O ano do dragão

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14 de novembro de 2014

O ano do dragão combina a aguardada ação de uma fita policial da década de 80 com tintas políticas fortes e relevantes sobre racismo, além de um comentário sobre a dualidade do caráter humano. O roteiro de Oliver Stone e do diretor Michael Cimino aborda o lado sombrio de Chinatown, que lida com violência de gangues e escravidão. Embora seja o retrato de uma parcela da população, é ainda sombrio. A combinação da abordagem operística de violência de Stone com a abordagem melodramática e sombria de Cimino lega um filme que satisfaz num nível imediato e, em seguida, provoca discussões sobre o conflito representado em seus protagonistas.

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A trama segue um policial, Stanley White (Mickey Rourke), a que é delegado comando sobre o bairro de Chinatown, em Nova York. Com a missão de diminuir a violência escaladora entre as gangues, White usará de todos os métodos para cumprir seu intuito. Veterano do Vietnã, White é um racista assumido, o que torna a situação mais tensa. Em paralelo, o gangster Joey Tai (John Lone) ascende na máfia chinesa do bairro. Quase tão impetuoso quanto ambicioso, não mede esforços para atingir seus objetivos. O confronto entre as duas forças em cada lado da lei irá ter consequências graves para cada um e a região.

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O filme tem um ritmo ágil, ocasionalmente interrompido para sequências mais calmas que exploram a personalidade dos protagonistas. A coreografia nas cenas violentas é eficaz e muito bem filmada por Cimino. O diretor mais uma vez faz uso de seu senso visual apurado para transmitir a tensão e o choque de culturas através das cores vibrantes e enquadramentos fechados. Há pouco de sua grandiosidade na montagem de quadros, com exceção da impressionante chegada de Tai a um acampamento militar na Tailândia. Mais preocupado em contar a história, ainda assim consegue realizar uma investigação sobre questões pertinentes, como a utilização política do racismo . Baseando-se mais no texto do que no visual, Cimino esclarece o caráter duvidoso do personagem de Rourke. Carismático, o ator utiliza da melhor forma esta característica para fazer com que o espectador torça por um personagem antissocial e bastante desagradável, cujo único elemento redentor, a obstinação, provém da mesma fonte que seus defeitos, o ódio irracional, cego à razão. Já Lone cria um vilão suave e respeitoso, que seria admirável se não fosse sua violência. Este duelo entre atores e personagens é bem encenado por todos os envolvidos. Este fator, além da eficácia técnica, torna o filme memorável.

 

Festival do Rio 2014 – A América Maldita de Michael Cimino

 

O ano do dragão (Year of the dragon)

EUA, 1985. 134 min.

Direção: Michael Cimino

Com:  Mickey Rourke, John Lone

Avaliação Daniel Russell Ribas

Nota 4