O Imigrante Russo

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18 de junho de 2015

O filme “O Imigrante Russo”, dirigido por Stanislav Güntner, começa com o clima apreensivo de um roubo a uma residência na Alemanha, um ato criminoso que acompanhará os passos do protagonista Dima (Mark Filatov) por toda a projeção. A nacionalidade russa do rapaz fora da lei e a situação inicial acabam por estimular a lembrança de um personagem emblemático do escritor também russo Fiódor Dostoiévski, o jovem Raskólnikov do livro “Crime e Castigo”. Por mais diferentes que sejam as motivações. Dima é preso antes de conseguir fugir com o produto do roubo, a moeda rara de um colecionador, não saindo impune do local como aconteceu com Raskólnikov. Guardadas as devidas proporções do crime cometido por cada personagem, ambos terão de lidar, cada um a sua maneira, com os efeitos do arrependimento.

Dima, o rapaz russo, natural da Sibéria, cumpre sua pena e volta para a casa da família gerada em raízes distintas, um pai russo e uma mãe alemã. Mesmo meio deslocado na capital alemã, em Berlim, ele não cogita um retorno à Rússia. A saída da prisão e a recepção calorosa por parte daqueles que o esperam do lado de fora imediatamente criam uma ilusão de liberdade, mas o jovem ainda está preso por amarras que o relacionam ao erro – o chefe da gangue Georgij (Àlex Brendemühl), acompanhado dos comparsas, está agora no seu encalço. A preocupação aumenta quando ele conhece a bela Nadja (Emilia Schüle), uma garota de família nobre, estudante de artes, com a qual Dima inicia um relacionamento amoroso. Sem aderir por completo às características do thriller, nem exacerbar o drama do protagonista, “O Imigrante Russo” é exitoso ao conseguir manter firme o interesse do espectador com conteúdo de qualidade.

Nem quando se prolonga apenas nos sentimentos afetivos de Dima o filme resvala na leviandade da paixonite juvenil ― um processo que inclui o flerte e o posterior envolvimento que acaba esbarrando na obsessão de um ex-namorado de Nadja. Interessante também é a relação que o diretor Stanislav Güntner estabelece entre o pecado e a absolvição do protagonista, utilizando elementos religiosos. Não é à toa que Dima encena um trecho da Bíblia, interpretando Jesus resistindo a uma espécie de sedução do Diabo. Mais próximo do desfecho, surge outra referência ― o imigrante russo do título purifica-se na igreja, não do modo tradicional, mas por meio de uma atitude que rompe seus laços com um passado errante.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4