O Ano Mais Violento

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02 de abril de 2015

Com “Até o Fim” (2013), o cineasta J.C. Chandor demonstrou seu potencial como contador de histórias. Tratava-se de um filme sem arrimo de diálogos, que se comunicava com o público com o poder de suas imagens ― bem como de suas metáforas ― e com a magnitude da atuação de Robert Redford, único e soberano personagem por toda a película. Em “O Ano Mais Violento”, Chandor leva o seu talento ao apogeu, dirigindo uma trama de ambição perigosa cujo cenário é a Nova York em 1981, seu ano mais violento. Mesmo que seja grande a possibilidade, em nenhum momento o longa cai na armadilha de mimetizar os célebres filmes de gângsteres orquestrados por Coppola, De Palma ou Scorsese. “O Ano Mais Violento” tem identidade própria, qualidade que não impede o surgimento até bem claro de referências. Fato que resulta da excelência do conjunto da obra, nunca da imitação.

most4Ainda nos créditos iniciais, antes mesmo do primeiro plano, ouve-se o fôlego do protagonista, o empresário do ramo do petróleo Abel Morales (Oscar Isaac ― soberbo). Na ocasião ele corre, simplesmente praticando um exercício, enquanto a ação é intercalada por planos que introduzem o espectador aos negócios de Abel, imagens que consistem no trajeto do combustível por ele comercializado. A sequência, aparentemente descompromissada, é uma bela metáfora do que virá a seguir ― o imigrante Abel Morales, diante da iminência do desabamento de seu império erigido em solo norte-americano, começa uma corrida desenfreada por objetivos de expansão, enquanto foge, ainda mais incansavelmente, de máculas que lhe podem tomar a integridade. Na trilha do desejo de prosperidade, Abel encontra uma pedra no caminho ― um homem chamado Lawrence (David Oyelowo), o promotor ávido por encontrar manobras escusas na trajetória ascendente do magnata.

mostA violência na qual o filme se insere não se apoia na agressão física. Vozes de transmissões radiofônicas se encarregam da contextualização. São muitos os delitos divulgados nos noticiários. A criminalidade da época afeta Morales quando suas cargas de combustível começam a ser roubadas com cada vez mais frequência. Julian (Elyes Gabel), imigrante sem tanta sorte (ou sem dom para a ambição), quase perdeu a vida durante um dos roubos: ele dirigia o caminhão quando foi espancado pelos bandidos que interceptaram a carga. Em o “Ano Mais Violento”, a arma de fogo é mais que objeto indispensável em tramas do gênero. É símbolo cabal de conflitos de diferentes naturezas, da violência cada vez mais invasora. Abel resiste à ideia de armar ilegalmente seus motoristas para que eles possam reagir aos assaltos, até que disparos atabalhoados lhe transformam em alvo da justiça. É também um revólver, carregado, que vai parar nas mãos de sua filha pequena por descuido, para a fúria de sua esposa Anna Morales (Jessica Chastain – sob a batuta de J.C. Chandor, a atriz chega ao topo daquele mundo obscuro). Por falar no casal, Abel e Anna representam os dois lados da mesma moeda. Ele tem a retidão como ideal, enquanto nela, a falta de escrúpulos favorece a intenção de proteger o luxo da família. Ambos pegam em armas, a diferença é que a coragem de puxar o gatilho pertence somente a Anna, mulher com sangue de gângster a correr pelas veias, uma herança paterna.

most1A cena após um acidente de automóvel, o casal está na estrada quando um animal colide com o carro, é outra passagem repleta de simbolismo ― é Anna que toma a dianteira da situação em uma atitude que deixa subentendida a necessidade dela de eliminar a honestidade relutante do marido. Algo sólido, mas falível como o bicho que agoniza no asfalto. Os dois combustíveis, o sangue e o petróleo, se misturam tarde, mas apropriadamente, para um desenlace magistral. J.C. Chandor lembra que o visionário protagonista, tão humano e corruptível, é mesmo movido pelo sangue negro. Tema riquíssimo, diga-se de passagem. Basta citar um exemplo de tempos longínquos, década de 1950: o Jett Rink de James Dean ungido com petróleo na cena emblemática do filme “Assim Caminha a Humanidade” (1956), de George Stevens.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5
  • http://www.tupi.am/nafita Ana Rodrigues

    Que lembrança incrível de Assim Caminha a Humanidade. Adorei !