No Coração do Mar

Drama intimista com narrativa epopéica sobre origem de Moby Dick

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04 de dezembro de 2015

Ron Howard é um daqueles cineastas conhecidos pela solidez na dramaturgia clássica americana, misturando dramas intimistas com epopéis históricas. Dois de seus maiores sucessos premiados foram “Uma Mente Brilhante” e “Apollo 13”. Agora ele adapta o livro “In The Heart of The Sea” de Nathaniel Philbrick, no original, que conta como foi escrito outro livro, um dos maiores clássicos da literatura: “Moby Dick”. Nesta interdisciplinariedade metalinguística, o próprio autor da famosa baleia, Herman Melville, se torna personagem ao investigar um famoso naufrágio real do navio baleeiro Essex. Um dos únicos sobreviventes, na pele do sempre ótimo Brandon Gleeson, relata hesitoso numa madrugada chuvosa as barbaridades que os tripulantes passaram para sair com vida, o que vai transformando o que parecia enveredar para um gênero catástrofe de ‘monstro’ em um filme mais existencial.

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Esta transformação de ação em intimismo pode esmorecer parte do público que desejasse comparar Moby Dick com Godzilla, mas creia que é para o melhor rendimento da história. O próprio livro clássico ficava muito mais na obsessão do Capitão Ismail Ahab do que na voracidade destruidora da natureza acuada. O verdadeiro monstro da história original estaria na alma humana, insaciável, cujo pathos do desejo, se alcançado, perde sentido e motivação, como outro notável personagem literário, Don Quixote, sempre atrás de novos moinhos de vento que imaginava serem dragões contra os quais lutar. A produção artística e fotografia também sentem a mudança narrativa de embates gloriosos com grandes navios para um intimismo desesperado por sobrevivência. Desde a construção de cenários suntuosos dos navios à computação gráfica dos efeitos de mar aberto se transformando em efeitos mais orgânicos, como maquiagem e emagrecimento dos personagens para retratar os efeitos dos náufragos à deriva sob o sol escaldante. Maquiagem esta até melhor do que as de situações similares nos filmes “As Aventuras de Pi” e “Invencível”.

Mas se as qualidades clássicas de Ron Howard conseguem dar o tom certo de aprofundamento para a adaptação de um livro que analisa outro livro, os cacuetes do diretor também seguem de mãos dadas, ora acertando ora nem tanto. Geralmente apelando para emocionar, consegue um bom resultado na primeira caçada às baleias, já que para os tempos politicamente corretos de hoje seria impalatável retratar a chacina de animais em extinção sem que o Peeta ou Greenpeace caísse em cima e com razão, mas que deve-se entender que a caça de baleias pra época retratada de 1820 era completamente normal, em busca do óleo feito de sua gordura para iluminar as cidades com luz à base de óleo. Tanto que o cineasta trata a morte da 1a baleia com extrema sensibilidade, numa chuva esguichada de sangue a banhar o protagonista na pele de Chris Hemsworth (o eterno Thor), demonstrando o quão profundamente abatido fica com sua obrigação profissional e a adrenalina culposa gerada em decorrência. É desta culpa que a natureza acuada irá reagir, personificada na enorme baleia vingadora, um reflexo simbiótico da natureza do homem ao desequilibrar um ecossistema perfeito. Mas Hemsworth tem a fibra necessária para encarnar o personagem?

O que a direção ajuda na dramaturgia de cena como a fotografia contrastante entre ângulos pequenos e grandes, como o homem frente à baleia, deixa um pouco a peteca cair em guiar o ator, até porque o carisma inegável do galã loiro já provou o que faz quando bem dirigido pelo próprio Howard em “Rush – No Limite da Emoção”. Já nos mares, faltou um pouco de tutano à la Russell Crowe em “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo”, e o resto do elenco sofre não pela atuação, e sim pelo roteiro deixar de aproveitá-los em prol do foco principal, como Cillian Murphy e principalmente Ben Wishaw na pele de Herman Melville, o qual desencadeia toda a história e acaba ligeiramente esvaziada.

Como já dizia Dori de “Procurando Nemo”, que bem já sabia falar baleiês: “Continue a Nadar, continue a nadar…”

 

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3