Na Próxima, Acerto no Coração

por

13 de agosto de 2015

Baseado em um caso real, o filme “Na Próxima, Acerto no Coração” impressiona pela muito bem aplicada austeridade dos elementos fílmicos. Longa de uma frieza constantemente reforçada, o espectador é transportado para o clima invernal, na França, no final da década de 1970. Nesse cenário, um homem extravasa sua psicopatia tirando a vida de mulheres inocentes, para logo após vestir a farda da gendarmaria (corpo militar responsável pela ordem pública), rígida e negra como a personalidade de seu dono. Guillaume Canet, também ativo como cineasta, interpreta o assassino em série Franck Neuhart. Uma atuação que convence pelo estilo econômico traduzido na imutável sisudez do personagem. Pelo desempenho no filme, Canet recebeu uma indicação no César Awards deste ano, premiação francesa equivalente ao Oscar norte-americano.

Por trás da câmera, Cédric Anger, profissional que já fez parte do time de colaboradores da Cahiers du Cinéma, demonstra completo domínio da narrativa; do primeiro ao último plano, os dois praticamente iguais. Não por acaso, é com o corpo e o rosto jovens de uma bela mulher, estáticos em um grande quadro na parede da casa de Franck, que o espectador tem o primeiro e o último contato. Uma imagem significativa, apoiada pela trilha sonora opressora, que remete à doença do personagem, cujo alívio temporário é providenciado pelo aniquilamento do feminino. As moças que Franck escolhe são assassinadas a tiros, permanecendo intocadas como a mulher do quadro, sempre ali para julgá-lo quando ele volta para casa.

No comando de “Na Próxima, Acerto no Coração”, Cédric Anger explora com habilidade as complexidades psicológicas de seu protagonista. Seja materializando suas alucinações ou cedendo espaço para repetidos rituais de punição após um crime. Franck Neuhart é desumano, mas dono de uma humanidade perturbada pelas aflições que o acometem. Ele cai no choro e se machuca até sangrar. Nesse percurso desconcertante de dupla personalidade, assassino e homem da lei que zela pela proteção dos cidadãos, inclusive envolvido nas investigações em busca do serial killer, Franck relaciona-se com a ingênua Sophie (Ana Girardot). Sem aparentemente correr perigo de morte, para ela sobra o asco de seu amante misógino, uma aversão bem explorada em uma cena pós-sexo, quando ele se depara com um pente cheio dos cabelos dela. Sem oportunidade para violências gráficas no ato de matar, o cineasta prefere uma ótica mais natural e discreta, a tensão do suspense fica muito mais por conta do horror mascarado ― o monstro que se oculta sob a aparente normalidade do homem comum. Uma ameaça que, misturada aos demais, é capaz de preparar o bote sem recorrer a disfarces.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4