Muitos Homens Num Só

por

24 de junho de 2015

O filme “Muitos Homens Num Só” é primeiramente digno de méritos pelo ato de coragem que representa. A cineasta Mini Kerti, logo em sua estreia na direção de um longa de ficção, escolhe como primeiro passo uma trama de época. Opção arrojada em um mercado arrefecedor de motivações, sem contar a epopeia pela captação de recursos. “Muitos Homens Num Só” explora bem a sensação despertada diante de um filme que viaja no tempo ― um saudosismo advindo de uma época não vivida. Neste caso, a viagem é extensa, regressando ao início do século XX. Gerido no Rio de Janeiro, o filme conquista um público que consegue estabelecer uma identificação com o ambiente. Ponto para o apuro depositado nos elementos estruturais da película. A câmera da iniciante, posicionada em lugar estratégico, invade artérias do Rio de hoje para retirar dele o melhor de sua tradicionalidade. A experiência é mais do que satisfatória, um convite à contemplação que vai além da própria história contada ― lá se vão as marcas da passagem dos anos, bem como da febril movimentação da sociedade atual.

Esse zelo pela atmosfera, alinhado ao enredo inspirado na obra de João do Rio (pseudônimo do cronista carioca Paulo Barreto), encontra na sofisticação técnica da fotografia e da direção de arte elementos que garantem ainda maior qualidade ao filme como um todo. Vladimir Brichta, desempenhando um papel principal que exige consistência, é o gatuno Arthur, nome de batismo oculto sobre outras denominações que a “profissão” exige: um especialista na arte de roubar hóspedes de hotéis sem deixar vestígios, seja de provas ou de marcas de violência. Atuando desarmado, suas principais munições são a aparência de alta sociedade e o charme capaz de destrancar a fechadura de quartos ocupados por mulheres. No transcorrer dos minutos, transborda na ficção o fascínio pelo caráter irresistível da figura do anarquista “rato de hotel”. Tal reverência torna-se bem clara no jornalista Barreto, interpretação de Silvio Guindane para o personagem inspirado no próprio João do Rio. Parcial, Barreto é alguém incapaz de esconder a empolgação pela genialidade do trapaceiro, cada vez que ele, como uma sombra, abiscoita o bem alheio.

Do lado da lei, Caio Blat encarna Félix Pacheco, figura basilar do sistema de identificação datiloscópica no Brasil. A ele, cabe a missão de pôr atrás das grades o polêmico ladrão de hotéis. Na obsessão do personagem em sua procura pelo delinquente, o filme abre espaço para ainda exibir o pioneirismo de Pacheco em defesa da eficácia do processo de identificação pelas impressões digitais. Em breve hiato de suas atividades no exterior, Alice Braga tem em “Muitos Homens Num Só” um papel não restrito ao campo de um romance com o anti-herói. Eva, desenhista de talento aprisionado pelo machismo do marido Jorge (Pedro Brício), tem papel fundamental nas curvas dramáticas da trajetória de Arthur. Com narrativa convencional, mas sem amarras que cerceiam a ousadia, o filme dá até chance a uma sequência que bebe na fonte do onirismo, instigando o espectador a questionar, em determinado momento, a realidade pura dos fatos.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4