O Cidadão do Ano

Crônica Social e Exercício Estilístico europeu superior aos genéricos à la "Busca Implacável"

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27 de julho de 2015

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Filmes de gênero. Filmes estéticos. Filmes de ator. Cada qual destes nichos mencionados pode incidir isoladamente ou conjuntamente nas qualidades de uma obra para os cinemas. Tela grande. Widescreen. Realmente uma fotografia conta muito. Ainda mais se ela for bela não apenas pelas imagens e locações, e sim porque foi planejada como tal, milimetricamente calculada para cada móvel, acessório, personagem, luz e sombra tornasse o caleidoscópio ainda mais poderoso. Junte a isto o gênero de máfia, subcategoria do gênero policial, fusão de ação com suspense, ou thriller. E ainda dê o papel principal a um ator daqueles que dá show e tira leite de pedra de seu texto, no caso Stellan Skarsgard (de “Thor” e “Ninfomaníaca”). Eis que se poderia ter o novo “O Poderoso Chefão”, por mais herege que esta afirmação possa parecer. Contudo, ‘fã-náticos’ podem descansar que o pódio inalcançável do clássico dos clássicos continua intacto, uma vez que “O Cidadão do Ano” (“Kraftidioten”, de Hans Petter Moland) dá uma derrapada feia para um tom de paródia que deixa de levar o roteiro a sério, e negligencia o desenvolvimento de qualquer outro personagem, no que acaba sendo um entretenimento muito divertido, porém menos artístico do que tinha potencial.

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Começando com empenho promissor, a fotografia na neve lembra muito um misto de “Fargo” dos irmãos Coen e “Era uma Vez na Anatólia” de Ceylan, para depois agregar ao mote batido de vingança de um homem só, típico da atual franquia “Busca Implacável”, vários temas sociológicos como xenofobia europeia e capitalismo selvagem. Ou seja, o título “Cidadão do Ano” é concedido ao dono da empresa que abre caminho nas estradas cheias de neve, e a quem eles consideram um exemplo de sucesso na sociedade norueguesa, por coincidência um estrangeiro bem assimilado, e que acaba tendo seu filho morto numa intriga de tráfico de drogas e máfia política. Eis que o cidadão do ano, um invasor da cultura alheia, vai começar um processo de vingança mais eficiente e certeiro do que os nativos daquela terra, em analogia ao negócio dele pelo qual foi homenageado pra começo de conversa. Limpando caminho como um trator em meio ao asfalto congelado.

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O problema começa com o personagem do vilão na pele de Päl Sverre Hagen. Não pela interpretação em si, e sim por diferença de tom com o resto do elenco. Enquanto seu personagem assume um tom de pastiche desde o princípio, até muito bem, o filme não se declara como paródia de máfia, começando com verve dramática e clima sóbrio e sisudo complementado pela fotografia noir e as expressões taciturnas acertadas de Stellan. Depois, boas ideias como mostrar os obituários de cada pessoa eliminada, ou mesmo ver repetidamente cada corpo sendo arremessado das frias cachoeiras na neve, começam a ser deturpadas e usadas em abuso, de modo que se acrescentam mais e mais personagens que nem nome tinham, apenas para gerar mais obituários engraçadinhos. O problema é que os novos personagens sequer são bem trabalhados, ao ponto em que o renomado ator Bruno Ganz (de “Nosferatu” de Herzog e “A Queda”) aterrissa do nada na trama para cair igualmente no vazio, apenas sendo mais um chefão mafioso estrangeiro, confundido por outras tantas nacionalidades imigrantes que desfilam na crítica de “O Cidadão do Ano” e de qual seria de fato o modelo ideal europeu. O que não é o bastante para sustentar a trama, que ainda funciona como um exercício muito superior estilisticamente aos genéricos hollywoodianos do gênero à la sequências de “Busca Implacável” (ironicamente roteirizadas por um europeu assimilado pela cultura estrangeira americana, Luc Besson).

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3