes histórias". Para ele o que mais o motivou foi a busca da verdade por trás dos fatos. "Em qualquer dramaturgia não existe tema mais importante do que a verdade. Ainda mais para alguém que trabalha também como ator, uma profissão cuja meta está em oferecer a verossimilhança numa interpretação. Acho que falar a verdade ainda é a maior virtude no planeta". Eastwood acha que o filme pode ajudar em casos semelhantes, embora isso não tenha sido o fator mais importante para ele. "O fundamental foi desafiar a autoridade com essa história. Boas histórias são feitas de confrontos. Embora, dos anos 20 para cá, muita coisa tenha mudado na polícia de Los Angeles, alguns vícios daquela época permanecem", atesta.  

A versão de Soderbergh para Che Guevara 

Steven Soderbergh apresentou "Che", seu novo filme, numa concorridíssima sessão para a imprensa do festival. A película - que concorreu à Palma - tem 4h28 de duração e é dividida em duas partes. A primeira tem 2h10 minutos, se debruça sobre a participação de Che na Revolução Cubana (1959), intercalando as imagens de batalha com seqüências ligadas ao discurso de Guevara na Organização das Nações Unidas (ONU). A segunda parte se concentra no período de 341 dias que ele passou na selva boliviana, até sua prisão e assassinato, em outubro de 1967. Rodado na Espanha, Bolívia, México, Porto Rico e EUA (Nova York), o filme custou US 60 milhões e é falado em espanhol. Benício del Toro, norte-americano de origem porto-riquenha que vive o Che, ganhou o prêmio de melhor ator no último Festival de Cannes. O brasileiro Rodrigo Santoro interpreta Raúl Castro, irmão de Fidel (vivido pelo mexicano Demián Bichir). O filme é narrado quase como um documentário reconstituído, contendo apenas cenas que se referem ao personagem político. Na coletiva, Soderbergh contou porque resolver fazer a sua versão sobre a vida de Che. "Eu gosto de filmar aquilo que me interessa ver como espectador. E eu tinha a sensação de que poderia fazer um filme honesto sobre um idealista mesmo sem cultivar o mesmo ideal que ele. O meu maior interesse era discutir a passagem de Guevara pela Bolívia". A seguir explicou porque tomou a decisão de narrar uma grande parte da história, que é passada em Cuba. "Há muitos aspectos da vida de Che que as pessoas não conhecem. Se contássemos o que ocorreu na Bolívia sem mostrar o que houve antes, não haveria o contexto para entender a história. Mas, de qualquer forma, a passagem pela Revolução Cubana é apenas uma parte do projeto e não o seu cerne", ressalvou. A platéia insistiu, mas Soderbergh resistiu às ponderações de que teria feito Che para celebrar a ideologia que ele expressava. "Para retratar a vida de uma pessoa com honestidade, qualquer filme que não seja uma fantasia, é um filme político. Mas não foi isso que me levou a levar essa história para as telas, obviamente eu não sou um comunista", ressaltou, complementando que ficou muito satisfeito com o resultado final, sem disfarçar sua admiração pelo retratado. "Não é preciso compartilhar das idéias do Che para reconhecê-lo como um dos grandes personagens do século 20 e o seu idealismo, a sua luta pela melhoria da humanidade", concluiu.

A adolescência como tema

"Afterschool", longa de estréia de Antonio Campos, 24 anos, foi mostrado com alguns brasileiros na platéia.  Embora seja uma produção americana, Campos é filho do jornalista Lucas Mendes e da italiana Rose Ganguzza, também produtora do longa. O filme aborda o universo inquietante de uma escola preparatória americana e, com o conhecimento de causa que lhe dá a sua ainda pouca idade, faz uma reflexão sobre essa fase da vida, os chamados ritos de passagem da adolescência, nem sempre transpostos de forma tranqüila e sem traumas. Campos - autor do premiado "Buy it Now", sobre uma jovem que vende sua virgindade leiloada no eBay - disse que começou fazendo curtas-metragens quando tinha 13 anos e, na ocasião até aumentou a  idade para poder entrar na New York Film Academy. "Isso aconteceu quando vi Laranja Mecânica. Ao descobrir Kubrick, tive a percepção do que precisaria saber para ser um diretor: como colocar a câmera, como usá-la, qual a melhor forma de contar a história, inserir a música. No ano seguinte me matriculei na escola", disse listando seus filmes preferidos: "Últimos Dias, que tem momentos excepcionais, Elefante (ambos de Gus Van Sant). Corações e Mentes, uma prova de que é possível ser objetivo na realização de um documentário. Woodstock é um filme importante. Ônibus 174, de José Padilha, é um dos melhores documentários já feitos e infelizmente um dos menos vistos". Ao final, o jovem diretor disse que quer muito fazer um filme no Brasil contando a história de sua família mineira. "Não sei quando será, mas é um dos meus projetos mais desejados. Vou fazer, com certeza".

5. LATINOS

Em mais um ano em que o cinema brasileiro esteve ausente do festival, a delegação latina foi representada pela Argentina, México e Chile, conforme a seguir:

O cinema provocador de Lucrecia Martel

A diretora argentina já tem um lugar cativo no NYFF. "A Mulher sem Cabeça" ("La Mujer sin Cabeza"), marcou sua terceira volta ao festival, onde já tinha estado com O Pântano e A Menina Santa. Embora não seja seu melhor trabalho, uma sessão com a presença dela é sempre concorrida no evento e, desta vez, não foi diferente. A história de "A Mulher sem Cabeça" gira em torno de Verônica (Maria Onetti), personagem chave da trama, que após cometer um atropelamento, segue sem socorrer a vítima. A partir daí, ela perde a cabeça, no sentido figurado e não se reconhece mais. Passa os dias como se estivesse anestesiada, quase não fala e, como se estivesse se distanciando de si mesma e do mundo ao seu redor, segue cumprindo mecanicamente sua rotina. Martel disse que sua principal intenção era falar da convivência entre pessoas de classes distintas. "Acho que esse é o marco social de qualquer história que se pretenda contar nos dias de hoje. A análise de qualquer cidade no mundo atual, mostra que há uma superposição em que certas pessoas circulam por determinados lugares, e as outras, por outros". A diretora não gosta quando seus filmes são comparados com obras que pretendem suscitar reflexões sobre a moral. "Na verdade, não sou moralista nem estou preocupada com a moral. O que me interessa é investigar o lugar que determinados fenômenos ocupam na construção da realidade", diz, complementando que, no máximo, o filme pode estabelecer uma metáfora com o desrespeito aos direitos humanos e a exclusão social na América Latina. "Tenho interesse em abordar esses processos de indiferença para com os outros ou, melhor dizendo, esse esquecimento voluntário. A insensibilidade é um processo longo e custoso e deixar de ver as coisas é, no fundo, uma verdadeira inversão". Quanto a alguma ligação autobiográfica, Martel lembra que ninguém consegue se abstrair totalmente da história de sua vida. "Em "O Pântano" devo ter exorcizado muitas lembranças de família; em A Menina Santa, muitas recordações do meu tempo de escola; em "A Mulher sem Cabeça", estou certamente me referindo à sociedade onde vivo, mas o elo autobiográfico pára por aí".

Desesperança e rebeldia

Gerardo Naranjo apresentou o seu "Voy a Explotar", único representante do México no Festival. O filme é centrado na vida de dois adolescentes de classe média.  Ele é Román (Juan Pablo de Santiago), filho de um político conservador corrupto da cidade histórica de Guanajuato e ela é Maru (Maria Deschamps), filha de um imigrante ilegal e mãe crente. Juntos, eles decidem fugir unicamente com o objetivo de descobrir alguma coisa que valha a pena para lutar por ela, conforme é dito numa cena pela própria protagonista. "Voy a Explotar" - produzido pela Canana, empresa dos atores Gael Garcia Bernal e Diego Luna - foi bem recebido e, após a projeção, Naranjo conversou conosco, quando disse que a idéia de fazer o filme nasceu há sete anos. "Meu filme quer responder a uma complicada pergunta: há alguma razão por que lutar? Essa é uma das grandes questões que eu proponho. Esses jovens não têm por que lutar, não há idealismo,  eles mesmos têm que criar um significado  para as coisas e não é fácil porque está tudo descomposto nos valores do conservadorismo, que aceita a corrupção sem limites e valores que não têm sentido. Para mim era importante também falar dos símbolos, dos conceitos e do que é de fato ser rebelde hoje. No México temos um grupo que se intitula precisamente "Rebelde" e é um grupo de débeis mentais sem qualquer ideal.  É esse o conceito  que se tem lá do que significa rebeldia", disse o diretor reconhecendo que o filme tem uma ligação com sua vivência pessoal. "Embora os protagonistas sejam bem mais jovens que eu, o filme tem um alto conteúdo autobiográfico. Eu quis rememorar coisas que eu vivi. Na minha adolescência, o pior que podia acontecer era não acontecer nada, como sucede a Maru e Román. Nos anos 70 e 80, não eram rodados filmes de adolescentes no México, é como se essa fase de nossas vidas não existisse. Eu cresci vendo filmes franceses e americanos e isto faz as pessoas perderem o sentido de identidade". Ao final, Naranjo falou da estética seguida em seu filme e não se furtou a falar dos diretores que influenciaram o seu trabalho. "Embora tenha admiração por vários cineastas, se tivesse que destacar alguns, citaria  Jean-Luc Godard e Leos Carax. No cinema latino, gosto muito do cinema de Carlos Reygadas. Em "Voy a Explotar", eu não queria trabalhar dentro de uma única corrente e procurei dar dimensões diversas à narrativa. Mas o que mais espero é ter  conseguido render homenagem a esses diretores, que me  ensinaram tanto e, que sem dúvida, influenciam meu trabalho hoje".

A colonização cultural

"Tony Manero", de Pablo Larrain, foi o outro representante latino, desta vez do Chile. O filme - que tem uma parceria com a produtora brasileira Prodigital - conta a história de Raul Peralta, um bailarino que em 78, durante a época da ditadura no Chile, se apresenta como um ícone da cultura pop norte-americana, através da imitação de Tony Manero, o personagem de John Travolta de "Embalos de Sábado à Noite". Sem grandes discursos, o roteiro ilustra como isso impactou a vida de pessoas comuns, exemplificando como elas eram presas ou baleadas apenas por desobedecer a hora de recolher ou por possuírem pôsteres anti-Pinochet. Em poucas palavras, Larrain expõe a principal mensagem do filme: "É uma metáfora da violência, da ditadura e dos políticos da oposição, através da história de um homem em plena era Pinochet no final dos anos 70. A história combina elementos de uma forma simples, que tem a ver com o que aconteceu no nosso país e como importou modelos estrangeiros para sua cultura", define. Para ele, o governo Pinochet teve um papel direto nas questões relacionadas com a colonização cultural no Chile. "Ele é o responsável pelo que aconteceu com nossa cultura nesses anos, não só com a sua não propagação ou eliminação, mas também pela perseguição de autores e artistas. O país esteve quase vinte anos sem possibilidade de se expressar do ponto de vista artístico e agora precisa reativar sua cultura e uma forma de pensar o cinema. O acionamento dessa engrenagem não é automático, é um processo lento", lamenta.

6. OUTROS DESTAQUES

O cinema que vem do oriente tem sempre um significativo espaço no NYFF.  Neste ano os filmes que mais despertaram atenção vieram da China e do Japão. Também foi bem recebido nesta edição o documentário em desenho animado do israelense Ari Folman.

Um olhar documental da China contemporânea

O cineasta Jia Zhang-Ke mostrou o seu "24 City" para um público que já conhece e admira o seu trabalho, sempre presente em edições anteriores do festival. O filme conta a história de empregados da Fábrica 420, uma empresa de peças aeronáuticas do período desenvolvimentista estatal dos anos 50 e 60, até sua desativação e implosão para dar lugar a um condomínio de ricaços emergentes em Chengdu, capital da província de Sichuan, no Centro do País. Sichuan é a mesma região onde ocorreu, em maio último, o terremoto que matou quase 70 mil pessoas. Uma das primeiras perguntas feitas a Zhang-Ke foi por que não realizou "24 City" como um documentário. "Meus filmes têm um componente de ficção, mas com um viés na realidade e no contexto político. Ainda assim, meu objetivo é contar uma história. Eu procuro controlar todo o processo criativo do meu trabalho: escolho as histórias, escrevo os roteiros, seleciono os atores. Isso me faz afirmar que meus filmes refletem minha opinião e meu pensamento. Se as pessoas identificam o país através dessas histórias que eu narro, tanto melhor", afirmou. Para ele o sucesso dos seus filmes fora da China se deve ao fato de narrar trajetórias de pessoas. "Minha fonte de inspiração são as histórias pessoais e as minhas memórias, como a infância durante a Revolução Cultural e a juventude na abertura econômica. Acho que o sucesso dos filmes decorre da natureza da China hoje e a maneira como o país acaba sendo mostrado em meu trabalho. Mas não acho que isso seja uma unanimidade. Imagino que os jovens chineses mais influenciados por Hollywood devam achar meus filmes chatos ou demasiadamente autorais", disse, acrescentando que a censura em alguns dos seus filmes também deve contribuir para o seu trabalho ser mais conhecido pelo público estrangeiro do que na China. "A censura é uma maneira terrível de negar o passado. E um povo não aprende nada quando decide simplesmente apagar o passado ou ignorar seus erros. Por outro lado, sinto que tem havido mais abertura entre os censores para temas polêmicos. E os cineastas precisam também ter habilidade para trabalhar as histórias, há muitas formas de dizer ou denunciar coisas e fatos sem falar abertamente", ensinou o diretor que está trabalhando no seu novo projeto "Age of Tattoo", baseado num conto do escritor Su Tong, uma história de gângsteres que se passa em 1975. 

As artes marciais segundo Kar-Wai

Wong Kar-Wai, o cineasta dos amores impossíveis, mostrou seu novo trabalho, "Cinzas do Passado". O filme é a versão revista de "Ashes of Time", de 94, com o mesmo tema, algumas novas tomadas ligeiras, introdução de cenas com imagem digital e algumas mudanças na música, mas no todo permanece igual ao primeiro, que se transformou num clássico cultuado e num filme difícil de classificar. Inspirado no livro de Louis Cha - The Eagle-Shooting Heroes - é centrado em um homem chamado Ouyong Feng (Leslie Cheung). Desde que a mulher que ele amava o rejeitou, Feng foi viver num deserto do oeste, contratando "homens da espada" para cumprir contratos no estilo matadores de aluguel.  Seu coração ferido o tornou um homem sem piedade e, mesmo nos seus encontros com amigos ou futuros inimigos, ele não se afasta do voluntário desejo de solidão. Nas duas versões, Kar-Wai faz uso do chamado gênero wu-xia, traduzido como uma ficção marcial e, ao mesmo tempo, ligada aos cavaleiros andantes ou - numa explicação mais simples - alguma coisa relacionada com espadas chinesas e bruxaria. "Cinzas do Passado" é uma versão bastante inovadora e moderna para os clássicos contos chineses com o tema, mas é claro que no universo de Kar-Wai, a arte marcial não poderia mesmo ser o foco principal. Após a avalanche de impactos emocionais e muitas miríades de retornos no roteiro, o monólogo de encerramento de Maggie Cheung é um ponto alto do filme, com as imagens de grande beleza plástica que rolam na tela.

O desemprego como pano de fundo

O diretor Kiyoski Kurosawa surpreendeu com "Tokyo Sonata", uma comédia dramática, bem diferente dos seus trabalhos anteriores voltados para o gênero de terror. Desta vez Kurosawa faz sua incursão no tema do desemprego procurando amenizar, com seqüências engraçadas, o tom mais grave da trama. "Tokyo Sonata" narra a tragicômica história de uma família de classe média, composta pelo pai, Ryuhei Sasaki (Teruyuki Kagawa) a mãe Megumi (Kyoko Koizumi) e seus dois filhos homens. Quando Ryuhei é demitido do cargo de gerente de salários de uma companhia, que está transferindo parte de seus departamentos para a China, ele não tem coragem de revelar a situação para sua família. Enquanto sua esposa leva sua rotina de dona de casa, na tentativa de manter uma fachada de vida familiar seriamente abalada pelo drama do marido, Takashi (Yu Koyanagi), o filho mais velho, e Kenji (Kai Inowaki) o caçula, se mantém como que alienados do que está acontecendo ao redor. Quando todos os segredos e mentiras familiares começam a transbordar, um evento fortuito faz com que outros fatos venham à tona. O humor por vezes de chanchada, que caracteriza algumas cenas, é um dos artifícios utilizados pelo diretor para tornar seu filme uma comédia, ainda que dramática. O roteiro foi escrito a quatro mãos, por Kurosawa e Sachico Tanaka - numa adaptação do livro do australiano Aussie Max Mannix - e o filme traz uma aparição afetiva de Koji Yakusho, ator favorito do diretor. O novo filme de Kurosawa poderia ser um pouco mais curto.  Vinte ou trinta minutos a menos certamente não prejudicariam a mensagem e tornaria o filme menos cansativo do que em suas 2h30.

Mensagens do inconsciente

"Waltz with Bashir", de Ari Folman, muito bem recebido pela crítica e público, aborda o massacre cometido por paramilitares cristãos libaneses aliados do exército israelense nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila em 1982, que causou a morte de mais de 3.000 civis, homens, mulheres e crianças. Nem animais foram poupados. O filme adota um enfoque autobiográfico, inspirado na vivência do próprio Folman, quando integrou o exército israelense durante a ocupação do Líbano. Através das imagens, marcadas por expressionismo sombrio e minimalista, o diretor procura exorcizar o seu sentimento de culpa e tenta apagar ou minimizar as atrozes e traumáticas experiências vividas durante o conflito. Realizado com técnicas de animação e bastante estilizado, a narrativa mistura memórias subjetivas e depoimentos de nove pessoas, recriadas em desenho animado. Folman disse que o ponto de partida foi sua vontade de relembrar e resgatar um episódio que havia desaparecido de sua memória, mas que ele sabia ter vivido no exército israelense nos anos 80. "Quando decidi fazer o filme, percebi que grande parte da minha experiência naquele conflito não estava mais na minha memória, certamente reprimida pelo subconsciente. Resolvi então contar com a ajuda de ex-colegas do pelotão para recriar o episódio, obscurecido pelo tempo e pelo impacto da tragédia. Quando fui ouvir testemunhos de ex-companheiros, descobri que o mesmo acontecia com eles. Depois de vencermos a amnésia que nublava nossas recordações e revivermos as lembranças reprimidas, juntamos tudo o que conseguimos recuperar com as entrevistas e os depoimentos e, aos poucos, as coisas começaram a fazer sentido", explicou o diretor.

Voltas por cima

"O Lutador" ("The Wrestler"), de Darren Aronofsky, chegou ao festival cercado de expectativas. Vindo de Veneza, onde ganhou o Leão de Ouro, em Nova York também recebeu calorosos aplausos da platéia, que lotou o Walter Reade Theater do Lincoln Center para conferir o novo trabalho de Aronofsky e a atuação de Mickey Rourke, no papel principal. O filme segue Randy Robinson, astro de luta livre em fim de carreira, que tem um ataque cardíaco após mais uma dura e cruel batalha no ringue. Impossibilitado de continuar lutando, arruma emprego em um supermercado e tenta se aproximar da filha (Evan Rachel Wood), com quem tem um relacionamento difícil, e de uma prostituta, com quem mantém um romance frustrado, num bom desempenho de Marisa Tomei. "O Lutador" traz de volta Rourke - envelhecido no papel de Randy - que retorna ao sucesso no cinema, após alguns papéis sem muita expressão. Demonstrando satisfação com o retorno, o ator não se furta a fazer uma comparação entre a ficção e sua própria vida. "Posso fazer um paralelo entre esse filme e minha carreira, que joguei fora há 15 anos. E só posso culpar a mim mesmo por isso", reconhece Rourke, que também foi um lutador. Nos anos 90, ele resolveu ser boxeador (como já havia sido na juventude) em detrimento e prejuízo do seu trabalho no cinema. Aronofsky, por sua vez - depois do fracasso de seu penúltimo trabalho, "Fonte da Vida", que foi vaiado em alguns festivais e derrubado nas bilheterias - com seu novo filme volta ao mundo dos aplausos, leva o prêmio máximo de Veneza, além de ter sido escolhido para encerrar o prestigiado e exigente festival americano.  

7. PARALELAS
Irreverência e contestação

O principal destaque da mostra fora da programação oficial foi o tributo ao diretor francês Guy Debord. O revolucionário e controvertido cineasta (1931-1994) foi o nome mais influente da Internacional Situacionista, grupo que exerceu um papel chave na mobilização da revolta de maio de 1968 na França. Em 1967, publicou A Sociedade do Espetáculo, um livro definitivo no qual definia que "o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, midiatizada por imagens". Anos depois, em 1988 escreveu "Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo", no qual aprofundando sua análise, expressou sua visão sobre o mundo contemporâneo e definiu as chaves-mestras de sua compreensão. A homenagem em Nova York teve o subtítulo do seu último filme - "In Girum Imus Nocte et Consumimur Igni" - um palíndromo enigmático em latim traduzido como "à noite a gente caminha em círculos e somos consumidos pelo fogo". No anúncio do festival, o filme foi apresentado como "uma obra marcante que capitaliza as estéticas do situacionismo, incluindo o uso de imagens apropriadas para criticar justamente a cultura exacerbada da imagem". Assim, entre outras, são apresentadas seqüências de "Les Enfants du Paradis", "A Carga da Brigada Ligeira", "Robin Hood", "O Terceiro Homem", "Os Visitantes da Noite", Zorro e "General Custer", entre diversas outras fontes. Em sua tumultuada carreira, Debord roteirizou e dirigiu vários filmes.  Além de "In Girum Imus Nocte et Consumimur Igni" realizou "No caminho de algumas pessoas por um curto período de tempo (1959)", "Crítica da separação (1961)", "A Sociedade do espetáculo (1973)", e "Refutação de todos os julgamentos, pró ou contra, sobre o filme A Sociedade do espetáculo" (1975). Embora muito críticos e estudiosos reconheçam a importância da obra de Debord, seus filmes ainda permanecem desconhecidos do grande público. Após o seu suicídio em 1995, alguns deles foram exibidos num canal a cabo francês e muitas cópias pirateadas circularam entre seus fãs.  Mas os originais continuaram inacessíveis. Somente em 2001, sua viúva Alice resolveu trazê-los a público, o que resultou numa mostra no Festival de Veneza daquele ano e agora, em boa hora, nessa retrospectiva realizada no NYFF.

Uma merecida homenagem

O outro destaque das paralelas foi a retrospectiva do diretor japonês Nagisa Oshima, com exibição de seus principais filmes. Iconoclasta e crítico dos valores tradicionais japoneses embora de origem aristocrática, Oshima é um dos diretores mais importantes do moderno cinema nipônico. A mostra foi bastante ampla e abrangeu desde sua ligação com o Studio Shochiku na década de 50 até seu último filme. Assim, além de clássicos do diretor como O Garoto - bem à maneira do pensamento de Oshima, que mostra o mundo de fantasia de uma criança moralmente corrompida e usada pelos próprios pais, uma metáfora sobre a juventude nipônica do pós-guerra e o Estado japonês - foram mostrados também: "A Cerimônia" (The Ceremony), "Noite e Nevoeiro no Japão" (Night and Fog in Japan), "Delírio" (Pleasures of the Flesh), "Ele Morreu Depois da Guerra" (The Man Who Left His Will on Film) e Violência ao Meio Dia (Violence at Noon), entre outros. 



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