O Abutre

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21 de dezembro de 2014

Roteirista de blockbusters como “Gigantes de Aço” e “O Legado Bourne”, Dan Gilroy marca sua estreia na direção em grande estilo com “O Abutre”. Ambientada em Los Angeles, a trama gira em torno de Louis Bloom (Jake Gyllenhaal), um jovem obstinado à procura de trabalho que se encontra no mundo do jornalismo sensacionalista da dita Cidade dos Anjos. Certo de que nasceu para o “ofício” e de que tem boas chances de crescer no ramo, Lou começa a investir em sua carreira: compra equipamentos, contrata Rick (Riz Ahmed) como assistente e firma uma parceria com Nina (Rene Russo), uma experiente editora-chefe de noticiários sensacionalistas sanguinários de um canal local.

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Ao contrário do personagem de Ricardo Darín no longa argentino “Abutres” (2010) que em dado momento questiona a sua falta de ética, o personagem de Gyllenhaal não tem limites, escrúpulos ou sentimento de culpa, muito menos ética; vale tudo para subir na vida. A famosa afirmação de Nicolau Maquiavel, “os fins justificam os meios”, lhe cai como uma luva. Assim como o personagem Charles Tatum (Kirk Douglas) de “A Montanha dos Sete Abutres” (Billy Wilder, 1951), Lou cruza a perigosa fronteira moral que divide o jornalismo sensacionalista do crime e desenvolve uma diabólica subtrama em que manipula friamente cada acontecimento. A concorrência para ver quem chega primeiro é tão animal quanto seus atos para alcançar o feito. No entanto, como ambos sabiamente declararam nos respectivos filmes, se há tamanha variedade de notícias mórbidas é porque há demanda de público. O lucro em cima da tragédia deve-se à curiosidade e ao prazer culposo do ser humano em assisti-la.

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Jake Gyllenhaal, que vem se destacando em suspenses psicológicos como “Os Suspeitos” e “O Homem Duplicado”, tem em “Nightcrawler” (no original) a melhor atuação de sua carreira e uma imensa chance de faturar o Oscar de Melhor Ator no próximo ano. Completamente entregue ao papel, o ator perdeu peso para dar vida a um oportunista ambicioso de olhos e ouvidos tão atentos quanto aos da ave de rapina que dá nome ao filme, faminto por acidentes, assassinatos, incêndios e todo tipo de desgraça. Com seu Lou Bloom, Gyllenhaal traz de volta um ângulo sombrio de “Donnie Darko” para um papel complexo e contraditoriamente humano; um sociopata com requintes de psicopata que tem todo cuidado com um vaso de planta, mas que não possui a menor compaixão por outro ser humano. A atriz Rene Russo, que é esposa de Gilroy, também dá um show de interpretação e nos apresenta uma Nina com tantos escrúpulos quanto seu pupilo. Ela é um outro abutre, que se revela gradativamente, o par perfeito para Lou.

Jake Gyllenhaal plays an unscrupulous news cameraman in the thriller Nightcrawler

Com um roteiro instigante de Dan Gilroy, muito bem conduzido pelo mesmo na direção, e diálogos afiados, “O Abutre” traz à tona temas polêmicos sob a luz da penumbra que assola as noites de Los Angeles. A meticulosa câmera de Gilroy aproxima o espectador do protagonista ao captar todos os seus movimentos e a sua evolução, e se entremeia numa metalinguagem com a atenta câmera de Lou: uma filmagem sobre filmagens, uma câmera que filma a outra, dentro da outra. Embalado por uma trilha sonora marcante e inquietante, “O Abutre” é o tipo de filme que te prende do início ao fim e te faz pedir por mais. O desfecho, incrivelmente real, confirma mais uma vez que a Cidade dos Anjos é habitada, na verdade, por outro tipo de seres com asas.

 

O Abutre (Nightcrawler)

EUA – 2014. 117 minutos.

Direção: Dan Gilroy

Com: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton e Riz Ahmed.

 

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 5