O cinema vira hóspede da ‘Casa Grande’

Assunto do momento na cultura, o filme de Fellipe Gamarano Barbosa se afirma em salas lotadas e papos de bar como um acontecimento audiovisual capaz de mobilizar debates sociais

por

26 de abril de 2015

13 13 13 CASA GRANDE CG

De tempos em tempos, um filme brasileiro consegue se tornar “o” assunto mobilizador das mesas de bar – cinéfilas ou não – e integrar pessoas das mais variadas relações com a arte a partir de uma reflexão social, como conseguiram os longas-metragens “Cidade de Deus”, “Tropa de elite” (partes 1, de 2007, e 2, de 2010) e “O som ao redor”, de 2012. É hora e vez de “Casa Grande” assumir esse papel, que vem sendo desempenhado com a participação da mídia e o interesse maciço dos espectadores, vide os 20 mil pagantes que prestigiaram o drama de Fellipe Gamarano Barbosa, projetado anteriormente em cerca de 70 festivais internacionais, incluindo o de Roterdã, na Holanda, totalizando, ao largo destes eventos, 12 prêmios e uma menção honrosa. Eleito melhor filme pelo júri popular no Festival do Rio, em outubro passado, o longa – centrado no processo de amadurecimento de um adolescente frente ao esfacelamento financeiro de sua família – vem sendo saudado por diretores veteranos como um estandarte de qualidade. Em entrevista ao ALMANAQUE VIRTUAL, o cinemanovista Carlos Diegues cravou:

– “Casa Grande” é mais um exemplo de qualidade de uma nova e recente tendência do cinema brasileiro em sua diversidade, abordando a vida urbana de nossas classes médias, com uma visão contemporânea do cinema e total ausência de demagogia e autopiedade, como está também em “O som ao redor”, “O lobo atrás da porta”, “Hoje eu quero voltar sozinho” e outros – diz Diegues.   

CG CASA GRANDE Casa Grande

Com base em elementos autobiográficos, “Casa Grande” alinha-se com a tradição das narrativas geracionais sobre maturidade, construindo uma crônica de uma certa juventude que adolesceu em meio à instabilidade do Plano Real e a falência da alta classe média do bairro do Itanhangá, na Zona Oeste-RJ. Apesar de seu foco estar em um só guri, Jean (Thales Cavalcanti), esse rapaz é um mosaico de outros muitos garotos de 17 e poucos anos, em tempo de alistamento e em tempo de vestibular, que tenta domar os fantasmas hormonais da idade, em meio às ruínas institucionais do país. Jean cresce emparedado pelo zelo desbocado de seu pai, o economista Hugo (Marcello Naves, numa atuação a ser aplaudida a cada fala), e pela superproteção de sua mãe, Sônia. Professora de Francês (e mais tarde vendedora de cosméticos), Sônia é vivida pela atriz Suzana Pires, que traz de experiências pregressas com Barbosa, em curtas como “Beijo de sal” (2007).

Sob o véu do amor familiar, ao lado de uma irmã caçula de quem desdenha, Jean tenta conter a erupção vulcânica de seus desejos. Primeiro, o desejo de levar uma menina para cama. Desejo este que ele tenta sublimar ao esfregar creme nas coxas de sua empregada boazuda, Rita (Clarissa Pinheiro, um açaí humano de comicidade e sensualidade explosivas). Em segundo lugar, vem o desejo de desbravar o Rio sozinho. Ele quer sair pela cidade sem o motorista que lhe serve de escudeiro e tutor. Mas, conforme a narrativa avança, esses desejos vão se realizar. Mas a realização não se dá por generosidade da vida, mas sim porque o castelo de aparências onde Jean vive entra em fase de desmanche financeira. A solidez da família tenta resistir à desaparição gradual de um mundo de riqueza mediada pelos jogos de Hugo na Bolsa de Valores, a partir de seu desligamento do banco onde trabalhava. O dinheiro se vai. E a paz vai junto. E Hugo é pego nesse toró sem guarda-chuva. É sobre esta tempestade – e, principalmente, sobre o sucesso de público e crítica do longa – que Barbosa, diretor carioca de 34 anos, fala nesta entrevista:

O diretor Fellipe Gamarano Barbosa

O diretor Fellipe Gamarano Barbosa

De que maneira “Casa Grande” dialoga com a tradição do cinema social brasileiro? Haveria conexões com filmes como “Tudo bem” (1978), do Arnaldo Jabor, que pensaram as estratificações sociais do país?

Eu não tinha pensado em “Tudo bem” mas faz sentido. Preciso rever. O lado cronista do Jabor deve ter me influenciado; eu adorava o “Sanduíches de Realidade”, inclusive tentei adaptar um conto daquele livro. Minhas referências mais conscientes são os filmes de amadurecimento do cinema francês (Malle, Truffaut), “Céu e Inferno”, do Kurosawa, o teatro de Tchekov, que eu devorava na época do primeiro tratamento do roteiro, feito com Karen Sztajnberg. Tem também Almodóvar, pelo tom e o amor incondicional aos personagens, e alguns filmes latino-americanos mais recentes (“Y tu mamá también”, “La niña santa”, “Cama adentro”, “La nana”). No cinema brasileiro, a maior influência sempre vai ser “O padre e a moça”, do Joaquim Pedro de Andrade, que é uma aula de cinema e de delicadeza. Mas “Casa Grande” é também uma resposta a uma ausência de filmes do ponto de vista da burguesia. Queria preencher essa lacuna, e isso foi muito consciente. “O Som ao redor” é uma influência, pois, seu realizador, o Kléber Mendonça, e eu conversamos muito durante nossos processos, e porque há diversas pessoas chave em comum nas nossas equipes: Clara, Pedro, Amanda, Brenda, Renato e Edu. Depois de eu começar a circular com o filme, a referência que mais ouvi foi Jacques Tati, por causa do primeiro plano. Deve ser também. Inclusive estou usando uma camiseta com um desenho de Tati agora, mas não tinha pensado nele na época.

 

Como você encara a boa recepção popular ao filme, que vem lotando sessões à força do boca a boca positivo?

Estou muito emocionado. Perdi a conta de quantas vezes chorei essa semana. Tenho recebido mensagens lindas de pessoas que não conhecia e de amigos que foram rever o filme. Isso é incrível, saber que tem gente revendo o filme. Minha companheira está filmando fora do Rio, então tenho curtido esse momento bastante sozinho, ouvindo música no meu novo aparelho de som de 1982. Imagina: em menos de 24 horas fiquei sabendo que Caetano, Jabor e Daniel Filho tinham visto o filme. Eu que já paguei tantos ingressos pra vê-los e ouvi-los! Sinal de que o filme aconteceu, venha o que vier. Lamento a perda de algumas salas em que fomos muitíssimo bem e já entendo bem melhor a dura realidade do mercado. Tento pensar em saídas para esse estrangulamento, mas é cedo pra falar sobre isso. O que importa agora (no ato em que esta entrevista foi redigida) é que acabei de voltar do cine Estação Gávea pra checar a projeção (ótima), e a sala estava 100% cheia. Acho que é sinal de uma certa crise de representação, onde as classes média/alta não estavam se vendo nas telonas, somente nas telinhas, mas de uma maneira um pouco fácil, não tão complexa quanto elas se vêem. Precisamos nos reconhecer nas telas. Foi esse mesmo impulso que me levou a querer fazer esse filme.

Casa Grande Thalles

Qual é o paradigma de juventude que o Jean, seu protagonista, representa? Além das reflexões sociais, seu “Casa Grande” é um ensaio sobre o amadurecimento afetivo. Como esse personagem traduz a sua visão sobre amadurecer?

Jean representa uma juventude que está dormindo no conforto do ar condicionado, mas que precisa acordar e tornar-se mais presente no mundo. Essa apatia inicial traduz-se em alienação. Jean tem um enorme afeto pelos empregados da casa, sente-se em casa com eles, mas sabe nada ou quase nada das suas vidas — o que não torna seu afeto menos verdadeiro. A jornada de Jean é de tomada de consciência da cidade, da casa, dos pais, mas principalmente da sua própria ignorância. Amadurecer talvez seja justamente esse movimento de tomar consciência do outro e colocar-se no seu lugar. Por mais que Jean faça um grande esforço, esse movimento dificilmente é pleno.