O Agente da U.N.C.L.E.

Metrossexual, Pansexual, todos os ‘sexual’

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03 de setembro de 2015

A matemática está em tudo, e não se trata apenas de calcular orçamentos zilionários. Fazer filmes envolve outros tipos de cálculo também. Todavia, espírito e personalidade não podem ser dados por equações. Fossem outros tempos, “O Agente da U.n.c.l.e.” (“The Man from U.n.c.l.e.” – 2015, de Guy Ritchie) seria calculadamente o blockbuster do ano, com todos os elementos certos, um filme muito mais de estilo do que de ação. Pena que não no ano que (in)felizmente se elevou o padrão tão alto para o gênero quanto em “Mad Max”, “Missão Impossível: Nação Secreta”, “Kingsman” etc. Ficou difícil concorrer.

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Adaptação contemporânea do seriado televisivo de 1964 com senso de humor irônico e afiado, um ex-soldado americano que virou ladrão de luxo na Europa é recrutado pelo governo para atuar ao lado de agente durão russo da KGB. Dois opostos que se atraem. E, para lubrificar a velha parceria entre policial bom e policial mau, evoluiu-se uma brincadeira de gêneros e orientação sexual destes novos tempos que abraçaram as diferenças, com inúmeras piadinhas tanto mútuas entre os personagens quanto do roteiro com eles, brincando de enrusti-los e desenrusti-los a todo momento. Quem já viu o seriado de TV “Rizzoli & Isles” sabe bem, pois até há um jogo popular dos fãs em beber uma dose de tequila para cada indireta sugestiva entre as duas detetives…

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Guy Ritchie acabou se distanciando um pouco em sua carreira do frescor inicial e começou a ser tachado por seus maneirismos excessivos de influência videoclíptica. Já aqui, ele realmente se contém em prol de um bem maior, arrefecendo o frenesi de montagens como as que fez nos dois filmes de “Sherlock Holmes”, e soube usar muito bem efeitos de câmera e ângulos, com uma fusão entre closes e panorâmicas luxuriosas. A divisão de telas feito HQ é bela referência às séries da época, não só da que originou o filme como “As Panteras”, “O Homem de Um Milhão de Dólares” e etc… A seleção musical toda retro e soul que serve para construir o pano de fundo é primorosa, além de a homenagem a faroestes para reforçar a testosterona da dupla de protagonistas, tanto nos closes de tensão psicológica quanto na trilha orquestrada, incrementarem bastante o clima sessentista de espetáculo plástico. Aliás, como o filme viaja por várias belas locações européias, inclusive Itália, pode-se dizer que, ‘quando em Roma…’, Guy Ritchie ousou homenagear até os filmes italianos e elegância de se filmar antigamente nos estúdios do Cinecittà, principalmente nos vilões, com a exuberância da atriz Elizabeth Debicki e seus figurinos (cujo brilho foi revelado em “O Grande Gatsby” de Baz Luhrmann). Um pouco de Visconti na nobreza mafiosa polarizada dos pós-guerras mundiais.

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Com toda esta bagagem técnica, pena que o filme escorregue um pouco na ausência de mais carisma, o que se deve em parte ao elenco. O que o roteiro e diálogos lhes dão, como descrito acima, desgasta-se um pouco com falta de pulso firme dos atores principais. Armie Hammer (excelente interpretando gêmeos em “A Rede Social”) demora a se sentir confortável como o agente russo, parecendo forçadamente escalado para o papel. A mocinha na pele de Alicia Vakander (promissora em “Ex Machina”) rende apenas o padrão, além de uma participação esquecível de Hugh Grant como um personagem surpresa. Ao menos Henry Cavill, notabilizado desde “O Homem de Aço”, ganha um pouco mais de espaço para enfim crescer como protagonista de pipocões com ritmo e elegância inegáveis. Além disso, o humor é muito mais irônico do que simplesmente engraçado, o que pode não facilitar o divertimento esperado. Agora só falta “007 contra Spectre” para desbancar todos os ótimos filmes de espionagem do ano…

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3