Nocaute

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10 de setembro de 2015

A peleja dos lutadores de boxe rendeu ícones na trajetória cinematográfica ao longo dos anos. Sylvester Stallone marcou seu lugar na constelação hollywoodiana como Rocky Balboa, Jon Voight será sempre lembrado como o paizão que literalmente lutou pelo filho em “O Campeão” (1979), e Roberto De Niro, soberbo, foi capaz de transformar a pancadaria sanguinolenta em arte ao lado de Martin Scorsese com “Touro Indomável” (1980). Incluindo-se no grupo de cineastas que exploraram o potencial do esporte e do atleta até a última gota, o diretor Antoine Fuqua (de “Dia de Treinamento” ― 2001 e “Rei Arthur” ― 2004) leva “Nocaute” à sala escura, ilustrando sem amenizações as agruras do boxeador Billy Hope. De bônus, vem a atuação de Jake Gyllenhaal, marcada por forte caracterização física e emocional. Após a notável entrega em “O Abutre” (2014), o ator carimba no currículo mais um desempenho que exige assombrosa transformação.

Do canonizado “Touro Indomável”, o filme atual se apropria dessa questão da violência que ultrapassa os limites das cordas no ringue, interferindo de forma destrutiva na vida pessoal do pugilista. Foi assim com Jake La Motta, com o feroz ciúme que sentia pela mulher tratada como posse, e assim será com Billy Hope, que sempre reage com sangue nos olhos a cada afronta ou decisão que não lhe agrade. Dono de uma infância conturbada sem grandes oportunidades nos estudos, situação recorrente no mundo dos esportes, Hope trocou o lápis pelas luvas e fez fama e fortuna com a virtude demonstrada em ação. Reverberando outro aspecto do Jake de De Niro, Hope é também um gigante que, mesmo destroçado, resiste com bravura à queda. O método resulta em feridas, difíceis de cicatrizar, que começam a incomodar a mulher de Billy, a bela Maureen Hope (Rachel McAdams). Ela quer que o marido peça a aposentadoria, antes que sequelas irreversíveis o impeçam de acompanhar as conquistas da filha, enquanto o empresário Jordan Mains (50 Cent ― interpretação comedida, mas eficaz do rapper) insiste na assinatura de um contrato milionário.

A maior disputa que envolve Hope, na verdade, não está em um novo e desafiador combate, mas sim no campo emocional. É no confronto entre a aposentadoria e a permanência da atividade que seu destino descarrila. Em corners opostos, estão a companheira Maureen, representação da paz e do descanso, e o rival Miguel Escobar (Miguel Gomez), uma figura que, com suas provocações, estimula ainda mais o instinto selvagem de Hope. Culpa dessa sua vulnerabilidade violenta que a mulher, a tal representação da paz, cai na lona nocauteada. Uma tragédia que a deixa fora da jogada. Nesse caso, o vilão e o mocinho não se reduzem a definições mornas e convencionais ― o bem e o mal estão no interior do próprio Hope. Na desgastante trajetória de ascendência, após os traumas da falência e da guarda perdida da filha Leila (Oona Laurence), o protagonista tem que honrar o sobrenome (esperança em inglês) e mostrar que uma volta por cima ainda é possível. Com a ajuda de Tick Wills (Forest Whitaker), um treinador descrente, Hope começa do zero. Retornando ao assunto das referências, “Nocaute”, ao mostrar a intensidade da ligação entre Billy Hope e a pequena Leila, reverte a dor da separação familiar, no fim do filme “O Campeão”, em alívio redentor no abraço entre pai e filha.

 

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4